Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Para entender as eleições do Vasco

Uma análise do recente pleito no clube carioca demonstra que o futebol pode e deve ser politizado.

Fachada da entrada do estádio de São Januário - Reprodução
Fachada da entrada do estádio de São Januário - Reprodução

Na última semana teve lugar, no Club de Regatas Vasco da Gama, eleições que definiram a nova diretoria do clube carioca. Repleta de reviravoltas, traições e personagens quixotescos, o pleito poderia soar cômico se não tivesse sido realizado em um país já tão acostumado a jogos políticos espúrios. Se, como diz Franklin Foer, o futebol pode explicar o mundo, as eleições no Vasco serviram como microcosmo da política tupiniquim. Buscar compreendê-la é o que propõe Leandro Fontes a seguir demonstrando que, longe de ser “o ópio do povo”, o esporte bretão pode e necessita ser politizado.

Para entender as eleições do Vasco e a correlação de forças no clube

Uma avaliação inicial. A eleição do Vasco, estatutariamente, é indireta em dois turnos. A oposição unida, com Brant na cabeça, ganhou o primeiro turno. Em que pese como fator determinante a anulação da polêmica urna 7. Neste turno votam os sócios estatutários em dia com o clube. No segundo turno, o colégio eleitoral é definido por 150 beneméritos natos e mais 150 conselheiros eleitos pelas chapas no primeiro turno da eleição. Sendo que, 120 são nomeados pela chapa vencedora e 30 pela chapa que alcançou o segundo lugar. Assim sendo, Eurico indicou 30 nomes e a chapa de oposição 120. Com o racha da chapa de oposição, esse contingente foi dividido por 2 entre as representações de Julio Brant e Alexandre Campello. Essa jogada definiu a eleição, pois se no primeiro turno ocorreu uma frente única contra Eurico. Já no segundo, o jogo se inverteu. Isto é, ocorreu uma unidade sui generis dos conselheiros de matizes distintas para derrotar Brant. Desse modo, a unidade (sazonal) antibrantista obteve uma vitória acachapante e elegeu Campello presidente do clube com 151 votos contra 88. Uma reviravolta histórica e com contradições até então submersas para grande parte da massa vascaína.

Podemos dizer que hoje no Vasco há três grandes campos políticos com vida útil internamente. No interior desses campos, há inúmeras correntes e grupos.

– O euriquismo (corrente Casaca à frente) é um campo que ainda guarda significativa influência nos grandes beneméritos, beneméritos, associados e parte, já em decadência, da torcida. Como uma espécie de “Dom Corleone” Eurico, por um lado, se move de modo arcaico, conservador e autocrático. Mas, por outro, se choca com o discurso hegemônico de “modernização” – também pode-se ler elitização – do futebol brasileiro. Esse elemento, contraditoriamente, faz com que associados de esquerda votarem no Eurico. E o próprio se chocar com as organizações Globo em vários episódios.

– O brantismo (corrente Sempre Vasco à frente) é um campo que, em maior ou menor medida, vem crescendo no clube. Representa de modo aberto a defesa do clube “moderno” que se vincule com o século 21. Nitidamente, seu porta-voz e maior articador, Julio Brant, apresenta traços autênticos de um jovem liberal, que preserva relação com setores graúdos multinacionais. Dai veio rótulo, após uma declaração infeliz, de “almofadinha que não respeita os portugueses de padaria”. Porém, sua corrente política teve mais força como oposição e se apresentou – pelo menos em forma – como uma saída democrática ao euriquismo. Desse modo, Brant se materializou como voto útil.

– Frente Vasco Livre (corrente Identidade Vasco à Frente) é um campo que para fora do clube, para melhor entendimento, também pode ser designado como “progressista” por agregar em suas cabeças membros identificados com a esquerda como Roberto Monteiro (histórico membro da FJV, advogado, ex-vereador pelo PCdoB, hoje filiado no PT), Edimilson Valentim (ex-deputado do PCdoB), Eloi Ferreira Araújo (ex-Ministro de Igualdade Racial do Governo Lula, membro do PT), entre outros membros que tiveram passagens independentes no Vasco por fora do euriquismo, como é o caso do médico Alexandre Campello. Esse campo apresentou uma plataforma que ligava a tradição do clube a necessidade do Vasco renovar ou reformar sua democracia, oxigenando sua gestão, se distinguindo dos traços da era Eurico. Assim sendo, os matérias da Frente Vasco Livre era um híbrido do passado de pioneirismo revolucionário do clube com a necessidade de romper as amarras para o Gigante alcançar o futuro. Todavia, esse campo não teve força para hegemonizar a oposição no primeiro turno. Por isso, optou taticamente em unir as oposições em uma “frente única democrática”. Essa composição foi decisiva para maioria no colégio eleitoral do segundo turno. Porém, segundo a coletiva de Campello a pouco, após a vitória Brant isolou a Frente Vasco Livre e passou a tomar posições unilaterais. Essa é a causa da ruptura entre os grupos oposicionistas.

Opinião

Obviamente houve um velho cálculo político que foi utilizado, diante das circunstâncias, pelo campo Frente Vasco Livre e pelo campo euriquista. Assim sendo, para fora, Eurico vence Brant. E de fato isso aconteceu. Mas, para dentro à Frente Vasco Livre chega ao poder no clube. Isso igualmente ocorreu. Se olharmos as principais cadeiras, veremos que estão ocupadas por esse campo: Presidente do Conselho Deliberativo, Roberto Monteiro; Presidente do Conselho Fiscal, Edimilson Valentim; Vice-Presidente de Futebol, Fred Lopes; Presidente do Vasco, Alexandre Campello. Porém, a Frente Vasco Livre / Indenidade Vasco chega ao poder com o desgaste da súbita cisão com Brant e se apoiando nas brechas do regime interno do clube, que tem “forma, cheiro e gosto das amarras do passado”. Além disso, via Conselho dos Beneméritos, Eurico Miranda seguirá com força política no clube. Pois, foi vencido em um turno, mas não derrotado definitivamente.

Diante dos fatos, das incompreensões, da indignação de milhões e da cede por mudanças democráticas, é necessário apostar que talvez esse momento seja o ideal para plantarmos a semente de uma nova corrente no clube. Não há fórmulas prontas para tal passo. Mas, me parece, que um bom início seria a defesa que o Vasco passe a ter eleição única e direta aos associados para a presidência do clube. Radicalizar a democracia é o caminho. Passos dados por nossos pioneiros nos primeiros anos de vida de nosso clube. Viva o Club de Regatas Vasco da Gama.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista