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Carlo Cafiero: o anarquista que resumiu ‘O Capital’ para o proletariado italiano

Na data de nascimento do anarquista italiano Carlo Cafiero, leia o prefácio de "O Compêndio de 'O Capital'" e a correspondência com Marx, que parece ter aprovado a empreitada de Cafiero.

Carlo Cafiero - Reprodução
Carlo Cafiero - Reprodução

Nascido no seio de uma família aristocrática do sul da Itália, Carlo Cafiero (Barletta, Apulia, 1 de setembro de 1846 — Nocera Inferiore, 17 de julho de 1892) notabilizou-se como um anarquista italiano, influente na segunda metade do século XIX. Depois de estabelecer relações com Karl Marx e Friedrich Engels em Londres, aderiu à militância anarquista — por forte influência de Mikhail Bakhunin — ao construir a I Internacional em Nápoles. Ao lado dos jovens Enrico Malatesta, Carmelo Paladino e Emilio Covelli, lutou para massificar os ideais anarquistas. Em 1872, a bancarrota da I Internacional – na esteira da derrota da Comuna de Paris e dos desacordos entre os marxistas e os bakhunistas — faz Cafiero interromper suas correspondências com Engels e Marx.

Esteve preso diversas vezes por subversão e, com o dinheiro da herança familiar, comprou uma vila na fronteira da Suíça com a Itália, onde construiu “La Baronata”, uma espécie de refúgio para diversos militantes revolucionários da década de 1870. Em 1875, muda-se para Milão, onde se incorpora à equipe editorial de La Plebe, o primeiro periódico socialista com publicação regular na Itália.

No inverno de 1877, Cafiero e três dezenas de seus companheiros tentam um mal-sucedido levante revolucionário na província de Benevento, que culmina na prisão de todos os insurgentes. A ação precipitada recebe forte críticas do Partido Social-Democrata alemão, a organização socialista (que tinha Marx e Engels nas suas fileiras) mais robusta à época.

Na prisão — da qual sai em agosto de 1878 — escreve seu trabalho mais célebre: “O Compêndio de ‘O Capital'”, em que busca resumir em 160 páginas e 11 capítulos a obra-magna de Marx (não por acaso, elogiada por Bakhunin em 1867) a a fim de difundi-la entre os estudantes, trabalhadores e pequeno-burgueses. La Plebe edita-a e, posteriormente, Marx manifestaria sua satisfação com o compêndio, ainda que Engels não tivesse Cafiero em grande conta, por conta de sua proximidade com Bakhunin.

Livre, Cafiero emprega-se como cozinheiro e portuário em Marselha. Expulso da França com Malatesta, regressa à Suíça e depois é forçado a se exilar em Londres durante 1881. Crises psiquiátricas começam a atormentá-lo e, paulatinamente, sua sanidade deteriora-se com as recorrentes detenções sem causa (que o levam a tentar o suicídio por mais de uma vez) e com a separação de sua cônjuge, Olympia Kutusoff, mandada à Sibéria pelo czarismo russo por agitação socialista. Durante esta fase, Malatesta faz-lhe uma visita em que sintetiza o estado do camarada: “Se sua mente está enferma, seu coração continua são”. Morre praticamente abandonado pelos familiares num hospital psiquiátrico em Salerno em 1892.

Abaixo publicamos o prefácio de Cafiero à primeira edição de “O Compêndio de ‘O Capital'” e a correspondência entre Marx e Cafiero em 1879.

