Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Pietro Tresso (1893-1943) e a “oposição dos três”: apresentação

Apresentação ao texto "Um grande militante morreu... Gramsci" de Pietro Tresso.

Pietro Tresso junto a "Barbara" e Gabriella Maier - Reprodução
Pietro Tresso junto a "Barbara" e Gabriella Maier - Reprodução

Nesta edição da revista Movimento aparece pela primeira vez em português o artigo “Um grande militante morreu… Gramsci”, de Pietro Tresso, codinome Blasco, publicado originalmente em 1937 no jornal dos trotskistas franceses La Lutte Ouvrière. A tradução do texto é acompanhada por um aparato crítico preparado para o público brasileiro com vistas a permitir sua melhor compreensão e contextualização histórica. Algumas breves palavras sobre o autor são necessárias.

Pietro Tresso nasceu em 1893 em Magrè di Schio, na região do Veneto. Filho de um operário da indústria têxtil, começou a trabalhar aos nove anos de idade, primeiro como aprendiz de alfaiate e logo depois em um lanifício.1 Muito jovem aderiu à Gioventù Socialista e com 16 anos se tornou organizador do Circolo Giovanile Socialista “Avvenire”. Em 1914, iniciou suas atividades no movimento sindical dos trabalhadores rurais da Puglia, uma atividade que se interrompeu em 1915 quando foi convocado pelo exército. Na primavera de 1917 foi detido, acusado de divulgar na tropa propaganda socialista contra a guerra. Devido à falta de provas não chegou a ser condenado, ao contrário de vários de seus companheiros, mas como punição foi transferido de regimento.

Em 1918, Tresso contraiu tuberculose e passou por vários hospitais, até ser dispensado em setembro de 1919. Retornou assim à atividade sindical em sua cidade natal tornando-se responsável pela Federação têxtil em Schio. É dessa época seu confronto com a ala reformista do Partido Socialista e o progressivo afastamento do grupo massimalista, liderado por Giacinto Menotti Serrati. Aproximou-se da ala esquerda do partido, alinhando-se com as posições de Amadeo Bordiga, embora discordasse de sua posição abstencionista. O afastamento da ala de Serrati se consolidou com o Congresso de Livorno do Partido Socialista, em 1921, no qual a ala esquerda do partido decidiu romper e fundar o Partido Comunista da Itália (PCd’I). Tresso foi delegado ao Congresso e participou da fundação do novo partido comunista.

Tornou-se secretario da seção da província de Vicenza e diretor do jornal La Lotta Comunista, ao mesmo tempo em que continuava sua atividade sindical na Confederazione General del Lavoro (CGL), onde tentava construir uma fração comunista. Depois de sofrer um ataque de um bando fascista devido a sua atividade nos sindicatos, Tresso mudou-se para Milão na primavera de 1921, onde foi atacado mais uma vez, e a seguir para Berlim, onde colaborou com a revista Rote Gewerkschaftsund Internationale, editada pela Internacional Sindical Vermelha. Em 1922, participou como delegado do II Congresso da Internacional Sindical e do IV Congresso da Internacional Comunista, representando o jovem partido italiano, ocasião na qual teve início uma relação mais estreita com Antonio Gramsci.

No dia 28 de outubro de 1922 os fascistas marcharam sobre Roma e três dias depois Benito Mussolini assumiu o posto de chefe do governo italiano. Tresso retornou à Itália alguns meses depois, em meados de 1923, instalando-se em Milão onde assumiu o papel de dirigente regional do PCd’I. Nos anos seguintes concentraria sua atividade no movimento sindical. Vigiado pela polícia política, Tresso foi preso em maio de 1924, liberado logo a seguir e preso novamente em junho de 1925. Para evitar a perseguição emigrou para Paris, onde participou da criação do Comitato Centrale Antifascista [Comitê Central Antifascista].

