Revista Movimento Movimento (100 anos da Revolução Russa) Movimento (100 anos da Revolução Russa): crítica, teoria e ação

Bernie Sanders e os Estados Unidos em movimento

“Nos Estados Unidos, há uma nova geração mais aberta às ideias de esquerda e socialistas”, diz Bhaskar Sunkara, editor da Jacobin Magazine.

Reprodução Facebook
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Numa tarde ensolarada da primavera nova-iorquina, somos recebidos num terraço na cobertura de um pequeno prédio do Brooklyn. No bairro tradicional, velhas construções são postas abaixo para dar lugar a novos empreendimentos imobiliários. Outros edifícios ficam de pé, mas ganham nova função. Antes de subir, um café no térreo com palco para apresentações de jazz e um mural convidando para palestras sobre “O Capital” mostra que os novos hipsters frequentadores do bairro, ao menos naquele pedaço, convivem com outro tipo de público. Um lance de escadas e chegamos à pequena sede da Jacobin, onde três jovens com menos de 30 anos trabalham freneticamente para preparar uma nova edição da revista-sensação da esquerda mundial, com tiragem na casa dos 20 mil exemplares. Uma placa sobre a porta indica onde estávamos: Liberté, égalité, fraternité.

O riso com a graça jacobina de nossos anfitriões dura muito menos que o espanto que nos causa a pouca idade de Bhaskar Sunkara, o fundador e editor da revista, de 26 anos. Em pouco tempo, com seu inglês frenético e sua mente ágil, ele explica seu nome: Bhaskar é filho de imigrantes de Trinidad e Tobago, de uma família cujas origens são da Índia, mas que desde o século XIX no Caribe conservou a religião e a língua.

Apresentações realizadas, Bhaskar fala das dificuldades de construção da esquerda num país continental, no qual “ninguém viajaria de Nova York a Los Angeles para uma reunião”. Rapidamente passamos a nossos temas do dia: a criação e o papel da Jacobin, a campanha de Sanders pela nomeação no Partido Democrata então ainda em andamento e os desafios da organização da esquerda na maior potência capitalista do mundo. Fomos brindados por muitas informações e pela percepção aguda de uma inteligência pulsante. As páginas a seguir reproduzem nosso diálogo.

Movimento – Como começou a publicação da Jacobin Magazine e o que você tinha em mente ao iniciar o projeto?

Eu comecei o projeto quando eu era um estudante de graduação na George Washington University. Eu tive a ideia no verão de 2010, em agosto, com 20 anos de idade, após ter tido uma experiência com os debates da esquerda socialista. Eu já tinha uma base de contatos, não entre jornalistas e acadêmicos, mas com outras pessoas, ativistas que já tinham alguma experiência política e engajamento em debates teóricos como militantes, não como comentaristas ou jornalistas pequeno-burgueses. Então eu percebi que a organização da qual eu era parte – Democratic Socialists of America – seria insuficiente para o que eu pretendia, já que para fazer uma publicação teórica como eu a imaginava seria necessário contar com socialistas de outras tradições e organizações e não apenas da DAS. Eu precisaria ser independente. Também percebi que apesar de haver muitos blogs e espaços para comentários e debates, havia uma lacuna grande de publicações. Havia ainda algumas publicações, mas não um espaço de debate teórico socialista independente. Apesar de ter feito algumas tarefas de comunicação no DAS, eu não tinha qualquer experiência editorial. Como a situação política era difícil, tínhamos que nos refugiar em particular numa publicação teórica, com dois objetivos principais: um era preservar e construir uma hegemonia do pensamento político marxista entre os jovens ativistas, com os quais estávamos conectados, o que seria um objetivo “intra-esquerda”; e o outro seria um objetivo “inter-esquerda”, se podemos dizer assim, para contribuir e aprofundar o debate no interior da esquerda existente. As publicações, no geral, tentam fazer uma coisa ou outra e acho que há poucas que se proponham a fazer as duas coisas.

M – Nesses quase 6 anos de Jacobin, que resultados vocês puderam colher?