Prefácio do autor à primeira edição

Sentia uma tristeza profunda, estudando O Capital, ao pensar que este livro era e é, sabe-se lá até quando, inteiramente desconhecido na Itália. Mas se as coisas estão nesse pé, dizia a mim mesmo, não devo poupar esforços para mudar a situação. Mas, o que fazer? Uma tradução? Não! Isso não adiantaria nada. Aqueles que estão em condições de compreender a obra de Marx, como ele a escreveu,conhecem certamente o francês e podem perfeitamente usar a bela tradução de J. Roy, inteiramente revista pelo próprio Marx e que ele recomendou mesmo para os que dominamos o idioma alemão. É para outro tipo de gente que devo trabalhar. E essa gente se divide em três categorias: primeira, composta pelos trabalhadores inteligentes e com alguma instrução; a segunda, pelos jovens nascidos na burguesia, mas que lutam pela causa dos trabalhadores e não têm ainda a suficiente formação nem o desenvolvimento intelectual para compreender O Capital; a terceira, finalmente, é essa galera de escola, ainda quase criança, que se pode comparar a uma árvore que pode dar bons frutos, se transplantada para um terreno propício. Meu trabalho deve ser, portanto, um resumo fácil e curto do livro de Marx. O Capital de Marx é demolidor: é a verdade nova que arrasou e dispersou ao vento todo um castelo secular de erros e mentiras. Uma verdadeira guerra! Uma guerra gloriosa pela força do inimigo, e pela força ainda maior do comandante que a empreendeu com uma imensa quantidade de novíssimas armas, instrumentos e máquinas de todo tipo, o que o seu gênio soube extrair de toda a ciência moderna. Incomparavelmente muito mais modesta é a minha missão. Devo apenas conduzir uma tropa de voluntários ardorosos por uma estrada mais fácil e rápida para o templo do capital e destruir esse deus, para que todos o vejam com os próprios olhos e o toquem comas próprias mãos nos elementos que o compõem. Arrancaremos as vestes dos seus sacerdotes para que todos possam ver as manchas de sangue humano que escondiam e as armas cruéis que usam para sacrificar um número sempre crescente de vítimas. É com estes propósitos que me ponho a trabalhar. Possa Marx cumprir a sua promessa, dando-nos o segundo volume de O Capital, que tratará da circulação e das diferentes formas que o capital assume no seu desenvolvimento, e também o terceiro volume que tratará da história da teoria. O primeiro volume de O Capital foi escrito em alemão e logo depois traduzido para o russo e o francês. Resumo-o agora em italiano para aqueles que se interessam pela causado trabalho, os trabalhadores devem ler este livro e maduramente refletir sobre ele, porque nele está não somente a história do desenvolvimento da produção capitalista, mas também o Martirológio do trabalhador. E, finalmente, dirijo-me também a uma classe muito interessada no destino da acumulação capitalista: a classe dos pequenos proprietários. Como explicar essa classe,outrora tão numerosa na Itália e hoje cada vez mais reduzida? A razão é muito simples. Porque a Itália, desde 1860, percorre a todo vapor o caminho que todas as nações modernas precisam necessariamente percorrer: o caminho que leva à acumulação capitalista. E essa acumulação capitalista teve na Inglaterra aquela forma clássica, da qual se aproximam tanto a Itália como os demais países modernos. Se os pequenos proprietários meditarem sobre a história da Inglaterra, referida nas páginas desse livro, se meditarem sobre a acumulação capitalista, agravada na Itália pela usurpação dos bens eclesiásticos e dos bens públicos, se sacudirem essa apatia que oprime a sua mente e o seu coração, se convencerão, de uma vez por todas, que a sua causa é a causa dos trabalhadores, porque para eles a moderna acumulação capitalista não deixou mais do que essa triste condição: ou se vender por um salário de fome ou desaparecer para sempre na densa massa do proletariado.

Carlo Cafieiro. Itália, março de 1878.

Carta de Carlo Cafiero a Karl Marx, 23 de julho de 1879 (Les Moliére)

Prezadíssimo Senhor,

Envio-lhe pelo mesmo correio dois exemplares da sua obra O Capital, que eu resumi de forma sucinta. Gostaria de ter-lhes enviado mais cedo, mas só agora consegui alguns exemplares graças à gentileza de um amigo que com a sua intervenção conseguiu organizar a publicação do livro.

Por outro lado, se tivesse podido fazer a publicação por minha conta, gostaria de lhe ter enviado antes o manuscrito para exame. Mas receando ver desaparecer uma ocasião favorável, apressei-me a consentir na publicação que me era proposta. Só agora me é possível dirigir-me a V. para lhe pedir que me diga se o meu estudo conseguiu compreender e exprimir o conceito exato do autor!

Peço-lhe, Senhor, que aceite a expressão do meu maior respeito e creia-me seu dedicadísssimo.

Resposta de Karl Marx a Carlo Cafiero, 29 de julho de 1879 (Maitland Park Road, Londres)

Caro Cidadão

Os meus mais sinceros agradecimentos pelos 2 exemplares do seu trabalho! Recebi há pouco tempo dois trabalhos idênticos, um escrito em sérvio, o outro em inglês (publicado nos Estados Unidos), mas pecam tanto um como o outro porque querendo dar um resumo sucinto e popular do Capital, se ligaram ao mesmo tempo demasiado pedantemente a forma científica da elaboração. Parece-me que desta maneira eles falham mais ou menos o no objetivo principal, o de impressionar o público, ao qual os resumos são destinados. Eis a grande superioridade do seu trabalho!

Quanto ao conceito da coisa, não parece que me engane ao atribuir às considerações expostas no seu prefácio uma lacuna aparente, a saber a prova que as condições materiais necessárias à emancipação do proletariado são de uma maneira espontânea engendradas pela marcha da produção capitalista (e da luta de classes que chega em última instância à revolução social. O que distingue o socialismo crítico e revolucionário dos seus predecessores, é em minha opinião precisamente esta base materialista. Ela mostra que a certo grau de desenvolvimento histórico o animal havia de se transformar em homem).

Quanto ao resto, sou da sua opinião — se bem interpretei o seu prefácio — que não é preciso sobrecarregar o espírito das pessoas que nos propomos educar. Nada o impede de voltar à carga em tempo oportuno para fazer ressaltar ainda mais esta base materialista do Capital.

Renovando os meus agradecimentos, sou seu muito dedicado.

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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