Carta aberta aos militantes do PSOL
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Carta aberta aos militantes do PSOL

Carta de ingresso de Flaviano Correia Cardoso ao MES.

Flaviano Correia Cardoso 11 set 2020, 16:12

A tarefa de construir uma ferramenta política para a  luta socialista no Brasil sempre foi uma necessidade  de  mulheres  e  homens  explorados  e  oprimidos  pelo  projeto  de  dominação capitalista ao logo da história. Esse modo de construção social da vida criou uma classe, dentro da   humanidade   que   já   nasce   com   menos   direitos   e   sem   qualquer   privilégio: a classe trabalhadora.

Ao longo dessa história de brava resistência e profunda complexidade social, o entendimento teórico  e  político  das  entranhas  do  Capital,  de  suas  formas  de  dominação,  ideológica  e historicamente configuradas, impuseram importantes desafios, que ainda hoje se aprofundam. Afinal, entender a crise do capitalismo, a forma como ele se reconstrói a cada crise e como a ideologia da sua classe dominante se fortalece é uma tarefa fenomenal, pois estamos sempre diante da contradição de um sistema que se empenha em formatar seres humanos a aceitarem a sua exploração, muitas vezes até reproduzindo-a, enquanto não possuem consciência dos seus reais adversários e de sua condição de classe social.

Existe   algo,   contudo,   que   não   pode   ser   controlado.   O   Capitalismo   não   se   sustenta economicamente  e  tem  sido  cada  vez  mais  incapaz  de  garantir  a  vida  social.  A  eclosão  do COVID19,  é  a  prova  de  que  as  riquezas  humanas  ,  direcionadas  para  aparatos  bélicos  e  de inteligência contra um suposto terrorismo social, foi incapaz de suprir as necessidades de defesa humana ante as respostas implacáveis da natureza, seja em forma de um vírus mortal seja na forma de catástrofes climáticas.

O fato é que a formatação social que sua classe dominante produziu tem sido cada vez mais incapaz de garantir condições dignas para a humanidade além de ser insustentável na ralação com a natureza e com as cada vez mais complexas facetas da identidade humana que livremente emergem nas linhas da história social. Ou seja: a perspectiva de um amplo levante social que questione as bases estruturais desse sistema estão em pleno desenvolvimento e necessitam ser organizadas  e  ter  a  sua  expressão  na  sociedade.  Precisamos  fortalecer  uma  alternativa  de massas para a expressão política de uma nova ordem mundial.

No Brasil, a classe trabalhadora, há cerca de 40 anos, em um perfil que envolvia amplos setores operários,  camponeses  e  da  intelectualidade  de  esquerda,  inscreveu-se  na  história  com  a construção  de  um  instrumento  político  que  representava  os  seus  interesses:  o  Partido  dos Trabalhadores – PT. Esse partido foi a mais poderosa ferramenta de nossa classe. Durante sua história, contudo, o que vimos é que o partido optou por representar interesses de setores da classe oposta, rompendo a sua fronteira de classe, em um complexo processo de adaptação política, que envolveu temas como burocratização sindical, ampliação desregrada do arco de alianças  políticas,  além  da  priorização  da  gestão  do  sistema  capitalista no  país.  A  gestão  de governos é fundamental, mas o norte deve ser sempre o de lutar contra as desigualdades sociais. A  Realidade  é  que  não  foram  essas  as  opções  que  marcaram  a  ampla  maioria  das  gestões petistas!

A  identidade  do  PSOL  surge  diante  desta  crítica!  Afinal  não  poderíamos  nos  manter  de  um projeto  político que estaria a serviço da manutenção  dos lucros  extraordinários  dos grandes conglomerados econômicos em nosso país, ao tempo que para os trabalhadores, uma pequena parte da riqueza nacional era socializada. O PSOL surgiu com o desafio de construir um grande

movimento pelo resgate das tradições  históricas de luta dos trabalhadores  e do conjunto  da população pobre e com condições precarizadas, com o objetivo claro de resgatar a ferramenta que  o  PT  deixou  “aluir”.  Conquista  de  melhores  condições  de  vida  e  trabalho,  respeito  à diversidade, governos democráticos e dedicados à reduzir as diferenças entre o povo pobre e as elites, passou a ser a nossa missão estratégica. E essa tarefa, para nós deveria ser feita na luta! Pois  é  na  luta   social  que  mostramos  nossa  força  e  é  a  partir  dela  que  temos  as  melhores condições para avançar.

É nesse processo que me identifico enquanto sujeito histórico. E é dessa forma e método de ação política que produzo a síntese do meu ser, que nunca foi pessoal, mais sempre foi firme nos princípios políticos que aprendi a me agarrar nesse imenso arrastão da luta de classes.