Bem, do ponto de vista quantitativo, saltamos de uma tiragem de mais ou menos 500 revistas por edição para as atuais 20 mil. Para uma revista socialista, é um caso sem precedentes. E, especialmente para os Estados Unidos, acho que cumprimos um papel de auxiliar a criar e moldar este discurso e esta cultura amplos de que agora, de várias formas, é relativamente comum e aceitável entre os jovens que se identifiquem como socialistas. Claro que o significado disso ainda é difuso e muitos deles não conseguiriam especificar o que isso realmente representa, mas é hoje muito difundido no país que jovens se identifiquem como socialistas. Não tínhamos nada disso quando a publicação começou. Evidentemente há muitos outros fatores, mas acho que cumprimos um papel de alcançar essas pessoas que de outra maneira não encontrariam a esquerda. Nós criamos grupos de leitura da Jacobin em todo o país e estamos trazendo mais gente para a esquerda. Queremos ampliar o número de pessoas envolvido nessa rede.

M – Você já havia me falado sobre a organização de dúzias de grupos de leitura pelo país. Como isso foi possível?

Bem, primeiro, fica muito claro para as pessoas envolvidas que somos grupos nos quais certas ideias são aceitáveis e certas ideias são inaceitáveis. Nós nos esforçamos para que seja amplo o bastante para ter debate e para que possamos aumentar nossa base de participantes, mas ao mesmo tempo é estreito o suficiente para ter uma definição, como nossa publicação tem. Nossa concepção de socialismo, por exemplo, rejeita a ideia de que a União Soviética e os antigos países socialistas sejam um modelo a ser seguido. Defendemos que o socialismo seja vibrante e democrático. Nossa linha geral é de que aquelas experiências não são um modelo, ainda que tenhamos muitos debates específicos sobre, por exemplo, se Cuba e seus esforços internacionais devem ou não ser apoiados criticamente. É uma combinação útil para os grupos de leitura, ampla o suficiente para ter participação e engajamento, não é estreita e conseguimos ter gente diferente envolvida, de muitas organizações socialistas, das quais vem 1/3 dos participantes. Os outros 2/3 são compostos por pessoas novas na esquerda socialista. Nosso interesse não é direcionar as pessoas e dizê-las que façam isto ou aquilo. Se há um espaço social e culturalmente interessante que seja acolhedor e se as pessoas se engajam em atividades políticas, os laços se criarão e o grupo cumprirá seu papel. Dessa forma, as pessoas voltam sempre. Numa cidade como Nova York, temos grupos que costumam reunir-se com 9 ou 10 pessoas em média. Não é um espaço intimidador. Pessoas progressistas, interessadas e sem experiência, podem se juntar, participar e fazer perguntas. Por mês, ao redor do mundo, há entre 1500 e 2000 pessoas que participam de grupos de leitura da Jacobin. Eles não são só leitores, consumidores de um produto. Eles podem engajar-se e nosso objetivo é fazer com que eles se sintam parte do movimento social nos Estados Unidos. Acho uma conquista importante, mas que só foi possível por conta do estágio inicial da esquerda no país e pelo fato de que não há um partido socialista de massas nos Estados Unidos.

M – É realmente uma experiência interessante… E vocês buscam essas pessoas em algum lugar específico, nas universidades? Há alguma forma de atraí-las?

Nós não fazemos anúncios públicos para chamar pessoas, mas os grupos estão abertos. Na verdade, em geral as novas pessoas participam a partir do contato ou do convite de alguém, um amigo que já participe, numa espécie de rede. Obviamente, nós tentamos organizar grupos nas universidades pelo interesse que há nesses espaços, mas também porque o público dessa idade se aproxima mais desses espaços. Nossa média de idade é entre 20, 22 anos a 30 ou 32 anos. Há também pessoas de sindicatos, mas em geral de setores como professores ou profissionais da saúde. Essa, de certo modo, também é a base da esquerda nos EUA. Num sentido marxista, claro que estas pessoas são parte da classe trabalhadora, ainda que se possa dizer que são trabalhadores majoritariamente associados à classe média. Note que, entre os estudantes por exemplo, a maior parte está trabalhando em empregos precários de tempo parcial.

