Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Combater as mudanças climáticas individualmente é uma armadilha neoliberal

O neoliberalismo faz parecer que a luta ambientalista deve ser travada no âmbito individual através de hábitos de consumo alternativos, trata-se nada mais que ideologia.

Decoração sustentável do Campus São Paulo da Google - Reprodução
Decoração sustentável do Campus São Paulo da Google - Reprodução

Você aconselharia alguém a abanar uma toalha para salvar uma casa em chamas? A lutar com um inseticida em um tiroteio? Tão fora de sintonia como estes, os conselhos que ouvimos referentes às mudanças climáticas não se relacionam com a natureza de sua crise.

Na semana passada, um e-mail que estava em minha caixa de entrada oferecia sugestões para tornar meu escritório verde: usar canetas recicladas, redecorar o espaço com luzes coloridas, parar de usar o elevador.

De volta à minha casa, que tem escadas, eu poderia continuar sendo verde: trocar as lâmpadas, comprar legumes locais, comprar eletrodomésticos sustentáveis, colocar um painel de energia solar do terraço.

Um estudo publicado na quinta-feira mostrava o melhor jeito de lutar contra as mudanças climáticas: não ter filhos.

Estes chamados perversos para ações individuais – presentes em anúncios, livros escolares e campanhas de grupos ambientalistas – parecem tão naturais quanto o ar que respiramos. Mas nós dificilmente poderíamos estar em piores condições.

Enquanto estamos ocupados tornando nossas vidas individuais mais verdes, corporações de combustível fóssil tornam estes efeitos irrelevantes. Cem empresas sozinhas são responsáveis por 71% da taxa de emissão de carbono desde 1988. Enquanto nós pensamos naquelas canetas recicladas ou nos painéis solares, eles estão incendiando o planeta.

A liberdade que estas corporações têm para poluir e a obsessão por um estilo de vida mais responsável não são coisas desconectadas. É o resultado de uma guerra ideológica vigente nos últimos 40 anos, contra a possibilidade de uma ação coletiva. Com um sucesso devastador, ainda há tempo de ser revertido.

O projeto político do neoliberalismo, conduzido por Thatcher e Reagan, perseguiu dois objetivos principais. O primeiro era acabar com toda e qualquer barreira que pudesse impedir o exercício do poder privado. O segundo era aparenta-lo como uma representação democrática da vontade majoritária do povo.

As políticas de privatização, desregulamentação, cortes de impostos e acordos de livre comércio permitiram que as corporações acumulassem lucros gigantescos e tratassem a atmosfera como um despejo de esgoto, limitando nossa capacidade de planejar o bem-estar coletivo, através do Estado.

Qualquer coisa que fosse similar ao controle coletivo sobre o poder corporativo se tornou alvo da elite: o lobby e as doações corporativas, fazendo ruir as democracias, obstruíram as políticas verdes e mantiveram os subsídios aos combustíveis fósseis; E os direitos de associação como o sindicato – o meio mais eficaz para que os trabalhadores exerçam o poder em conjunto – foram prejudicados sempre que possível.

Quando as mudanças climáticas demandam uma responsabilidade pública coletiva, a ideologia neoliberal aparece como uma pedra no caminho. É por isso que se nós quisermos diminuir as emissões de carbono de forma rápida, vamos precisar acabar com todos os mantras do livre-mercado: devolver as ferrovias, os serviços públicos e as redes de energia de volta ao controle público; regular as empresas para eliminar os combustíveis fósseis; aumentar os impostos para pagar o investimento maciço em infra-estrutura pronta para o clima e energia renovável – para que os painéis solares possam estar no telhado de todos, não apenas sobre aqueles que podem pagar.

O neoliberalismo não só tornou essa agenda política pouco realista, como também tentou torná-la culturalmente impensável. O culto à competitividade e ao hiper individualismo, a estigmatização da compaixão e solidariedade desgastou nossos laços coletivos. A frase de Margaret Thatcher “essa coisa de sociedade não existe” se espalhou como um resíduo tóxico anti-social.

Estudos mostram que pessoas que cresceram nesta era de fato se tornaram mais individualistas e consumistas. Imersos em uma cultura que nos diz para nos enxergarmos como consumidores ao invés de cidadãos, como auto-suficientes ao invés de depender uns dos outros, não é de se admirar que lidamos de forma individual, e ineficaz, um problema que é relativo ao sistema. Somos todos filhos de Thatcher.

Mesmo antes do neoliberalismo, a economia capitalista já havia nos levado a crer que ser afetado por um problema estrutural – como a pobreza, o desemprego, a falta atendimento de saúde de qualidade – era um problema pessoal, não uma consequência deste sistema de exploração.

O neoliberalismo potencializou essa culpa. O neoliberalismo diz que – além de você se sentir culpado e envergonhado por não ter um bom emprego, estar endividado, além de muito estressado ou ocupado para ver seus amigos – você também é responsável pelo colapso do meio ambiente.

É importante que as pessoas consumam menos e pensem em alternativas de baixa emissão de carbono, como fazendas sustentáveis, armazenamento de energia e métodos que não gerem resíduos. No entanto, estas ações individuais serão mais efetivas quando o sistema oferecer opções sustentáveis para todos, não para poucos.

Enquanto não houver transporte público de qualidade, as pessoas continuarão andando de carro. Enquanto as feiras orgânicas forem caras, elas não serão uma opção viável em comparação às redes de supermercados que se valem de combustíveis fósseis. Se os bens produzidos em massa são baratos e produzidos sem parar, nós vamos comprar, comprar e comprar. Este é o papel de neoliberalismo: nos persuadir a lutar contra as mudanças climáticas através dos nossos livros de bolso, e não através do poder e da política.

O consumo verde pode aliviar um pouco da sua culpa, mas somente o movimento de massas pode alterar o rumo da crise climática. Então, em primeiro lugar, nós precisamos ter em mente a armadilha que o neoliberalismo tenta nos pregar e parar de pensar individualmente.

A boa notícia é que os seres humanos têm um impulso para se unir – e a imaginação coletiva já está voltando para a cena política. O movimento ambientalista tem bloqueado oleodutos, forçando o desinvestimento de US$30 trilhões e ganhando cada vez mais apoio para economias que sejam 100% de energia limpa nas cidades e estados de todo o mundo. Diálogos estão sendo feitos com o Black Lives Matter, com aqueles que lutam pelos direitos dos imigrantes e dos indígenas, além dos que lutam por melhores salários. Em consonância com estes movimentos, os partidos políticos parecem dispostos a desafiar o dogma neoliberal.

O melhor exemplo é Jeremy Corbyn, cujo manifesto eleitoral continha um projeto redistributivo para lidar com as mudanças climáticas: retomar a economia para o poder público e acabar com o poder das corporações. A ideia de que os ricos devem pagar sua parte para financiar essa transformação era considerada risível pela classe política e pela mídia. Milhões discordaram. Mas a sociedade está de volta – e com vingança.

Então plante algumas cenouras e ande de bicicleta: isso vai te fazer mais feliz e saudável. Porém é hora de parar de pensar no quão verde a sua vida é e começar a pensar, coletivamente, em como tomar o poder.

(Texto originalmente publicado pelo jornal inglês The Guardian. Tradução de Adria Meira)

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Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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