Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A Lava Jato chega a Temer: sobre as gravações de Joesley Batista

Nota do Secretariado Nacional do MES a respeito da divulgação do acordo de delação premiada de Joesley Batista, controlador do grupo J&F.

Rocha Loures carrega malas - Bruno Santos / Folhapress
Rocha Loures carrega malas - Bruno Santos / Folhapress

Após a delação da JBS avançamos na caracterização da crise do governo Temer na Nota do secretariado nacional do MES datada de 18 de maio de 2017. Ali definimos que a nova etapa da Operação lava Jato nocauteou Temer, colocando-o contra as cordas. Avaliamos também que a burguesia tentaria encontrar uma saída antidemocrática para a crise, ressaltando a importância de tomar as ruas e da marcha à Brasília no dia 24.

A partir desta nova conjuntura a queda do presidente Temer é iminente e seu governo está em estado terminal. O decreto colocando as Forças Armadas no patrulhamento de rua em Brasília, revogado em menos de 24 horas, foi mais uma demonstração cabal da desorganização e fraqueza do governo, que não foi capaz sequer de prever e se preparar para a marcha em Brasília.

A operação Lava Jato permitiu este novo salto na crise política do regime da nova república agonizando. O desdobramento da situação pode ser no dia 06 de junho, quando o TSE começa a julgar a chapa Dilma/Temer e pode optar pela cassação de Temer. Mas o quadro ainda não está fechado, ainda que a queda do governo é muito difícil de ser revertida.

Como previmos, há tentativas de acordos sendo feitos entre o PSDB, PT e PMDB, com apoio da Rede Globo de TV, para substituir Temer pela via da eleição indireta e abrir caminho para a retomada das reformas neoliberais. Não é um acordo fácil por várias razões: encontrar um nome que unifique os setores ou que, no mínimo, permita um conforto mínimo entre os atores, mas sobretudo porque boa parte deles são investigados pela Lava Jato, que não está na negociação. Inclusive Nelson Jobim, a saída mais confortável para PMDB, PSDB e PT, é sócio de um banco investigado.

Mas a tentativa de acordo parte de uma constatação: a continuidade de Temer significa a paralisia total das reformas neoliberais e sobretudo incrementará muito as lutas sociais e políticas. Tal incremento pode representar um novo salto no movimento de massas e colocar na pauta das possibilidades reais um novo junho, só que desta vez mais violento. Este setor burguês sabe que pode se abrir uma situação pré-revolucionária no país ou até revolucionária, já que nos tempos acelerados da política atual a transição de um período para outro também o é.

É possível definir que já temos na conjuntura quase todos os elementos de uma situação pré-revolucionária no país: crise econômica, elementos de divisão importante na classe dominante e descontentamento do movimento de massas. Embora seja fato que as amplas massas ainda não estão decididas a lutar e que a divisão da classe dominante é ainda incipiente, estes elementos podem dar o salto de qualidade. Isso é o que o partido da Globo quer evitar.

Entretanto, o núcleo duro de Temer ainda resiste. Além do governo, suas vidas estão em jogo, pois alguns deles podem sair do Palácio do Planalto direto para a cadeia. Por isso disputam uma parte dos que estão tentando negociar o acordão. Em particular, tentam deslocar o PSDB e a Gilmar Mendes para seu lado mais firme. Prometem a continuidade das reformas e, sobretudo, o combate decisivo a Lava Jato. Prometem, mas sabem que dificilmente podem entregar; por isso, suas promessas soam mais como desespero e não conseguem atrair apoio para a continuidade do governo. A tentativa mais viável de acordo é algum tipo de garantia a Temer, Padilha e Moreira Franco de que não serão presos.

Todos sabem que para Temer continuar terão que enfrentar mais o movimento de massas. Ocorre que neste enfrentamento terão que aumentar muito a repressão. Correm o risco de cair nas mãos da extrema direita. Mas este não seria o maior problema. O problema é que o movimento de massas no Brasil, embora politicamente confuso, não foi derrotado estruturalmente. Ao contrário, vem de um potente junho de 2013.

Ainda que em 2015 e 2016 a direita tenha ganho as ruas e dado o tom, as massas que a seguiram não eram todas de direita, sendo boa parte movida pela luta contra a corrupção e em defesa da Lava Jato. E a opção de Temer continuar teria que ser não apenas abertamente de choque frontal com o movimento de massas mas também contra a Lava Jato. Não poderia fazer o discurso da lei e da ordem para reprimir a extrema esquerda e ao mesmo tempo ser o próprio presidente um fora da lei. Poderia reunir contra ele uma parte importante da classe média que até agora não entrou.

E não percamos de vista que as ruas novamente foram resignificadas desde 08 de março, passando pelo 15 de março e depois o 28 de abril, com a forte greve geral. E claro o dia 24, onde o movimento respondeu bem, com as forças trotskistas, embora minoritárias, dando a dinâmica de um protesto chamado por todos os sindicatos do Brasil.

Por isso Temer está apenas tentando ganhar tempo, não para chegar até 2018, mas para ter uma saída honrosa. Mas isso não é fácil e enquanto não há saída permanece o impasse e a possibilidade de radicalização da situação. A Rede Globo chefia a linha da deposição porque tem consciência disso e sabe que as reformas não sairão e que as indiretas serão cada vez mais questionadas quanto mais tempo Temer se mantenha.

Se prevalecer os interesses gerais da classe dominante, cuja melhor leitura é feita pela Globo, uma solução rápida é o melhor caminho. A opinião das massas de que as eleições diretas devam ser o mecanismo de substituição de Temer não se traduz, por enquanto, numa vontade de se mobilizar. A falta de opção é decisiva para esta vontade reduzida de uma mobilização de massas. Mas o temor burguês também é que esta vontade ganhe corpo. E nossa aposta é que contra as saídas burguesas dominantes, as próprias eleições diretas se imponham, o que seria uma conquista democrática.

Nossa política é pelo Fora Temer porque sua queda é uma necessidade nacional. Fortalece no povo a ideia de que grandes mudanças podem ocorrer. É também um novo triunfo da operação lava-jato. Defendemos também que o Fora Temer deve significar também o fim das reformas neoliberais. Para tanto defendemos uma nova greve geral. E denunciamos os pactos que querem liquidar a Lava Jato, construir as condições de aplicação das reformas e que substituam Temer por um candidato eleito indiretamente por um congresso corrupto. Exigimos o voto popular. O voto para presidente. E também uma nova eleição para renovação total do congresso. Cremos que tal conquista fortalece o movimento de massas, cuja estratégia deve ser lutar para construir suas próprias instituições capazes de controlar a economia e a política.

É fundamental, portanto, seguir construindo mobilizações unitárias como foi o dia 24 em Brasília e a greve geral, ser a vanguarda da luta, como fomos em Brasília, e ao mesmo tempo disputar a direção destas mobilizações , pois há um claro vazio diante da crise das velhas direções. Momentos de crise como este são o terreno mais fértil para o crescimento de uma organização revolucionária, são momentos em que os grandes saltos políticos acontecem, por isso não podemos desperdiçar a oportunidade.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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