M – Você tem sublinhado que há um interesse crescente no socialismo nos EUA, em particular entre a juventude. A que você credita isto?

Bem, esta é a geração criada no pós-Guerra Fria. O sentimento anticomunista foi muito mobilizado e utilizado no período anterior, mas arrefeceu. Então, há uma geração mais aberta às ideias de esquerda e socialistas. E estas pessoas, ao mesmo tempo, são parte de uma geração que não conta com uma rede de proteção social, com empregos estáveis e direitos que havia outrora. Isto é o que elas realmente desejariam ter, algum grau de estabilidade no trabalho. Antes, para as pessoas, a esquerda estava mais associada às noções pregadas pelo anticomunismo. Agora, a esquerda se relaciona, para muitos, a uma espécie de redistribuição social-democrata. Não se trata de uma esquerda revolucionária, mas me parece muito progressivo. É um reformismo vibrante no melhor sentido da palavra, que Sanders tem representado da melhor forma. Eu penso que não pode haver uma esquerda radical ao menos que haja um reformismo vibrante. De muitas formas, eu acho que há uma relação de simbiose aí. Não acredito, de todo modo, que possa haver um colapso imediato dessa forma de reformismo enquanto a esquerda radical não se fortaleça o suficiente para tanto, de modo a tirar vantagem disso. Então, acho que se este espaço criado pelo movimento ao redor de Sanders prossegue e se desenvolve por mais 10 ou 15 anos, acho que vai haver muito espaço para a construção de uma esquerda radical nos Estados Unidos. Isso passa também pelo crescimento dos movimentos sociais. Acho que, comparado ao que vocês têm no Brasil, os movimentos sociais aqui são realmente pequenos e ainda estamos nos acostumando a eles, mas o “Occupy Wall Street”, a resistência à austeridade em Wisconsin, o movimento pelo salário mínimo de $15, o “Black lives matter” são todas formas importantes de luta pública e extraparlamentar com que as pessoas estão se acostumando e começam a apoiar.

M – Também no Brasil há uma nova onda de movimentos sociais que emergiram nos últimos anos, especialmente após junho de 2013. Igualmente na Europa uma série de movimentos, como os “Indignados”, têm inspirado muitos de nós. Quando criamos o Juntos!, nosso movimento de juventude, buscamos inspiração em muitas dessas experiências. Nesse período, os direitos democráticos têm sido atacados pelas necessidades da acumulação capitalista em todo o mundo e passa a ser uma tarefa sua defesa. Na sua opinião, essa seria uma luta meramente reformista ou em alguma medida a defesa dos direitos democráticos contra a austeridade é anticapitalista?

Eu penso que se trata um pouco de ambos. De certa forma, o que tem ficado claro é que a ideia de burguesia nacional sempre foi uma mentira. Essencialmente, se a burguesia puder, ela não vai querer nenhuma forma de democracia ou de direitos. Então, obviamente se deve lutar pelos direitos democráticos e pelos direitos da classe trabalhadora. E isto não é reformismo, na medida em que a classe trabalhadora se fortalece com essas conquistas. Se há pleno emprego, por exemplo, ou estabilidade no trabalho, os trabalhadores têm mais confiança e podem ser mais militantes em seus locais de trabalho e sem receio de represálias que, se eventualmente ocorrerem, não impedirão aos trabalhadores de encontrar outro emprego. E na atualidade o capitalismo não pode e tem menos disposição de conceder ou mesmo de manter antigas conquistas para defender sua lucratividade. Então, o Estado de bem-estar social é visto como gastos excessivos legados dos anos 60. É algo que não é abstrato: vai haver mais enfrentamento de classe. Se, por exemplo, você é um trabalhador de tempo parcial e tenta entrar em alguma forma de luta e negociação coletiva, isso será um grande aprendizado e penso que a esquerda radical deve se envolver, a partir da base, nesses processos. Se há uma pressão por baixo, uma luta, em defesa das conquistas do Estado de bem-estar social, é claro que é aí que a esquerda radical precisa estar, especialmente porque a social-democracia em todas as partes abandonou suas posições reformistas clássicas. Há então um espaço enorme para partidos à esquerda, como por exemplo Die Linke na Alemanha e o PSOL no Brasil para defender e impulsionar essas reivindicações. Esta espécie de movimentos “neo-reformistas” é muito importante e eu não consigo imaginar o surgimento de uma esquerda radical sem a presença e o crescimento anterior desse tipo de movimento. São passos que estão sendo dados e acho que a esquerda anticapitalista precisa estar ao lado desses movimentos. Claro que aqui não estamos usando reformismo em sua acepção clássica, ou seja, uma posição à direita para impedir o desenvolvimento de saídas revolucionárias. Trata-se de algo diferente: um novo reformismo surgido da traição da social-democracia em todas as partes.