Sofri um processo de expulsão quando fui presidente do DCE da UNIT em 2003. Fui para Curitiba e participei de uma experiência de ocupação de uma fábrica, a Diamantina Fosanese, construída pelos seus próprios trabalhadores, militei em São Paulo e ajudei na construção de uma Central Sindical,  a  Intersindical.  Ainda  estudante,  militei  no  movimento  estudantil,  em  Curitiba,  São Bernardo e Santos. Voltando à Sergipe em 2013, estive engajado na luta na periferia e pude ajudar a dirigir uma experiência vitoriosa de cerca de 600 famílias em uma ocupação de moradia no 17 de março. O novo amanhecer. Um vídeo produzido pelo camarada Vinícius Oliveira conta essa história. (Paz com Direitos no Youtube)

Nesse  processo  me  ví  acometido  de  importantes  erros  ideológicos  no  que  diz  respeito  a condições ideológicas atrasadas,   reconstruídas no meu ser social. Ao ter consciência disso, e sob profundo ataque de militantes do partido, resolví me afastar. Precisava de uma organização política que me ajudasse a compreender esses problemas. Lamentavelmente, não tive isso no PSOL. Decidi militar no PSTU, pois precisava de uma ferramenta política para continuar lutando, em militância. Embora tenha muito respeito aos camaradas do partido, expressei publicamente as minhas divergências quando o PSTU não se posicionou contra a prisão do Lula. Fiz isso em um       artigo       intitulado       “Porque sou contra a prisão do Lula”.   Com   esse artigo saí do PSTU e iniciei o diálogo nacional com companheiros do PSOL, visando o meu retorno as fileiras do partido.

Durante esse processo, mesmo sem partido, nunca deixei de militar nas fileiras da classe em SE. Atuei em várias ocupações de moradia, inclusive com ocupação da prefeitura. Mantive firme a atuação sindical na Caixa Econômica Federal, enquanto delegado sindical de base e ajudei, como advogado, na construção do Comitê Social de Crise – OAB-SE, ocupando a cadeira de Secretário Geral, nessa iniciativa, para representar os interesses do povo oprimido durante a pandemia. Em  resposta  a  uma luta que  protagonizei  contra o  assédio  moral  no  meu  local  de  trabalho, recentemente  fui  alvo  de  perseguição  política  na  Caixa  sendo  demitido  por  justa  causa  por organizar  essa  luta  na  agência  da  Caixa  (Siqueira  Campos).  Nunca  parei  de  militar,  estudar, refletir, autocriticar e aprimorar a minha condição enquanto sujeito político de classe.

O  período  que  passei  distante  do  partido  me  fez  refletir  que  é  preciso  que  tenhamos  uma ferramenta de massas.  Que  organize o  povo  nas  periferias  de nossa cidade,  que  enfrente o desafio de convocar o povo pobre e oprimido para lutar pelo seu espaço na política. A luta pelo PSOL é também a luta para organizar o povo negro contra o extermínio da polícia militar, é a luta dos gays, Trans, lésbicas e de quem não se encaixa em rótulos de gênero pelo direito de ser feliz enquanto seres humanos. O PSOL tem a vocação de ser um partido das massas inominadas que  assegure  o  espaço  democrático  ao  poder  social  aos  que  não  participam  da  política  por

determinação da politicagem tradicional. E nós temos o dever de viabilizar que isso aconteça! Temos  que  perder  a  timidez  e  filiar  esse  setor  da  sociedade,  assegurando  que  eles  tenham condições de lutar pelo seu espaço de poder em nossa sociedade.

Depois de muito debate e reflexões, escolhi a corrente do PSOL, MES- Movimento da Esquerda Socialista –  para militar. Retorno ao partido para dedicar os melhores anos de minha vida para sua  construção.  E  acredito  que o  PSOL  tem  que ser  uma alternativa  de  esquerda,  refletindo sobre os erros do PT, sem se somar aos que querem massacrar, prender e humilhar o Partido dos Trabalhadores. Temos um inimigo comum! Temos que construir uma ampla frente popular contra o desgoverno de Bolsonaro e precisamos fazer isso pela base. Seja a base sindical dos trabalhadores, seja a base popular na periferia que vive na informalidade, seja a base que se aglutina pelo direito a sua identidade de gênero e raça. Volto ao PSOL com a convicção que essa ferramenta  está  em  disputa  para  ser  o  mais  novo  e  importante  instrumento  da  classe trabalhadora para enfrentar o desafio de sua realização política. Volto ao PSOL para lutar pelo socialismo!  E  para  fortalecer  a  convicção  pujante  de  que  podemos  decidir  que nação  e  que sociedade no mundo inteiro nós queremos construir! Vamos á luta, aprendamos com cada passo que dermos! Reinterpretanto o dizia um corcunda italiano: “Agitai-nos, para mostrar a nossa vontade  e  entusiasmo  na  luta  por  mudanças;  instruí-nos,  para  compreender  com  a  máxima profundidade possível a complexidade da realidade que nos cerca, e organizai-nos, para mostrar o quão pujante e poderosa é a nossa força. Pois é a classe trabalhadora, o povo pobre, e a luta por uma vida plena de sentido por quem luta para ser respeitado e ser feliz, que baliza todo o nosso protagonismo nessa tarefa de fazer  do mundo um lugar em que a felicidade seja algo alcançável e plenamente possível.

Saudações a todos os militantes do PSOL.

Aracaju, 10 de setembro de 2020


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.