Os conflitos entre a ala liderada por Amadeo Bordiga e aquela que tinha à frente Antonio Gramsci haviam se tornado intensos nos últimos anos. Tresso se alinhou com Gramsci rompendo a relação política que havia tido com o líder dos abstencionistas. A última batalha contra a fração bordiguista ocorreu no Congresso do PCd’I realizado em Lyon, na França, em janeiro de 1926. As teses sobre a situação política aprovadas no congresso afirmavam a necessidade de “coligar as reivindicações parciais de caráter político com aquelas de caráter econômico, para transformar os movimentos ‘revolucionários democráticos’ em movimentos revolucionários operários e socialistas”.2 A perspectiva das teses era muito próxima daquela adotada posteriormente por Leon Trotsky no Programa de Transição. De acordo com os comunistas italianos:

“Enquanto agita seu programa de reivindicações classistas imediatas e concentra sua atividade na obtenção da mobilização e unificação das formas operárias e trabalhadoras, o partido pode apresentar, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento da própria ação, soluções intermediárias dos problemas práticos gerais e agitar essas soluções entre as massas que ainda aderem aos partidos e formações contrarrevolucionárias. Esta apresentação e agitação de soluções intermediárias – distantes tanto das palavras-de-ordem do partido quanto do programa de inércia e passividade dos grupos que se quer combater – permite atrair às fileiras do partido forças mais vastas, mostrando a contradição das palavras dos dirigentes e partidos de massas contrarrevolucionários com suas intenções reais, empurrando as massas em direção a soluções revolucionárias e estendendo nossa influência”.3

Era com esse propósito que as teses apontavam a necessidade de insistir na reivindicação de uma “Assembleia republicana sobre a base de comitês operários e camponeses; controle operário sobre a indústrias; terra as camponeses”. As teses também propunham a criação de uma “‘frente única’ de luta antifascista e anticapitalista” que permitisse a reunião de todas as forças em luta contra o regime de Mussolini.4 Redigidas por Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti estas teses constituem um dos documentos mais importantes da história do comunismo italiano.

Blasco

Logo após o Congresso de Lyon, Tresso foi preso pela polícia francesa e permaneceu dois meses em cárcere. Depois de sair da prisão, retornou à Itália clandestinamente, assumindo o codinome de Blasco, em homenagem ao escritor e republicano espanhol Blasco Vicente Ibañez. No outono de 1926 instalou-se em Roma e passou a dirigir o Ufficio Tecnico Organizzativo [Bureau Técnico Organizativo] do partido, responsável pelo trabalho ilegal e pela correspondência com a Itália e o exterior. Mais tarde participou da reorganização da CGL e do trabalho sindical. A repressão fascista tornou-se mais aguda depois do atentado contra Mussolini, no dia 31 de outubro daquele ano, e novas medidas de exceção foram adotadas pelo governo, dentre elas a criação de um novo Tribunale Speciale per la Difesa dello Stato [Tribunal Especial para a Defesa do Estado e de uma Divisione di Polizia Politica [Divisão de Polícia Política], a supressão de todos os periódicos de oposição e a dissolução de todos os partidos, associações e organizações contrárias ao regime.

No dia 8 de novembro começava a ofensiva contra os comunistas. Apenas três deputados conseguiram fugir da prisão, os outros onze foram presos, dentre eles Antonio Gramsci. Uma carta da dirigente comunista Camilla Ravera a Palmiro Togliatti mostra o alcance da repressão: nos oito dias seguintes ocorreram 1.690 detenções em Milão, 151 militantes foram espancados, dentre eles Alfonso Leonetti que precisou ser hospitalizado, e 40 casas e sedes do partido foram destruídas. O historiador Paolo Spriano estima que ao final daquele ano, um terço dos militantes do PCd’I estava nas prisões. 5

Praticamente toda a direção do partido foi detida. Imediatamente os poucos remanescentes realizaram uma reunião da qual não se preservaram as atas. Sabe-se, entretanto, que Angelo Tasca propôs dissolver o PCd’I e transformá-lo em um grupo de estudos e que a maioria dos presentes apoiou a decisão, mas ela não foi implementada. Em dezembro um centro dirigente foi constituído em Paris enquanto alguns importantes quadros do partido continuam a operar na Itália, dentre eles Camilla Ravera, Alfonso Leonetti, Paolo Ravazzoli, Teresa Recchia e Blasco. Em janeiro de 1927, o Comitê Central foi reconstituído e Tresso passou a fazer parte dele e no verão se transferiu para Gênova, onde foi instalado o centro sindical do partido do qual será o responsável.