M – Bem, até aqui você me disse que há o surgimento de uma nova esquerda nos Estados Unidos baseada, em linhas gerais, na defesa de direitos. E então surge a campanha de Bernie Sanders. O que você pode nos falar a respeito?

De certo modo, é como se o Bernie Sanders fosse um anacronismo porque a política social-democrata em geral apoia-se nos movimentos sociais e há cerca de 100 anos não se via algo assim na política dos EUA. Sanders reúne milhares de pessoas em comícios com um discurso social-democrata clássico, de defesa dos direito dos trabalhadores, contra os interesses de outra classe que não permite que estes direitos se efetivem e que por isso precisa ser enfrentada e retirada de sua posição. É a linguagem clássica da luta de classes, que no entanto nunca havia sido ouvida por aqueles milhares de pessoas que então se dão conta de como são ideias radicais. O que surpreende em Sanders é sua capacidade de, com um discurso em linhas gerais socialista, conseguir alcançar um sentimento quase instintivo das pessoas. Por um lado, há uma pulsão por culpar o outro por seus problemas – o imigrante, os muçulmanos; por outro, há Hillary Clinton com sua defesa dos interesses dos ricos. E eis que surge Bernie Sanders, com um apelo quase que “demagógico”, que na verdade é muito bonito, dizendo: “Você merece mais! Você pode mais! E nós podemos fazer isto tirando dos ricos!”. Isto é uma grande novidade, especialmente para os Estados Unidos, onde há uma força muito grande dos valores individualistas para resolver problemas coletivos: se você perdeu seu emprego, a culpa é sua e talvez você deva tomar algumas lições de negócios para resolver sua situação. Bernie, ao contrário, tem mostrado que podemos coletivamente conquistar mais se lutarmos. Sanders dialoga com a raiva das pessoas e uma coisa que precisa ser dita é que ele enfrentou e denunciou com muita combatividade a classe dos milionários e bilionários americanos. Outro que também foi até mais agressivo é Trump, mas ele é estreito e fala para uma base tipicamente pequeno-burguesa, mais velha e particularmente branca e masculina. A coalizão ao redor de Sanders, por sua vez, é mais diversa racialmente, mais jovem e paritária em termos de gênero. Fala-se que Sanders não tem o voto dos negros. É verdade, mas se você olhar a parcela mais jovem dos negros, aqueles com até 40 anos, a mesma faixa etária que participa de movimentos como o “Black lives matter”, você verá que Sanders empata com Clinton ou tem até taxas de apoio mais favoráveis. Então, é possível dizer até por essas características demográficas que a coalizão ao redor de Sanders tem grandes possibilidades de influenciar a política americana pelos próximos 10 ou 15 anos. E realmente não creio que se trate de wishful thinking. Claro que Clinton tem mais chances de ganhar a nomeação por ter uma campanha mais estabilizada, por representar uma “marca” mais conhecida na política americana e por parecer ter mais chances de ser eleita, enquanto Sanders é alguém que apareceu mais recentemente. Mas as prévias causaram uma divisão e contradições grandes no interior do Partido Democrata, opondo um setor do establishment partidário ao redor de Clinton e um novo grupo de apoiadores jovens e engajados de Sanders. Então, os próximos meses serão muito interessantes.

