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Alemanha: a campanha eleitoral fracassada do Die Linke

Uma análise do partido alemão que não não foi capaz nem de pautar o debate público nem de ir além do seu eleitorado tradicional.

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Poderia ter sido criada uma dinâmica de campanha ao redor do precariado, porque cerca de 13 milhões de alemães vivem abaixo da linha da pobreza. Diante das eleições ao Bundestag, Die Linke, o partido da esquerda, não conseguiu mobilizar para além de seu eleitorado tradicional.

Deu-se inclusive um tiro no pé antes do começo da campanha eleitoral. Ainda que o ABC da nova esquerda tem consistido, internacionalmente, em apresentar um rosto carismático – fosse Sanders, Mélenchon ou Iglesias – Die Linke (A esquerda) optou por apresentar dois nas eleições ao Bundestag: Sahra Wagenknecht e Dietmar Bartsch. Se esta opção quer ser um sinal reconciliador, a candidatura bicéfala também simboliza um desacordo. Mas é tão conhecido que não deve fazer perder o objetivo: unir a esquerda na Alemanha. Uns dias antes das eleições, Die Linke girava em torno de 10% nas pesquisas, seu resultado tradicional.

Enquanto Dietmar Bratsch representa uma esquerda reformista moderada, Sahra Wagenknecht é considerada a representante da esquerda do partido. Ainda que ambos os candidatos do Die Linke defendam uma política fiscal severa para os ultrarricos e se comprometeram a melhorar a proteção social, e estão contra a exportação de armas, estas questões não foram levantadas na campanha.

Desde 2015, a chegada à República Federal de ao redor de um milhão de refugiados é o tema central. E é precisamente sobre este tema que os dois candidatos não tinham inicialmente uma linha comum. Antes de sua designação como candidata em janeiro, Wagenknecht enfureceu grande parte dos militantes do Die Linke afirmando em um comunicado de imprensa no verão de 2016 que: “A acolhida e integração de grande número de refugiados levante problemas”. Também assinalou que eram necessárias medidas para que a população pudesse sentir-se segura de novo, insinuando que a imigração era um perigo. O que a situava a direita de Merkel, que permitiu a acolhida dos solicitantes de asilo. Em um contexto onde o jovem partido de extrema direita, Alternative für Deutschland (AfD), cresce nas sondagens graças a um discurso contra os imigrantes, este posicionamento não foi bem recebido. Milhares de pessoas que participam nas associações de ajuda aos refugiados se viram desacreditados por uma representante da esquerda. A decepção foi ainda maior porque Wagenknecht sempre se havia mostrado antinacionalista, a ponto de criticar a posição hegemônica da Alemanha na União Europeia.

No congresso do seu partido em 2016 jogaram um bolo de chocolate na cara de Wagenknecht. Estas ações simbólicas de uma organização antifascista até agora haviam sido dirigidas contra os representantes da extrema direita. Diz muito. A líder do Die Linke também foi criticada na época por Bartsch, copresidente do partido, que agora se coloca do seu lado. Sahra Wagenknecht disse haver sido mal interpretada. No entanto, posteriormente, outros comentários similares testemunham, também, certa hostilidade em relação aos refugiados. Se o propósito evidente da candidatura era recuperar os votantes das classes trabalhadoras que se haviam unido à extrema direita, é possível que a manobra tenha causado o efeito contrário: a perda de votantes de esquerda. Ainda que pudesse ter mobilizado os setores precários falando de justiça social, Wagenknecht se adaptou à agenda da AfD centrando-se em seu tema chave, o rechaço dos refugiados.

Durante esta campanha, a estratégia de comunicação do Die Linke não foi capaz de superar este problema inicial. Ainda que Wagenknecht afirme agora defender a acolhida de refugiados, igual seu colega Bartsch, não emergiram outros debates políticos. Wagenknecht e Bartsch conseguiram impor-se em um par de debates televisados. Mas a precariedade, as leis Hartz IV, a injustiça fiscal ou a disparidade salarial entre homens e mulheres não estiveram particularmente presentes. Tampouco houve um discurso passional capaz de ser repercutido pelas redes sociais. Simplesmente não há entusiasmo. Quando se pergunta a Wagenknecht sobre as duas primeiras medidas que tomaria como chanceler, fala de um aumento do salário mínimo. Mas se esquece de dizer que o salário mínimo deve estender-se a todos os assalariados, o que não é o caso hoje em dia. Também perdeu a oportunidade de falar de uma política fiscal mais severa com os ultrarricos, em resposta a essa pergunta essencial.

