Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Poder Relativo

Em 29 de setembro de 1908, o Brasil perdia seu maior escritor de todos os tempos. Abaixo, publicamos crônica em que zomba da vaidade mesquinha dos políticos profissionais do Império.

O escritor Machado de Assis - Reprodução
O escritor Machado de Assis - Reprodução

Como é possível que hoje, amanhã ou depois, tornem a falar em crise ministerial, venho sugerir aos amigos um pequeno obséqui. Refiro-me à inclusão de meu nome nas listas de ministérios, que é de costume publicar anonimamente, com endereço ao imperador.

Há de parecer esquisito que eu, até aqui pacato, solicite uma fineza destas que trescala à pura ambição. Explico-me com duas palavras e deixo de lado outras duas que também podiam ter muito valor, mas que não são a causa de meu pedido.

Na verdade, eu podia comparar a ambição às flores, que primeiro abotoam e depois desabrocham; podia dizer que, até aqui, andava abotoado. Por outro lado, se a ambição é como as flores, por que não será como as batatas, que são comida de toda a gente? E também eu não sou gente? Não sou filho de Deus? Nos tempos de carestia, a ambição chega a poucos, César1 ou Sila2 ? Mas nos períodos de abundância estende-se a todos, a Balbino3 e Maximino4. Façam de conta que sou Balbino.

Mas não quero dar nenhuma dessas razões que não são as verdadeiras causas do meu pedido. Vou ser franco, vou abrir a minha alma ao sol de nossa bela América.

A primeira coisa é toda subjetiva; é para ter o gosto de reter o meu nome impresso, entre outros seis, para ministro de Estado. Ministro de quê? De qualquer coisa: contanto que o meu nome figure, importa pouca a designação. Ainda que fosse de verdade, eu não faria questão de pastas, quanto mais não sendo. Quero só o gosto; é só para ler de manhã, sete ou oito vezes, e andar com a folha no bolso, tirá-la de quando em quando, e ler para mim, e saborear comigo o prazer de ver o meu nome designado para governar.

Agora a segunda coisa, que é menos recôndita. Tenho alguns parentes, vizinhos e amigos, uns na corte e outros no interior, e desejava que eles lessem o meu nome nas listas ministeriais, pela importância que isto me daria. Creia o leitor que só a presença do nome na lista me faria muito bem. Faz-se sempre bom juízo de um homem lembrado, em papéis públicos, para ocupar um lugar nos conselhos da coroa, e a influência da gente cresce. Eu, por exemplo, que nunca alcancei dar certa expressão ao meu estilo, pode ser que a tivesse daí em diante; expressão no estilo e olhos azuis na casa. Tudo isso por uma lista anônima assinada – Um brasileiro ou a A Pátria.

Não me digam que posso fazer eu mesmo a coisa e mandá-la imprimir, como se fosse outra pessoa. Pensam que não me lembrei disso? Lembrei-me; mas recuei diante de uma dificuldade grave.

Compreende-se que uma coisa destas só pode ser arranjada em segredo, para não perder o merecimento da lembrança. Realmente, sendo a lembrança do próprio lembrado, lá se vai todo o efeito, para ficar em segredo, era preciso antes de tudo disfarçar a letra, coisa que nunca pude alcançar, e, se uma só pessoa descobrisse a história e divulgasse a notícia, estava eu perdido. Perdido é um modo de falar. Ninguém se perde neste mundo nem Balbino, nem Maximino.

Eia, venha de lá esse obséquio! Que diabo, cusata pouco e rende muito porque a gratidão de um coração honesto é moeda preciosíssima. Mas pode render ainda mais. Sim, suponhamos, não digo que aconteça assim mesmo; mas suponhamos que o imperador, ao ler o meu nome, diga consigo que bem podia experimentar os meus talentos políticos e administrativos e inclua o meu nome no novo gabinete. Pelo amor de Deus, não me atribuam a afirmação de um tal caso; digo só que pode acontecer. E pergunto, dado que assim seja, senão é melhor ter no ministério um amigo, antes do que um inimigo ou um indiferente?

Não cobiço tanto; contento-me com ser lembrado. Terei sido ministro relativamente. Há muitos anos, ouvi uma comédia, em que um furriel convidava a outro furriel para beber champagne.

– Champagne! exclamou o convidado. Pois tu já bebeste alguma vez champagne?

– Tenho bebido… relativamente. Ouço dizer ao capitão que o major costuma bebê-lo em casa do coronel.

Não peço outra coisa; um cálice de poder relativo.

20/ abr./1885

In: ASSIS, Machado de. Crônicas escolhidas de Machado de Assis. Coleção Folha – Não dá pra não ler. São Paulo: Ática, 1994, pág. 60-62


Notas do autor

1 Júlio César (100-44 a. C.), líder militar e político romando na era de transição da República para o Império.

2 Lúcio Cornélio Sila (138-78 a.C), ditador da República romana.

3 Celio Balbino (178-238 d. C), co-imperador de Roma por um curto período, durante a chamada era da Anarquia Militar que duraria cinco décadas, pelas quais passariam mais de 26 imperadores..

4 Maximino Trácio (173-238), primeiro imperador bárbaro de Roma, que inaugurou a era da Anarquia Militar.

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Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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