M – O chamado a uma “revolução política” por Sanders é o que você pensa ser o mais interessante em seus discurso?

Talvez. É muito vago na verdade. Eu nunca fui muito atraído por esse tipo de discurso, que também aparece em outras partes, justamente por ser vago. Talvez, para mim, o mais interessante em Sanders é seu apelo pela redistribuição e o fato de opor duas classes. A “revolução política” pode, de certa forma, terminar parecendo uma espécie de saída pequeno-burguesa, como tirar dinheiro dos políticos e acabar com a corrupção para resolver nossos problemas. Claro que não é nessa direção que Sanders foi ao falar em “revolução política”. Mas talvez o tema da redistribuição seja mais interessante porque não precisamos superestimar a “revolução política” apenas por ter a palavra “revolução”.

M – Houve uma polêmica na esquerda americana sobre a disputa de Sanders pela nomeação no interior do Partido Democrata. Como você avalia este debate e como ele segue?

Bem, estrategicamente, eu concordo com os setores do trotskismo que criticam Sanders por disputar a nomeação no interior dos democratas. E na história da esquerda dos EUA, nós perdemos mais atuando no interior dos partidos majoritários do que perdendo uma eventual oportunidade. Então, como princípio geral, faz todo sentido nunca trabalhar no interior do Partido Democrata. No entanto, penso ser necessário algumas vezes separar estratégia de tática e me pareceu bom senso apoiar Sanders desde o dia seguinte a seu anúncio de que disputaria a nomeação, ainda em abril do ano passado, porque – meu deus! – nunca na história deste país os movimentos sociais foram levados em consideração num processo eleitoral. A esquerda não tem nenhuma possibilidade normalmente de interferir nos rumos de uma eleição nacional. Então, acho uma decisão tática acertada tentar organizar um discurso mais amplo, participar de um processo de prévias e ver o que se pode recolher de um movimento como este no período seguinte. É mais uma vez uma questão de bom senso: Sanders atrapalhou ou ajudou a construir um movimento independente da esquerda nos Estados Unidos? Ele expôs e criou contradições no interior do Partido Democrata? O movimento ao redor de Sanders terá mais ou menos chances de construir uma alternativa de esquerda independente após as prévias? Há mais ou menos chances de causar uma cisão no Partido Democrata se nós tivermos a habilidade de ganhar força como alternativa de esquerda independente em nível nacional? Sim, para mim é claro que ele expôs essas contradições. O receio de setores do trotskismo de que Sanders estaria conduzindo a juventude numa coleira para o interior dos democratas é improcedente porque estes jovens, de outra forma, não estariam participando do processo de prévias e eles decidiram fazê-lo como um setor barulhento e muito incômodo para a cúpula do Partido Democrata. Então, acho que nesse momento do país, acho que é correto separar uma estratégia mais geral desta tática. Precisamos ter um amplo criticismo e saber que não lutamos para transformar o Partido Democrata, mas compreender que podemos usar este processo de prévias para fortalecer nossos interesses e oportunidades posteriores. Quando esta campanha acabar, vamos reunir essas pessoas para tarefas não eleitorais. E nós não poderíamos ter essa localização agora se tivéssemos ficado de fora deste movimento.

M – Você acha que Sanders poderá contribuir com este movimento após as prévias?