As prisões continuaram durante todo o ano e o centro externo decidiu retirar da Itália a maioria dos dirigentes, dentre eles Tresso, reunindo-os em Basiléia, Suíça. Mais tarde ele iria para Zurique e depois para Paris. Entre julho e setembro de 1928, Tresso participou do VI Congresso da Internacional Comunista, em Moscou. Leon Trotsky já havia sido expulso do partido e se encontrava no exílio. O alvo de Stalin era, agora, Nicolai Bukharin, cujas ideias foram fortemente condenadas pelos delegados. As teses aprovadas no Congresso anunciavam o advento de um “terceiro período” na situação mundial, marcado pela “mais severa intensificação da crise geral do capitalismo” e caracterizavam a socialdemocracia como “os representantes mais consistentes dos interesses do Estado burguês”.6

Já a partir de fevereiro de 1929 documentos da Internacional Comunista começaram a se referir à socialdemocracia como socialfascismo. É o caso, por exemplo, de uma carta que o Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC) encaminhou para o Partido Comunista Chinês em 8 de fevereiro de 1929, bem como de um comunicado do Bureau da Europa Ocidental do CEIC de 18 de maio de 1929.7 O X Pleno do CEIC, realizado entre os dias 3 e 19 de julho de 1929 deu o passo decisivo caracterizando a socialdemocracia: “Nos países onde há fortes partidos socialdemocratas, o fascismo assume a forma particular do socialfascismo, que cada vez mais serve à burguesia como instrumento para paralisar a atividade das massas na luta contra o regime de ditadura fascista”.8 As consequências políticas da resolução aprovada eram drásticas:

“O Pleno do CEIC impõe sobre todas as seções da Internacional Comunista a obrigação de intensificar a luta contra a socialdemocracia internacional, a qual é o principal baluarte do capitalismo. O pleno do CEIC adverte todos os partidos a dar especial atenção ao reforço da luta contra a ala ‘esquerda’ da socialdemocracia, que retarda o processo de desintegração da social- democracia, criando a ilusão de que ela, a ala ‘esquerda’, representa uma oposição à linha política dominante, quando, de fato, mantém com todas suas forças a política do socialfascismo”9

O Pleno também afastou da direção Nicolai Bukharin e Humbert-Droz, acusados de “fornecer uma base política ideológica para os elementos de direita na Internacional Comunista” e de serem “especialmente contrários às decisões do VI Congresso”.10 Angelo Tasca, que se encontrava alinhado com Bukharin também sofreu as consequências, pouco depois foi afastado de suas funções na Internacional e pesadas denúncias recaíram sobre a direção do PCd’I acusada de não ter combatido as “aberrações” da ala direita do partido. Exigiu-se de Tasca o abandono de suas posições políticas e uma autocrítica completa, mas como este não aceitou abjurar de suas ideias, porque não havia mudado de opinião, foi expulso do PCd’I em setembro de 1929.

As resoluções do X Pleno confrontavam as Teses aprovadas em Lyon. Apesar disso os italianos não ofereceram resistência. Togliatti rapidamente adaptou-se às novas ordens de Moscou e tratou de liderar a campanha interna contra Tasca, seu antigo companheiro. Rapidamente o partido abandonou a palavra de ordem de Assembleia Republicana e rompeu qualquer possibilidade de trabalho conjunto com a chamada Concentrazione d’Azione Antifascista [Concentração de Ação Antifascista] formada no exílio por liberais e socialdemocratas, que segundo Togliatti “tornou-se filofascista”.11 Ao mesmo tempo em que dirigia o expurgo interno, Togliatti, manifestava publicamente a aceitação das teses da fração stalinista e, particularmente, a tese do socialfascismo. Em um discurso pronunciado em fevereiro de 1930, no presidium do Comitê Executivo da IC, Togliatti definiu a “linha geral de desenvolvimento do processo” como “uma acentuação da fascistização da socialdemocracia”. 12 E insistiu nessa questão em seu relatório à mesma reunião: “A socialdemocracia italiana se fascistiza com uma extrema facilidade. (…) Por detrás de toda ação que os elementos da esquerda socialdemocrata procuram levar a cabo, pode-se demonstrar que essa foi cumprida sob a inspiração de Mussolini”.13

