Carlos, uma suspeita e a banalidade do mal
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Carlos, uma suspeita e a banalidade do mal

Sobre a possibilidade de envolvimento do filho do presidente no assassinato de Marielle Franco.

Pedro Munhoz 21 nov 2019, 15:15

Ontem, em breve comentário para a Rádio CBN, o jornalista Kennedy Alencar afirmou ter informações de bastidores de que a Polícia Civil investiga Carlos Bolsonaro, o filho 02 do atual Presidente da República, pela brutal execução de nossa companheira Marielle Franco.

Será que é isso? Será que é isso mesmo? Será que foi aquele vereador minúsculo, aquele serzinho evidentemente atormentado, aquele sociopata limitado que tentou apagar a luz de Marielle Franco naquela noite de março por causa de uma briga de corredor?

Eu tinha para mim que era coisa de bandido escolado, experiente, frio, de miliciano grande, de algum desafeto de Freixo do tempo da CPI das milícias, de um Domingos Brazão da vida, a quem, talvez, o mandato de Marielle continuava a ameaçar. Mas Carlos me dá o que pensar, me dá muito o que pensar.

1. É plausível, muito plausível, que Carlos Bolsonaro conhecesse, fosse amigo de Ronnie Lessa. Vizinhos, os dois têm em comum o ideário político e o gosto por armas de fogo. Carlos, que, toda vez que se vê diante de problemas pessoais, se refugia em um clube de tiro, talvez enxergasse no assassino profissional e exímio atirador até uma espécie de ídolo. Talvez Carlos, o Bolsonaro mais frágil, mais ostracizado, mais bobinho, quisesse ser Ronnie Lessa, aquela versão criminosa e distorcida de personagem do Stallone que papai Jair deve amar.

Devemos lembrar ainda que a filha de Lessa namorou um irmão de Carlos. É de se supor sim, sem muita dificuldade, que os dois poderiam ter uma convivência próxima, talvez anterior até ao condomínio, pelos laços que a família Bolsonaro tem com as milícias.

2. No dia daquela live fatídica, o chefe do clã, visivelmente alterado, pergunta a certa altura: “Será que não vão sossegar enquanto não prenderem um filho meu?”

Nada na reportagem a que Seo Jair se referia fazia qualquer remissão a filhos de Bolsonaro e só agora, finalmente, aquela frase dele fez algum sentido. Dela podemos extrair que: ou bem Jair estava a par das investigações sigilosas da polícia civil (o que é irregular, para dizer o mínimo) ou bem ele desconfiava do envolvimento do filho e cometeu um ato falho ao mencioná-lo em um momento de descontrole. De qualquer forma, parece-me algo relevante.

3. Recordei-me também de uma estranha briga entre Carlos e o youtuber Felipe Neto, em fins de outubro, que terminou com o vereador mandando um beijo para a mãe do influencer (que se mudara pro exterior depois de receber ameaças de morte do séquito de Bolsonaro). Felipe Neto se indignou e considerou, com razão, a menção à sua mãe como uma nova ameaça, ao que Carlos respondeu mais assim: “Guardo o mesmo carinho com ela que guardava com Marielle”

Aquela resposta me ficou na cabeça e, assim como a fala de Bolsonaro anteriormente citada, ganhou um possível novo sentido com as breves revelações de Kennedy Alencar. Estaria Carlos reforçando as ameaças à mãe de Felipe Neto e, ao mesmo tempo, se gabando de ter feito algo contra Marielle Franco?

4. Além disso, a verdade é que algum tempo antes do crime, Carlos havia brigado com Marielle nos corredores da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Um assessor de Marielle, ao mostrar a Câmara para visitantes estrangeiros, fez alguma menção a “fascistas” diante do gabinete do vereador. Carlos ouviu e foi tomar satisfações, segundo testemunhas, em situação de completo descontrole. Marielle interveio e colocou Carlos em seu lugar, mas depois disso, dizem, o vereador jamais pegou o mesmo elevador que Marielle ou seus assessores. Evitava a todos eles.

Parece um motivo imbecil para cometer um crime? Sim, completamente imbecil. Carlos seria capaz de cometer um crime dessa magnitude por conta de algo tão imbecil? Deixo a resposta a essa pergunta para vocês.

O fato é que ele tinha um motivo concreto. O outro suspeito, Domingos Brazão, se algum motivo tinha, ele ainda não veio a tona com muita clareza.

A notinha de Kennedy na CBN me revirou um bocado por dentro e eu quis dividir minhas inquietações com vocês. Se isso aconteceu mesmo, é assustador, é muito assustador, é ainda pior do que eu imaginava.

Sei que o momento é de cautela, mas fica o registro.


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O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.