Sim, Sanders conhece os movimentos sociais e muitos dos que o assessoram têm dado passos nessa direção. Estas pessoas têm alguma familiaridade com os movimentos sociais. Ele teria dificuldades, mesmo se quisesse, de tentar disputar o Partido Democrata, já que ele ali é uma espécie de persona non grata. Uma sinalização do que ele pode fazer no futuro ele deu durante a própria campanha pela nomeação, quando no meio das atividades eleitorais ele ajudou a recolher fundos em apoio a uma greve de trabalhadores da comunicação. Não havia qualquer razão material para que ele apoiasse um sindicato naquele momento, já que a votação naquela região já havia inclusive ocorrido. Mas fatos como este ajudam a mostrar a orientação política mais ampla de sua campanha. Não acho que a campanha gerará por si uma nova organização da esquerda, mas acho que ela mostrou um espaço no qual podemos trabalhar pelos próximos 10 ou 15 anos para isto. E Sanders, pessoalmente, é um homem idoso, já com 75 anos, então eu realmente não sei ainda quanto gás ele teria para contribuir com isto. Eu acho que Sanders vai formalmente declarar apoio a Hillary, mas individualmente não sei se ele votará nela [risos]. Não acho que ele vá se engajar muito pela campanha de Hillary, salvo por conta de Trump. Se houver uma comoção muito grande por conta do risco de Trump e se houver algum tipo de chantagem com Sanders, talvez ele tenha que se engajar mais pela campanha de Hillary. Mas não vejo que no futuro ele será hostil à esquerda ou aos socialistas. Acho que ele já nos abriu muito espaço e isto era tudo o que precisávamos. Claro que se ele terminar fazendo muita campanha para Hillary, isto dificultará um pouco nosso trabalho, mas se ele declarar apoio e depois permanecer nos bastidores, acho que ficaria bem.

M – A campanha de Sanders nas prévias abriu outras possibilidades eleitorais?

Sim. Eu acho que é possível [vencer com] Debbie Medina [a campanha pelo Senado em Nova York]. Ela é uma ativista pelo direito à moradia e esteve envolvida num importante conflito em defesa de uma importante escola [Bushwick United, no bairro do Brooklyn]. Ela é parte do movimento de Sanders – Democratic Socialists of America. Temos a chance de ampliação com essa campanha. Há oportunidades também para eleger representantes em nível local [vereadores], como já há em Seattle com o Socialist Alternative [Kshama Sawant]. Claro que há uma tonelada de dinheiro nas campanhas eleitorais, mas é difícil que eles consigam despejar todos esses recursos em campanhas nas pequenas localidades, enquanto ao mesmo tempo cresce o apoio aos socialistas. Houve por exemplo um caso em Minneapolis, em que um candidato socialista perdeu por apenas 1%, mas bateu na porta de cada casa de seu distrito pelo menos três vezes durante a campanha.

M – E vocês farão o mesmo na campanha aqui em Nova York ao Senado?

Sim, sim. Uma campanha old school [risos]. Eu imagino que no Brasil vocês devam fazer o mesmo. Sei de camaradas na Alemanha que costumam fazer esse tipo de campanha porta a porta. E, culturalmente, isto é difícil para os alemães, há uma distância formal e bater na casa das pessoas não é algo bem visto. Aqui nos Estados Unidos, e em particular em Nova York, há maior abertura e esta é uma grande possibilidade para fazermos campanha.

M – Você mencionou Sanders e Trump, duas campanhas que mostram a polarização que os EUA vivem hoje. O que motiva isto em sua opinião?

