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Greves no futebol uruguaio: Poucas, mas com grande impacto

Há alguns dias, os jogadores uruguaios paralisaram suas atividades para pressionar AUF a não estender o contrato de cessão dos direitos de transmissão.

Há alguns dias, os jogadores uruguaios paralisaram suas atividades para pressionar Associação Uruguaia de Futebol (AUF) a não estender o contrato de cessão dos direitos de transmissão do futebol local até 2032. O movimento que conta com centenas de adeptos ocorre por fora dos sindicatos tradicionais e retoma uma tradição histórica de combate dos atletas por seus direitos. Abaixo, traduzimos uma reportagem do site Ovación sobre as principais greves futebolísticas já ocorridas em solo uruguaio.

Greves no futebol uruguaio: Poucas, mas com grande impacto

As greves dos futebolistas uruguaios não foram muitas, mas em cada caso e por distintas razões, seja pela justiça da demanda ou porque se tratava da paralisação de uma atividade acompanhada por milhares de pessoas, provocaram um grande impacto.

A primeira organização sindical de futebolistas uruguaios nasceu em 22 de agosto de 1930, quando no Stadium Uruguay da rua Yacaré fundou-se a Sociedade Protetora de Jogadores. Suas reivindicações iam desde o passe livre às canchas até subsídios em caso de lesão, assim como alguma participação nas rendas dos clubes, em tempos em que a atividade era oficialmente amadora. O movimento durou dez dias e obteve poucos resultados. Um dos participantes era José María Pedreira, conhecido como “el Ñato”, de quem se conta pitorescas anedotas. Diz-se que nesse dia ele reivindicou descanso dominical para os futebolistas…

Em 27 de abril de 1938, constituiu-se a Agrupación de Jugadores Uruguayos Profesionales (AJUP), cujo presidente era o capitão José Nasazzi. Sua plataforma incluía alguns pontos de 1930, porém agregou o pedido de 20% dos passes para somas maiores a $ 2.000 e a liberdade de ação para os que disputassem menos de oito partidas por um clube numa temporada.

A AJUP deu à Associação Uruguaia de Futebol (AUF) um mês para atender as reivindicações. Ao não obter resposta, declarou greve no início de julho. Duas datas foram fixadas, mas ninguém concorreu. O conflito levantou-se depois da promessa da realização de uma partida em benefício dos futebolistas, que jamais ocorreu.

A situação dos jogadores profissionais durante anos foi muito dura, pois sua relação era correlata a uma escravidão moderna: suas vidas estavam ligadas a sua instituição, que podia transferi-los, suspendê-los, multá-los por supostos baixos rendimentos ou rescindir-lhes unilateralmente o contrato. Inclusive se um jogador ia para uma equipe do exterior, ao regressar ao país voltava a pertencer automaticamente a seu clube de origem.

1948-49

Estes antecedentes negativos pesavam quando em 6 de agosto de 1946 foi fundada a Mutual Uruguaya de Futbolers Profesionales (a singular castelhanização da palavra “footballers” foi trocada anos depois por “Futbolistas”), numa assembleia realizada na sede do Círculo de Periodistas Deportivos, então localizada em Pocitos.

Suas velhas exigências só encontraram o silêncio dos dirigentes, que nem sequer reconheceram a nova agremiação. Por isso, numa nova assembleia, celebrada em 14 de outubro de 1948, na antiga sede da Asociación Española, na rua Paraguay, e com a presença de quase 500 futebolistas, voto-se por unanimidade o começo da greve. As principais cabeças do movimento eram Enrique Castro, presidente da Mutual e jogador do Nacional, e Obdulio Varela, do Peñarol, líder carismático.

Para o final de semana seguinte, a AUF fixou a data do Campeonato Uruguaio, mas não isso não ocorreu. E mais: o torneio ficou inconcluso para sempre. As tentativas de mediação abundaram, inclusive a nível político, mas a intransigência dos clubes impediu o acordo: exigiam o fim da greve para então negociar. Danubio propôs na Junta Dirigente da AUF formar uma comissão para negociar com a Mutual: o restante das equipes negou a proposta e inclusive o representante do Rampla qualificou essa moção de “monstruosa”.