Oposição

Na historiografia do PCd’I essa nova fase do partido ficou conhecida como “la svolta” [o giro]. Ela provocou um intenso debate nas fileiras da organização, embora nem sempre os argumentos fossem muito claros. Em junho de 1928, antes, portanto, da svolta, Tresso já havia protestado contra uma resolução do Comitê Central do PCd’I que definia a luta contra a Concentrazione como uma das tarefas principais dos comunistas. De acordo com Tresso era necessário distinguir os fascistas de seus opositores, mas também a Concentrazione da oposição constitucional.14 Mas na reunião do Bureau Político de outubro de 1929, Tresso não se manifestou a respeito. Em vez disso utilizou as resoluções do X Pleno para questionar a política precedente do partido. Leonetti procedeu da mesma maneira.15 De acordo com Spriano, apenas Paolo Ravazzoli expressou imediatamente dúvidas com relação ao giro do partido, afirmando: “as bases da socialdemocracia são diversas das bases propriamente fascistas”.16 Para os demais, Togliatti deveria reconhecer que a linha politica anterior estava errada. Era a confissão de que as duas coisas não eram compatíveis. Mas Togliatti recusou-se a fazer isso na reunião da Comissão Política realizada em setembro de 1929 e manteve sua posição à frente do partido.

As divergências se mostraram maiores no terreno organizativo. A perspectiva de que uma nova situação revolucionária pudesse ter lugar na Itália com a crise do fascismo implicava em um esforço para reconstruir o partido no interior do país. No final de dezembro 1929 Luigi Longo submeteu ao secretariado a proposta de que “todas as organizações do partido” voltassem para a Itália.17 Leonetti, Tresso e Ravazzoli manifestaram-se fortemente contrários. Não era a primeira vez que divergiam a respeito de questões organizativas. Logo depois daquele primeiro confronto de Tresso com a linha política do Comitê Central, em junho de 1928, ele e Leonetti fizeram duras críticas a Togliatti e Ruggero Grieco referentes aos erros organizativos que permitiram que a repressão abatesse facilmente os comunistas e levaram à prisão a maioria de seus dirigentes. Na ocasião Leonetti propôs uma retirada: “Não podemos ter na Itália nenhum aparato”, afirmou. E Tresso somou-se enfaticamente às críticas: “Constatávamos que se pedia ao partido mais do que ele podia dar. E por isso se dizia que éramos pessimistas e tínhamos preocupações pessoais”.18

No contexto da svolta, os problemas organizativos ganhavam uma nova dimensão. Togliatti apoiava a resolução de Longo e pressionava por uma reorientação do partido de acordo com as diretrizes da Internacional Comunista. Na reunião do Bureau Político do dia 10 de janeiro de 1929 a divisão começou a ganhar contornos definidos: Pietro Secchia, Camilla Ravera, Luigi Longo e Palmiro Togliatti votaram a favor da resolução; Ravazzoli, Leonetti e Tresso foram contrários. Ignazio Silone que estava doente na Suíça anunciou logo a seguir que também era contrário à resolução.[19] Ravazzoli foi então convidado a participar de uma reunião em Moscou, juntamente com Togliatti e outros, na qual a nova linha política do PCd’I foi sancionada sem que uma forte oposição se manifestasse. Mas na Itália o dissenso continuava.