As pessoas estão com raiva e isto gera a polarização, que em parte é uma polarização de classe. Trump tem uma base principalmente pequeno-burguesa, mas ao mesmo tempo também tem recebido apoio de setores da classe trabalhadora que usualmente apoiavam os democratas, mas perceberam não ganhar nada em troca deste apoio, o que é verdade. Acho que parte do sentimento dos apoiadores de Trump é justificável, mas claro que as soluções não. As pessoas estão com raiva e querem de algum modo chacoalhar o status quo, chacoalhar a espécie de consenso “centrista” que existe na política dos Estados Unidos. Por outro lado, acho que ainda há na base do Partido Democrata um apoio ao “New Deal”, à “Great Society” e a este tipo de iniciativa de redistribuição, enquanto a cúpula deste partido desde o princípio dos anos 80 chegou à conclusão de que estes programas são inviáveis. Então, nós temos dois partidos do capital, mas um deles tem base na classe trabalhadora, o que cria muitas contradições. Num partido trabalhista clássico, há certos canais envolvendo os sindicatos e outras formas de institucionalização do voto da classe trabalhadora. O Partido Democrata não tem isto. Estas contradições estão sendo expostas: as pessoas querem um sistema político e lideranças completamente diferentes, mas não há canais para processar essa demanda. Então, a raiva cresce e isto se manifestará no processo de prévias. Até porque não há aqui uma forma de filiação organizada, como há nos partidos europeus. Não há, por exemplo, um modo formal de se expulsar alguém do Partido Democrata ou do Partido Republicano. É impossível. Então, o próprio sistema partidário aqui é muito mal compreendido. O sistema partidário moderno é uma criação da luta de classes. O Partido Social-Democrata Alemão é o primeiro partido organizado moderno. Então, esta disciplina, ao redor de programas, membros, processos de filiação e expulsão, não há nada disto nos Estados Unidos. Nós temos aqui um sistema proto-partidário, um aglomerado de partidos locais e regionais, esse tipo de coisa. Claro que ambos partidos têm lideranças e formas de estruturá-las e diferentes blocos do capital por trás deles. Por isso eu diria que o Partido Democrata tem mais dificuldades para lidar com esse tipo de contradições do que um partido social-democrata clássico teria. Mas é importante lembrar que nunca houve social-democracia organizada nos Estados Unidos. Quando Sanders fala em social-democracia, Estado de bem-estar social, estas são ideias insurgentes, enquanto na Europa estas são ideias dos velhos partidos social-democratas. Mas, apesar disso, acho que se Sanders estivesse na Europa, ele seria de algum partido como Podemos ou Die Linke.

M – Bem, Bhaskar, você nos falou de uma espécie de programa intuitivo, de organização, de círculos de leitura e de militância. Soa como alguma espécie de soft leninismo nos planos da Jacobin… O que vem depois disso?

[Risos] Bem, eu acho que o papel da Jacobin é criar a gramática, ajudar a criar a gramática para que outras pessoas possam construir. Queremos oferecer o pano de fundo e dar condições para que outras pessoas possam trabalhar. Queremos aumentar a politização e a consciência de classe nas organizações e movimentos que já existem. Eu acho que, essencialmente, este é o único papel que pode ter uma publicação. Não acho que uma publicação possa ter algum objetivo mais profundo, salvo se estiver ligada a alguma organização, e não creio que as pessoas envolvidas no projeto estejam capacitadas para ser organizadores. Acho que algo emergirá quando as condições permitam isto. Claro que, como marxistas, queremos ser parte de um movimento maior, mas o papel da Jacobin é ser apenas mais uma das peças para esta emergência.

M – Era apenas uma provocação.

[Risos] É claro.

M – Mas você falou algumas vezes de 10 a 15 anos. O que você espera que ocorra nesse período?

Bem, o que eu espero? Eu espero que nós vamos perder. Você sabe: a questão da ação coletiva é mais a exceção do que a regra. Falando em termos de trabalho, capital e trabalho têm uma relação de interdependência. Trabalhadores individuais dependem mais de seu capitalista do que este depende de qualquer grupo de trabalhadores no curto prazo. Então, em vez de partir de conceitos como “falsa consciência” ou mesmo algumas ideias dos bolcheviques que eu rejeito, prefiro olhar para uma situação e pensar: por que não há conflito de classe aqui? Acho melhor pensar o conflito de classe mais como a exceção do que a regra e então isolar os motivos pelos quais houve este conflito ou resistência de massas e estudá-los. Eu acho que nós vivemos um momento com mais possibilidades políticas do que no momento anterior, mas penso que nós devemos estar conscientes com o fato de que se não fizermos nada iremos perder ao invés de acreditar que nós vamos surfar em alguma onda no futuro.

Este artigo integra a 2ª edição da Revista Movimento, de jul/set 2016. Confira todos os artigos dessa edição!

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