Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Dilemas da esquerda radical em um sistema capitalista moribundo

Há um debate interno entre os militantes radicais de esquerda sobre táticas futuras. Devem eles buscar o poder eleitoral ou devem procurar controlar as ruas?

O 15M espanhol, em 2011 - Reprodução
O 15M espanhol, em 2011 - Reprodução

No que eu chamo de mundo pan-europeu (América do Norte; Europa ocidental, do norte e do sul e Australásia), a escolha eleitoral básica durante o último século tem sido entre dois partidos centristas, centro-direita versus centro-esquerda. Houve outros partidos mais à esquerda e mais à direita, mas eles eram essencialmente marginais.

No entanto, na última década, esses chamados partidos extremos tem ganhado força. Tanto a esquerda radical quanto a direita radical emergiram como uma força sólida em um número grande de países. Eles precisaram ou substituir a festa centrista ou assumi-la.

A primeira realização espetacular da esquerda radical foi a habilidade da esquerda radical grega, o Syriza, de substituir o partido de centro esquerda, o Pasok, que na realidade desapareceu por completo. O Syriza chegou ao poder na Grécia. Os comentadores falam nos dias de hoje de “pasokzação” para descrever isso.

O Syriza chegou ao poder, mas foi incapaz de realizar o seu programa prometido. Para muitos, o Syriza foi, portanto, uma grande decepção. A fração mais infeliz argumentou que o erro tinha sido buscar o poder eleitoral. Eles disseram que o poder tinha que ser alcançado nas ruas e então seria significativo.

Desde então, tivemos outros casos de uma esquerda radical emergente. Na Grã-Bretanha, o líder da esquerda radical, Jeremy Corbyn, tornou-se o líder do Partido Trabalhista britânico, ao obter o apoio de novos membros que entraram no partido para votar nas primárias. Nos Estados Unidos, Bernie Sanders desafiou a candidata do establishment, Hillary Clinton, e teve um grau de apoio surpreendentemente forte. Na França, o partido do candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, também teve um desempenho surpreendente e obteve mais votos do que o partido de esquerda mainstream, os Socialistas.

Hoje, em todos esses países, há um debate interno entre os militantes radicais de esquerda sobre táticas futuras. Devem eles buscar o poder eleitoral ou devem procurar controlar as ruas? O dilema é que nem uma nem outra funciona bem. Se eles chegam ao poder do estado, eles descobrem que eles precisam fazer inúmeros “compromissos” do seu programa para permanecer no poder. Se eles buscam o poder somente nas ruas, eles descobrem que não podem fazer as mudanças que querem sem o poder no estado, e podem ser mantidos sob controle pelas agências estatais que utilizam a força do estado.

Assim sendo, é impossível perseguir um programa de esquerda radical hoje? De modo algum! Estamos vivendo em meio à transição de um sistema capitalista moribundo e um novo sistema ainda a ser escolhido. Os esforços da esquerda radical hoje afetam a escolha do sistema substituto no médio prazo. O debate tático é essencialmente um debate sobre o curto prazo. O que fazemos no curto prazo afeta o intermediário, mesmo que se perceba pouco no curto prazo.

O que provavelmente faz mais sentido como tática no curto prazo é usar ambas as táticas, o caminho eleitoral e o caminho da rua, mesmo que nenhuma delas compense no curto prazo. Pense no curto prazo como um campo de treinamento para o médio. Isso funcionaria se entendêssemos a distinção de tempo e, portanto, fôssemos encorajados ao invés de desencorajados pelo que conseguimos alcançar no curto prazo. Podemos fazer isso? Sim, nós podemos. Mas vamos? Veremos.

(Artigo originalmente publicado no site MR online. Tradução de Giovanna Marcelino.)

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Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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