As diferenças de Ravazzoli, Leonetti e Tresso com a maioria começaram a se manifesta no terreno da política durante a reunião do CC que ocorreu entre os dias 20 e 23 de março de 1930. Embora inicialmente não questionassem as resoluções do X Pleno do CEIC, consideravam a “fascistização” menos importante do que a maioria e não descartavam, fieis às Teses de Lyon, que a derrota do fascismo pudesse dar lugar a um regime de tipo intermediário. Togliatti já havia proposto que se utilizasse a força bruta contra os dissidentes. Derrotados na reunião do CC, foram todos afastados de seus cargos. A mesma reunião votou unanimemente a expulsão de Amadeo Bordiga do partido, acusado de simpatizar com as ideias Leon Trotsky.20 A campanha contra os oposicionistas foi lançada imediatamente. No jornal Lo Stato Operaio de abril-maio de 1930 foram publicados dois artigos contra suas posições, sem que eles pudessem responder.21

Já no início de abril Ravazzoli e Leonetti entraram em contato com Alfred Rosmer, um dos dirigentes da Oposição de Esquerda Internacional.22 A seguir reuniram-se com Pierre Naville, membro do Secretariado Internacional da Oposição. Rosmer escreveu imediatamente a Trotsky narrando o encontro com alguns “camaradas que dirigiram o partido italiano” e “reivindicam-se seguidores de Gramsci”.23 De acordo com Paolo Casciola os dissidentes italianos haviam lido os artigos que Trotsky publicara no jornal La Véritè contra o aventureirismo ultra-esquerdista do “terceiro período” e ficaram fortemente impressionados pela leitura.24 A colaboração com Leonetti começou imediatamente e a partir de 25 de abril ele publicou em La Vérité artigos sobre a crise no PCd’I assinando com o pseudônimo de A. Kros.25

O Bureau Político do PCd’I reagiu com uma dura campanha contra a oposição, qualificando-a publicamente de “oportunista” e em uma reunião do dia 28 de abril afastou os três de suas funções no partido. O Bureau e Togliatti passaram a suspeitar que os artigos de La Vérité eram de Leonetti e em uma reunião no início de junho exigiram que ele e Ravazzoli assinassem uma condenação pública aos artigos publicados no jornal francês. Como eles se recusaram foram expulsos do partido no dia 9 de junho. Na resolução de expulsão, Togliatti que não queria passar novamente pelo constrangimento de ser acusado em Moscou de ter vacilado no combate à oposição, como ocorrera no caso Tasco, declarou guerra: “neste ponto só é possível uma coisa, a luta aberta, sem quartel, a mobilização de todas as forças do partido e da classe operária contra os traidores do partido e da classe operária”.26 A reunião ainda pressionou Tresso para que ele se afastasse dos outros dois, mas ele afirmou que as decisões de março não passavam de “oportunismo mascarado com frases de esquerda” e rejeitou a declaração de capitulação que o forçavam a assinar.27 Consumava-se, assim, a exclusão dos três, aos quais se somaram, também, Teresa Recchia, única mulher operária eleita para a direção do partido no Congresso de Lyon, Mario Bavassano e Giovanni Boero.

Gramsci

Na historiografia comunista a oposição dos “três” é retratada frequentemente como um grupo sem divergências política com a direção do partido, mas movido por ressentimentos pessoais contra Togliatti, contra o qual fizeram duras acusações.28 Mas a carta que enviaram logo depois a Trotsky sobre a situação italiana e a versão que Blasco fez para publicação na revista La Lutte de Classes mostra não apenas o alcance das diferenças como também a qualidade política dos oposicionistas italianos.29 Neste texto, Blasco afirma que a “primeira causa das divergências” entre os oposicionistas e a maioria da direção do PCd’I era “a apreciação diferente que fazemos da situação italiana”.30 O artigo expressava as dúvidas dos oposicionistas italianos a respeito do desenvolvimento da crise do capitalismo na península e afirmava a possibilidade de que as classes dominantes encontrassem meios para “superá-la provisoriamente”.31

