Dilemas da esquerda radical em um sistema capitalista moribundo

Há um debate interno entre os militantes radicais de esquerda sobre táticas futuras. Devem eles buscar o poder eleitoral ou devem procurar controlar as ruas?

Immanuel Wallerstein 25 ago 2017, 17:41

No que eu chamo de mundo pan-europeu (América do Norte; Europa ocidental, do norte e do sul e Australásia), a escolha eleitoral básica durante o último século tem sido entre dois partidos centristas, centro-direita versus centro-esquerda. Houve outros partidos mais à esquerda e mais à direita, mas eles eram essencialmente marginais.

No entanto, na última década, esses chamados partidos extremos tem ganhado força. Tanto a esquerda radical quanto a direita radical emergiram como uma força sólida em um número grande de países. Eles precisaram ou substituir a festa centrista ou assumi-la.

A primeira realização espetacular da esquerda radical foi a habilidade da esquerda radical grega, o Syriza, de substituir o partido de centro esquerda, o Pasok, que na realidade desapareceu por completo. O Syriza chegou ao poder na Grécia. Os comentadores falam nos dias de hoje de “pasokzação” para descrever isso.

O Syriza chegou ao poder, mas foi incapaz de realizar o seu programa prometido. Para muitos, o Syriza foi, portanto, uma grande decepção. A fração mais infeliz argumentou que o erro tinha sido buscar o poder eleitoral. Eles disseram que o poder tinha que ser alcançado nas ruas e então seria significativo.

Desde então, tivemos outros casos de uma esquerda radical emergente. Na Grã-Bretanha, o líder da esquerda radical, Jeremy Corbyn, tornou-se o líder do Partido Trabalhista britânico, ao obter o apoio de novos membros que entraram no partido para votar nas primárias. Nos Estados Unidos, Bernie Sanders desafiou a candidata do establishment, Hillary Clinton, e teve um grau de apoio surpreendentemente forte. Na França, o partido do candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, também teve um desempenho surpreendente e obteve mais votos do que o partido de esquerda mainstream, os Socialistas.

Hoje, em todos esses países, há um debate interno entre os militantes radicais de esquerda sobre táticas futuras. Devem eles buscar o poder eleitoral ou devem procurar controlar as ruas? O dilema é que nem uma nem outra funciona bem. Se eles chegam ao poder do estado, eles descobrem que eles precisam fazer inúmeros “compromissos” do seu programa para permanecer no poder. Se eles buscam o poder somente nas ruas, eles descobrem que não podem fazer as mudanças que querem sem o poder no estado, e podem ser mantidos sob controle pelas agências estatais que utilizam a força do estado.

Assim sendo, é impossível perseguir um programa de esquerda radical hoje? De modo algum! Estamos vivendo em meio à transição de um sistema capitalista moribundo e um novo sistema ainda a ser escolhido. Os esforços da esquerda radical hoje afetam a escolha do sistema substituto no médio prazo. O debate tático é essencialmente um debate sobre o curto prazo. O que fazemos no curto prazo afeta o intermediário, mesmo que se perceba pouco no curto prazo.

O que provavelmente faz mais sentido como tática no curto prazo é usar ambas as táticas, o caminho eleitoral e o caminho da rua, mesmo que nenhuma delas compense no curto prazo. Pense no curto prazo como um campo de treinamento para o médio. Isso funcionaria se entendêssemos a distinção de tempo e, portanto, fôssemos encorajados ao invés de desencorajados pelo que conseguimos alcançar no curto prazo. Podemos fazer isso? Sim, nós podemos. Mas vamos? Veremos.

(Artigo originalmente publicado no site MR online. Tradução de Giovanna Marcelino.)


TV Movimento

Revista Retomada estreia com debate sobre fascismo

Em entrevista para a TVT, Vladimir Safatle fala sobre a nova revista Retomada, publicada em iniciativa conjunta do MES-PSOL, intelectuais e artistas da esquerda socialista

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre
Editorial
Israel Dutra | 09 set 2026

Sinal amarelo – retomar a iniciativa contra a manobra no STF

O golpismo e Trump vão jogar pesado para evitar a vitória de Lula. O lado de cá, das trabalhadoras e trabalhadores, precisa responder à altura
Sinal amarelo – retomar a iniciativa contra a manobra no STF
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores