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O último ataque terrorista da NRA em território dos EUA

A permissiva legislação de armas estadunidense é responsável por gerar um país fortemente armado.

Flores na cidade de Las Vegas em homenagem aos mortos de massacre - The Associated Press
Flores na cidade de Las Vegas em homenagem aos mortos de massacre - The Associated Press

Chegou o momento de começar a ver os grandes tiroteios em massa que se converteram em parte do novo tecido cotidiano da vida nos Estados Unidos como ataques terroristas contra o povo dos Estados Unidos realizados pela plutocracia da nação através de uma de suas organizações direitistas chave na hora de financiar, fazer lobby e estruturar suas campanhas eleitorais: a Associação Nacional do Rifle (NRA).

Conhecemos o protocolo. Os cenários mudam cada vez – um campus de uma universidade privada de elite na Virgínia, uma sala de conferências pública em uma universidade no norte de Illinois, uma sala de cinema em Aurora, Colorado, uma escola primária em Connecticut, uma igreja negra em Charleston, Carolina do Sul, um clube gay de dança em Orlando, e agora um concerto ao ar livre em Las Vegas (onde ocorreu o maior tiroteio de massas causado por um só homem armado até a data) – mas a história é sempre a mesma.

Um homem psicopata demente acumula munições e armas, as quais tem acesso graças a leis de armas permissivas aprovadas pelos governos federal e estatal graças as grandes doações da NRA. O atirador utiliza suas armas de destruição massiva patrocinadas pela NRA e faz estragos assassinos em inocentes que são um alvo fácil. O incidente em geral inclui a morte do atirador (as matanças de Aurora e Charleston são exceções), que usualmente se suicida. As autoridades entrevistam membros e amigos da família do atirador. A polícia local e federal registra sua residência, seus pertences, equipamentos informáticos, histórico na web, e determina seus motivos, como planejou realizar a operação, onde conseguiu suas armas, se tinha algum parceiro, etc.

Depois que a notícia da matança inunda as ondas de rádio e internet, os políticos respaldados pela NRA resistem à ideia moral elementar de que o recente massacre armado – o último exemplo espetacular e concentrado de uma carnificina contínua em curso com armas que custa 33.000 vidas estadunidenses por ano – nos obriga a revisar nossas leis de armas absurdamente permissivas. É o momento, segundo os políticos pró-armas, da reza, do luto e do consolo, não de “politizar uma grande tragédia”. Culpam da carnificina a pura maldade e a loucura – o lado pecaminoso e obscuro da natureza humana. Omitem a observação básica de que o assassino não poderia causar um número de vítimas tão terrível sem as armas e as políticas propostas pelos fabricantes de armas e sua NRA. Para isso lhes paga o lobby do armamento.

A NRA, por certo, sempre pressionou para tornar possível que Paddock equipasse seus fuzis com silenciadores. Com eles teria matado centenas de pessoas.

O perverso e cruel nacionalista branco na Casa Branca (que ameaçou com um genocídio termonuclear na península coreana) atribuiu de imediato o massacre de Las Vegas à “pura maldade”. Seu secretário de imprensa disse que era “muito cedo” para avaliar as causas.

“O que mata gente é gente má, não armas más”, é a linha. “Não se pode legislar contra o mal”, dizem os políticos “conservadores”.

Enquanto isso, nos é pedido uma vez mais para crer que o desejo dos fundadores dos Estados Unidos de manter milícias estatais treinadas para manter os casacas vermelhas britânicos fora do território da nova República no final do século XVIII faz com que tratar de impedir que monstros como Cho Seung-Hui (Virginia Tech), Steven Kazmierczak (Universidade do Norte de Illinois), James Holmes (Aurora, Colorado), Adam Lanza (Sandy Hook Elementary School), Omar Mateen (Orlando), e agora Stephen Paddock (Las Vegas) tenham acesso a armas automáticas e munições de alto poder capazes de matar crianças, estudantes universitários, cinéfilos, dançarinos e participantes de concerto em massa seja uma injusta violação dos direitos constitucionais dos cidadãos nos EUA do século XXI.

Os progressistas e os meios de comunicação decentes exigem restrições elementares como proibir a venda de armas de guerra nos Estados Unidos ou simplesmente o requisito de estritos controles dos antecedentes dos possíveis compradores de armas.

Os defensores do controle de armas argumentam que outras nações ricas não experimentam as astronômicas taxas de violência armada e assassinatos que afetam os Estados Unidos graças em parte às muito diferentes e civilizadas leis de armas em vigor.