Segundo Blasco, a opinião dos dirigentes do partido italiano a respeito da situação real do movimento de massas era “90% pura fantasia”: “A verdade é que as massas operárias italianas estão fazendo ainda as primeiras tentativas de sair da passividade”.32 A partir dessa caracterização realista da relação de forças os oposicionistas italianos afirmavam a possibilidade de que a queda do fascismo desse lugar a formas políticas democráticas, ou seja, de que “a burguesia (…) por meio deste novo pessoal político [liberais e socialdemocratas] e com uma readaptação ao método democrático retome o controle político e de organização sobre uma parte ao menos daquelas camadas sobre as quais hoje não tem”.33

O artigo de Blasco não mencionava a proposta de Assembleia Republicana com base em comitês de operários e camponeses. Mas pela resposta de Trotsky à carta que os três haviam enviado é possível inferir que ela constasse da versão original. Uma das razões para essa supressão pode estar no fato de que Trotsky se opôs a essa proposta, afirmando que era equivocado procurar conciliar a Assembleia Republicana, órgão do Estado burguês, com os comitês de operários e camponeses, organismos do Estado proletário.34 Trotsky não excluía, entretanto as palavras-de-ordem democráticas do programa e sugeriu as italianos a bandeira da Assembleia Constituinte:

“Não negamos de fato a fase de transição com suas exigências transitórias, inclusive as exigências da democracia. Mas é precisamente com a ajuda destas palavras de ordem de transição, as quais abrem o caminho para a ditadura do proletariado, que a vanguarda operária deverá conquistar o conjunto da classe operária e que esta deverá unificar em torno de si todas as massas oprimidas da nação. E não excluo, nem mesmo, a eventualidade de uma Assembleia Constituinte que em certas circunstâncias poderia ser imposta pela marcha dos acontecimentos ou, mais precisamente, pelo processo de despertar revolucionário das massas oprimidas”.35

A partir desse momento começava a construção da Nuova Opposizione Italiana [Nova Oposição Italiana] (NOI), a qual marcava suas diferenças da antiga oposição bordiguista e alinhava-se com a Oposição de Esquerda Internacional. A oposição publicou, entre 10 de abril de 1931 e 15 de junho de 1936 16 números do Bollettino dell’Opposizione Comunista Italiana [Boletim da Oposição comunista Italiana].36 Sob vários aspectos, a análise da situação política italiana levada a cabo pelos oposicionistas no Bolletino e a orientação política proposta, sintetizada na reivindicação de uma Assembleia Constituinte, aproximava-se daquela que Gramsci discutia com seus companheiros na prisão. Sabe-se que, no cárcere, ele manifestou sua oposição à nova politica do partido, que propôs que os comunistas defendessem a convocação de uma Assembleia Constituinte, que procurou informar-se a respeito do destino dos três e das razões de sua expulsão, e que por esses motivos foi duramente atacado pelos colegas de infortúnio alinhados com a maioria da direção. O clima entre os prisioneiros comunistas tornou-se muito tenso e não foram poucos os que acusaram Gramsci de romper com o partido. De acordo com Giuseppe Vacca: “Todos os testemunhos concordam com o fato de que a maior parte dos companheiros considerava que Gramsci se pusera fora do partido”.37 Angelo Sccucchia, por exemplo, narrou que frequentemente companheiros de infortúnio alinhados com maioria do partido acusaram Gramsci de “oportunismo”, “posição antipartido”, e “traição ideológica”.38

Assassinato

A partir de meados de 1930, Tresso militou na Ligue Comuniste e foi eleito para seu Comitê Executivo. Mais tarde participaria ativamente nas discussões para a fundação da Quarta Internacional e foi delegado em seu congresso de fundação, em 1938, sendo eleito para o Comitê Executivo Inernacional. A eclosão da Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França pelos nazistas a partir de maio de 1940 tornaram extremamente perigosas as atividades políticas de Tresso e no verão de 1941 ele deixou Paris mudando-se para Marseille, que não se encontrava sob ocupação alemã. Imediatamente retomou suas atividades, integrando a direção do Parti Ouvriere Internationaliste [Partido Operário Internacionalista] (POI), nome que a organização trotskista havia adotado em 1936. É desse período a redação do obituário de Gramsci que aqui publicamos.