Obdulio Varela e dois companheiros pedem colaborações em 18 de julho de 1948

Os grevistas receberam o apoio majoritário da imprensa e evidentemente dos torcedores. Para poder se sustentar economicamente começaram a realizar partidas amistosas entre equipes chamada “Montevideo e Interior”, “Rubios y morochos”, “Rivera y Oribe”, porque os nomes e as camisetas dos clubes oficiais estavam vetados. Inclusive não dispuseram dos recintos oficiais e tiveram que ir nos campos de bairro, como o de Canillitas em Villa Española o o da Liga Palermo. Não se cobrava entrada, mas os integrantes da Mutual pasavam entre o público latas de erva vazias solicitando colaborações.

Em 24 de outubro, por exemplo, 9 000 pessoas compareceram ao campo do For Ever, na avenida Lezica, para ver a partida entre “Uruguayos” contra “Extranjeros”. A primeira equipe, que ganhou de 3 a 0, levava uma inscrição publicitária da loja El Mago em sua camiseta. Várias figuras, inclusive alguns futuros campeões no Maracanã, jogaram aquele dia: Máspoli, Tejera, Obdulio, Gambetta, Luis Ernesto Castro, Walter Gómez, Cantou, Schiaffino, Atilio García, Ernesto Vidal…

No começo de 1949 foi disputado um Sul-Americano no Brasil. Apesar da greve, a AUF decidiu concorrer com uma equipe formada por juvenis, algum homem do interior e jogadores da primeira divisão que entendiam que “a honra de defender a Celeste” estava por cima da greve. Uruguai terminou em sexto e foi goleado pelo Brasil por 5ª 1. Entre os fura-greves estava Matías González, outro futuro campeão do mundo. É conhecida a história de como Obdulio Varela convenceu seus companheiros a perdoarem González para que este pudesse jogar o Mundial.

Em abril de 1949, avançou-se para uma solução, com um papel especial do presidente da AUF, César Batlle Pacheco (filho de Batlle y Ordóñez e primo de Luis Batlle, então presidente da República). Os clubes aceitaram iniciar uma negociação mas somente através de figuras secundárias de ambas as partes. Depois de sete meses de greve, a Junta aceitou as demandas dos futebolistas. Outra assembleia da Mutual, que culminou na madrugada de 4 de maio, aprovou o pactuado e suspendeu o conflito.

Numerosas reivindicações foram atendidas. Entre elas, o 10% dos passes para os jogadores, a obrigatoriedade de oferecer contrato ou liberdade de ação aos menores de 21 anos, e especialmente aboliram-se todas as normas ou costumes que mantinha o total controle dos clubes sobre seus jogadores. Imediatamente, voltaram aos treinamentos e no começo de junho iniciou-se a temporada.

Os ecos da disputa estenderam-se no tempo. Obdulio, considerado a “cabeça” da greve pelos dirigentes, esteve a ponto de ser transferido ao exterior pelo Peñarol como represália. Ficou no país e fez parte do Maracanazo, uma façanha que também é explicada pelo forte sentimento de unidade nascido daquela luta.