Com cerca de 13 milhões de pessoas pobres, no entanto, havia mais que motivos para reagrupar os eleitores em torno de reinvindicações similares, como a distribuição da riqueza como fez, a sua maneira, Jean-Luc Mélenchon na França. Mas nem Bartsch nem Wagenknecht parecem acreditar na mudança, quando defendem a causa. É como se tivessem resignados a seguir sendo o mesmo pequeno partido de oposição.

Outra ferida aberta é o passado histórico do partido. O Die Linke nasceu da fusão em 2007 de dois partidos de esquerda, um dos quais era o PDS. Mas o PDS era formal e legalmente o sucessor do SED, o partido comunista unificado da Alemanha Oriental antes da reunificação. Antigos dirigentes da Alemanha Oriental seguem estando ativos no Die Linke – entre eles Dietmar Bartsch, o segundo candidato. Ainda que a geração pós-unificação se mostra indiferente a esse passado, para outros a recordação do regime repressivo e da vigilância massiva segue estando muito presente para esquecê-lo. O Die Linke tenta dar uma imagem mais juvenil, separada desse passado. O fato de que muitas figuras proeminentes do partido apoiem a Rússia e o seu presidente Vladimir Putin seja que for o tema, uma espécie de tradição, não ajuda.

Uma esquerda mais forte se orientaria em direção aos ecologistas do Die Grünen (“Os Verdes”)? Este partido também se situa na esquerda e decidiu apresentar dois candidatos às eleições. Em deles é Cem Özdemir, de família trabalhadora e imigrante. Sua biografia lhe havia permitido projetar uma imagem próxima das pessoas, sensível às injustiças sociais. Mas não foi essa a aposta do Die Grünen. Duas semanas antes das eleições, em um debate televisionado com o ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, Özdemir optou por colocar em relevo as semelhanças entre os Verdes e a CDU, o partido conservador. A mensagem era evidente: Die Grünen está disposto a construir uma coalizão com o partido de Merkel e Schäuble. Özdemir reafirmou desta maneira a imagem dos Verdes como um partido burguês que se situa entre os partidos do sistema, independentemente de sua orientação.

E quanto aos dois partidos governantes, a CDU e o SPD, decidiram fazer desta esquerda dividida – ou o que resta dela – seu inimigo, uma autêntica ameaça. Olaf Scholz, prefeito de Hamburgo, disse este verão que o Die Linke era o “braço parlamentar” do bloco negro anarquista que se havia manifestado contra a cúpula do G-20, participando em enfrentamentos com as forças de segurança, queimando carros e quebrando vitrines. Criticou unanimemente o Die Linke por não se distanciar o suficiente dessa violência na cúpula do G-20. Uma vez mais, o partido permitiu que fossem outros que ditassem o tema do debate público. Não se ouvirá falar de justiça social, porque aqueles que a exigem queimaram umas pequenas lojas. A estratégia funcionou a perfeição. Thomas de Maizière, ministro (CDU) do interior, conseguiu o que queria ao proibir recentemente o portal de informação de extrema esquerda linksunten.indymedia.org, alegando que fazia chamado à violência. A ONG Repórteres sem Fronteiras criticou a proibição; os administradores do site anunciaram que iam apresentar uma queixa. Mas de Maizière conseguiu o que queria: um bode expiatório, para demonstrar que utiliza os mecanismos de repressão que dispõe. A esquerda radical, minoria, foi incapaz de superar este obstáculo para criar uma dinâmica eleitoral com vontade de chegar à maioria.

(Tradução de Marcelo Martino da versão em espanhol publicada no site Sin Permisso.)

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