Nos primeiros dias de junho de 1942 uma onda repressiva se abateu sobre os trotskistas franceses. Vários foram presos pela polícia francesa, dentre eles Tresso, o qual foi brutalmente torturado. Condenado pelo Tribunal Militar a dez anos de trabalhos forçados foi encarcerado na prisão de Lodève. Na prisão, juntamente com outros quatro trotskistas, enfrentou a hostilidade dos stalinistas. Em novembro foi transferido para a prisão de Mauzac e logo depois para Puy-en-Velay. A partir de setembro de 1943 as hostilidades por parte dos stalinistas transformaram-se em explícita ameaça de morte. Foi nesse contexto que ocorreu, na noite de primeiro de outubro, a fuga de 79 prisioneiros, dentre eles Blasco e seus companheiros trotskistas.

A fuga contou com o apoio do serviço secreto inglês e foi operacionalizada por um grupo de maquisards comandado por Giovanni Sosso, conhecido como capitain Jean, do qual se suspeita ser ligado aos serviços secretos soviéticos.39 Os trotskistas foram separados dos demais e conduzidos para o maquis de Raffy. A ameaça sobre eles era constante e o historiador Marc Bloch, destacado dirigente da resistência, tentou em vão libertá-los. Provavelmente entre os dias 26 e 27 de outubro Tresso e seus companheiros foram conduzidos a um bosque e executados por um bando stalinista.40 Terminava assim a vida de Blasco, fundador da NOI, trotskista e gramsciano.