1971

Em outubro de 1971, a Mutual iniciou outro conflito, em resposta aos crescentes atrasos salariais que sofriam os futebolistas. Como protesto inicial, fizeram paralisações de um minuto em cada partida, interrompendo o jogo; depois foram de dois minutos, até finalmente declarou-se em “paralisação por tempo indeterminado” em 5 de novembro. Como seus colegas argentinos também estavam em greve, organizou-se um amistoso internacional para reunir fundos. A AUF bloqueou o uso dos campos oficiais. “Jogamos em qualquer lado, na Aduana de Oribe, no calçadão, nos canteiros do Parque Rodó, queremos corresponder à torcida que realmente merece qualquer sacrifício nosso”, disse um dirigente da Mutual não-identificado a La Mañana. O líder dos Agremiados Argentinos, o Pato Pastoriza, anunciou a El Gráfico: “Vamos jogar nem que seja no meio da avenida 18 de Julho”. O campo escolhido foi o Centro Social y Deportivo Paso de la Arena, em Luis Batlle Berres y Tomkinson. Ali as estrelas em conflito disputaram em 14 de novembro a “Copa dos Direitos Humanos”. Além disso, transmitiu-se ao vivo pela televisão. A equipe uruguaia era integrada por Manga; Guarroz, Jauregui, Matosas, Caetano; Lamas, Maneiro; Cubilla, Bertocchi, Díaz e Morales. Entre outros, logo entrou Ermindo Onega. Entre os argentinos, que ganharam por 3 a 1, apresentaram-se os famosos Heredia, Basile, Pastoriza, Ayala, Daniel Onega, Carlos Bianchi e Pinino Más.

Durante duas semanas não houve partidas pelo Campeonato Uruguaio, ainda que a Seleção pode jogar um amistoso no Chile (que perdeu feio: 5 a 0). A AUF vivia uma crise própria, pois se reclamava maior celeridade de ação de seu órgão principal, a Junta Dirigente. Quando completou-se uma semana da greve, o governo de Jorge Pacheco Areco intimou a AUF a retomar a atividade e esteve sobrevoando a possibilidade de uma intervenção estatal no futebol.

Para facilitar a solução, a Junta Dirigente aprovou um tipo de auto-eliminação, outorgando plenos poderes a emissários neutros. Estes negociaram vários dias com os jogadores – encabeçados por Luis Cubilla, Roberto Matosas e Hamlet Tabárez- na casa do dirigente Eduardo Rocca Couture e na do jornalista Jorge Da Silveira, mediador a pedido da Mutual, até alcançar o acordo. A Mutual conseguiu o compromisso de que os jogadores que não recebesse seu salário até o dia 10 de cada mês poderiam apresentar sua reclamação na AUF e em caso de atraso por vários meses exigir o passe livre. Também convencionou-se que os clubes não poderiam começar a temporada seguinte sem saldar suas dívidas.

1992

O conflito de 1992 paralisou o futebol durante um mês, mas sua origem e seu pano de fundo foram muito distintos dos anteriores. Em particular, porque esteve vinculada ao crescente poder do empresário Paco Casal. O detonante foi a morte de um torcedor, Wellington Castro, atingido pelo cavalo de um policial nos arredores de La Bombonera, logo depois dos graves incidentes da partida Basáñez x Villa Teresa de 19 de setembro desse ano pela segunda divisão uruguaia. Além disso, houve feridos por bala. Os dois clubes receberam uma pesada sanção: um ano de suspensão. Isso significava para Basáñez –estreitamente vinculado a Casal- a impossibilidade de ascender à primeira divisão, enquanto para Villa Teresa o rebaixamento. Em 8 de outubro, a Mutual (presidida então por Fernando Tajo Silva) aprovou por 192 votos contra 45 uma greve em apoio aos atletas dos clubes sancionados, com o argumento de que os clubes e seus jogadores não tinham responsabilidade pelos incidentes de fora do estádio. Todos os torneios locais foram paralisados e inclusive o Nacional não pôde continuar a disputa da Supercopa sul-americana. Casal tentou esclarecer numa coletiva de imprensa que “de nenhuma maneira” havia pressionado os jogadores para que parassem, como denunciavam os dirigentes.

Depois de um mês e da mediação do sacerdote (e ex-jogador profissional do Nacional e do Danubio) Ernesto Popelka, a greve terminou em 8 de novembro, quando se reduziu a sanção aos clubes e foram acordadas compensações econômicas para os jogadores. Basáñez terminou subindo na temporada seguinte.

Fonte: https://www.ovaciondigital.com.uy/futbol/huelgas-pocas-gran-impacto.html

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Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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