1 Para a biografia de Pietro Tresso ver DE GRANDIS, Ugo. “È perché siamo rimasti Giovani”. Vita e morte di Pietro Tresso “Blasco”, rivoluzionario scledense. Quaderni di Storia e di Cultura Scledense (nuova serie), n. 21, 2012; CASCIOLA, Paolo; SERMASI, Giorgio. Vita di Blasco: Pietro Tresso dirigente del movimento operaio Internazionale (Magrè di Schio 1893–Haute-Loire 1944?). Vicenza: Odeonlibri-ISMOS, 1985; e o pequeno ensaio Les hommes qui ont forgé notre internationale: Pietro Tresso (Blasco), Quatrième Internationale, v. 13, n. 11–12, December 1955, pp. 12–13.
2 La situazione italiano e i compiti del PCI. In: GRAMSCI, Antonio. La costruzione del Partito Communista (1923-1926). Torino: Einaudi, 1971, p. 510.
3 Idem, p. 512.
4 Idem, 510 e 511.
5 Cf. SPRIANO, Paolo. Storia del Partito Comunista Italiano: gli anni della clandestinità. Torino: Einaudi, 1969, p. 63.
6 Extracts from the Theses of the Sixth Comintern Congress on the international situation and the tasks of the Communist International. In: DEGRAS, Jane. The Communist International (1919-1943): Documents. London: Frank Cass, 1971, v. II (1923-1928), p. 457 e 459.
7 Cf. Extracts from a letter from the ECCI to the Central Committee of the Chinese Communist Party. 8 February 1929. In: DEGRAS, Jane. Op. cit., v. III (1929-1943), p. 1 e Extracts from a statement of the West European Bureau of the ECCI on the Conference of European Communist Parties in preparation for an international anti-war day. 18 May 1929. In: DEGRAS, Jane. Op. cit., v. III (1929-1943), p. 29
8 Extracts from the Theses of the Tenth ECCI Plenum on the international situation and the tasks of the Communist International. 1 July 1929. DEGRAS, Jane. Op. cit., v. III (1929-1943), p. 44
9 Idem, p. 47.
10 Extracts from the resolution of the Tenth ECCI Plenum on Bukharin. July 1929. DEGRAS, Jane. Op. cit., v. III (1929-1943), p. 69.
11 Apud SPRIANO, Paolo. Op. cit., p. 216.
12 TOGLIATTI, Palmiro. Opere: a cura de Ernesto Ragionieri. Roma: Riuniti, 1973, v. III/1, p. 154.
13 Idem, p. 180. Cotejando as diferentes citações a respeito do “social-fascismo”, Trotsky, no calor dos acontecimentos afirmou: “os funcionários da I.C. se rearmaram. Ercoli [Togliatti] se apressou em demonstrar que a verdade lhe é cara, mas que Molotov lhe é mais caro ainda, e… escreveu um relatório defendendo a teoria do social-fascismo. ‘A socialdemocracia italiana, declarou ele, se fascistiza com uma extrema facilidade’. Ai! Com maior facilidade ainda se servilizam os funcionários do comunismo oficial” (TROTSKY, Leon. Revolução e contra-revolução na Alemanha. São Paulo: Ciências Humanas, 1979, p. 152).
14 Ver o relato de SPRIANO, Paolo. Op. cit., p. 148-149.
15 Ver a respeito PIAN, Alberto. Le chemin de Tresso vers l‘Opposition de gauche. Cahiers Léon Trotsky, no 29, March 1987, p. 7-9. De acordo com Pian, Tresso e Leonetti demoraram a entenderam os efeitos da política da Internacional Comunista (idem).
16 Apud SPRIANO, Paolo. Op. cit., p. 219.
17 Ver AGOSTI, Aldo. Palmiro Togliatti: a biography London I. B. Taurus, 2008, p. 68.
18 Apud SPRIANO, Paolo. Op. cit., p.160.
19 Cf. AGOSTI, Aldo. Op. cit., p. 70.
20 AGOSTI, Aldo. Op. cit., p. 71.
21 Cf. PIAN, Alberto. Op. cit., p. 29.
22 Ver o depoimento de Leonetti a respeito em Trockij e l’opposizione di sinistra in un carteggio fra Alfonso Leonetti e Isaac Deutscher. Belfagor, v. 34, n. 1, 1979, p. 51.
23 ROSMER, Alfred. Lettre a Leon Trotsky. 10 avril 1930. In: ROSMER, Alfred; ROSMER, Marguerite, TROTSKY, Leon. Correspondance (1929-1939): lettres choisies, présentées et annotées par Pierre Broué, avec la collaboration de Gérard Roche. Paris: Gallimard, 1982, p. 135.
24 CASCIOLA, Paolo. Pietro Tresso (Blasco) and the Early Years of Italian Trotskyism. Revolutionary History, v. 5, n. 4. S.d. Disponível em: http://bit.ly/2n0mZKP
25 Cf. a respeito SPRIANO, Paolo. Op. cit., p. 258.
26 Apud idem, p. 259.
27 Apud idem, p. 259 e 260.
28 Ver, p. ex. SPRIANO, Paolo. Op. cit. e AGOSTI, Aldo. Op. cit.
29 BLASCO. Les problèmes de la révolution en Italie et nos divergences. Lutte de Classes, n. 23, jul 1930, p. 478-502.
30 Idem, p. 479.
31 Idem, p. 484.
32 Idem, p. 485.
33 Idem, p. 493.
34 Leon Trotsky. Response du camarade Trotsky a la nouvelle opposition du Parti Communiste Italien. Lutte de Classes, n. 23, jul 1930, p. 521.
35 Idem, p. 523-524.
36 Ver a coleção do Bolettino em MASSARI, Roberto. All’opposizione nel PCI con Trotsky e Gramsci: Bolletino dell’opposizione Comunista Italaiana (1931-1933). Bolsena: Massari, 2004.
37 VACCA, Giuseppe. Vida e pensamento de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012, p. 370)
38 QUERCIOLI, Mimma Paulesu. Gramsci vivo nelle testimonianze dei sui contemporanei. Milano: Feltrinelli, 1977, p. 222)
39 Cf. DE GRANDIS, Ugo. Op cit., p. 54. Maquis era o nome que recebiam os grupos de resistentes contra a ocupação nazista principalmente na Bretanha e no sul da França. Maquisards eram seus membros.
40 Cf. a pesquisa de BROUE, Pierre; VACHERON, Raymond. Assassini nel maquis. La tragica morte di Pietro Tresso. Roma: Prospettiva, Roma 1996, p. 106-109.

Este artigo integra a 4ª edição da Revista Movimento, de jan/mar 2017. Confira todos os artigos dessa edição!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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