Mas tudo em vão. A NRA sempre ganha. O aumento momentâneo da repulsa popular interna contra a loucura das armas nos Estados Unidos cede lugar à resignação habitual. Voltemos a centrar-nos nas vidas que se acabam de perder, contando os dias até o próximo tiroteio massivo que todo o mundo sabe que ocorrerá.

Enquanto isso, a violência armada, a uma escala mais limitada, segue cobrando 93 vidas todos os dias nos EUA – uma nação com mais armas em circulação que pessoas adultas. Os tiroteios em massa, modestamente definidos como a morte de quatro pessoas além do assassino são absurdamente correntes nos EUA como The Guardian informa:

“1.516 tiroteios massivos em 1.735 dias: O ataque em um festival de música country em Las Vegas que deixou ao menos 58 pessoas mortas é o tiroteio mais mortífero na história moderna dos Estados Unidos – mas houve outros seis tiroteios massivos nos Estados Unidos só a semana passada. Nenhuma outra nação desenvolvida se aproxima das taxas de violência armada nos EUA. Estima-se que os estadunidenses possuem cerca de 265 milhões de pistolas, mais de uma arma por cada adulto. Os dados compilados pelo Observatório da Violência Armada revelam um pedágio humano impactante: há um tiroteio massivo – definido como quatro ou mais pessoas tiroteadas em um incidente, sem incluir o atirador – nove de cada 10 dias em média”.

Leia isto de novo: atualmente há um tiroteio massivo nos EUA 9 de cada 10 dias em média.

As vendas de armas tendem a crescer depois das grandes matanças. Os proprietários de armas se abastecem em previsão de novas restrições que nunca chegam. As pessoas se convertem em novos proprietários de armas em resposta aos perigos que agora percebem maiores que antes. O Manicômio Armado (como descreveu os EUA Greg Palast) que são os EUA do século XXI que se armam e enlouquecem cada vez mais.

Sou consciente de que a definição formal de terrorismo implica o uso da violência para alcançar um objetivo político – um meio implacável para alcançar fins políticos. O atirador tem que ser um membro de uma organização terrorista – neste caso, segundo minha analise, a NRA – e estar de acordo com seu programa? Não, não quando se trata de facilitar os objetivos políticos da NRA. Tudo o que se requer é que mate muita gente. A NRA seguramente sabe que dispõe facilmente de recrutas, a espera de deixar sua pegada mortal com o armamento de guerra que é tão absurdamente fácil de conseguir em uma nação em armas.

Tudo está previsto estatisticamente, como a NRA sabe. Não se pode ter milhares e milhares de psicopatas dementes e milhões de armas automáticas de guerra circulando simultaneamente em uma sociedade que rende culto à violência, altamente militarizada, e com videojogos brutais como os Estados Unidos sem que se produzam terríveis matanças massivas com armas cada poucos anos. Para dizer a verdade, o surpreendente é que não haja mais tiroteios massivos espetaculares. E, por suposto, os tiroteios massivos menores são agora algo cotidiano, como The Guardian nos disse.

A NRA não tem de fato que recrutar ativamente ninguém. Só tem que limitar-se a assegurar que os assassinos possam obter as armas de fogo e a munição que necessitam através da chamada mão invisível do mercado.

Qual é sua agenda, seu objetivo político? A venda de armas é parte dela, mas o programa real vai além de uma mera intenção comercial imediata. Um objetivo mais importante relacionado é criar um clima de medo e violência tão geral que as pessoas tenham medo de somarem-se aos movimentos e protestos pela democracia, a justiça social, a paz, a sanidade ecológica, e os direitos civis e humanos – o bem comum. O objetivo político é promover uma imagem da natureza humana e o mal tão vil e assustador que as pessoas percam toda esperança em sua espécie e a aspiração de unirem-se a seus companheiros de trabalho e concidadãos para exigir algo melhor que um miserável mundo de baixos salários, deserto socioeconômico e desigualdade racial, desastre ambiental, plutocracia extrema, sexismo desenfreado, racismo virulento, e guerras sem fim. A ideia é transformar a maior quantidade possível de famílias em unidades de autodefesa e sobrevivência atomizadas – para criar uma nação de Robinson Crusoes armados, cada um preso em sua própria ilha.

Tudo isso está intimamente relacionado com a visão militante do mundo capitalista que se afiançou no pós-New Deal americano faz mais de quatro décadas. Está tóxica cosmovisão burguesa tardia buscar matar de fome a “mão esquerda do estado” libertadora e igualitária (Pierre Bourdieu) – aqueles setores do estado que proporcionam proteção, segurança e inclusão da maioria pobre e trabalhadora mediante a distribuição parcial da riqueza e o poder para as pessoas de baixo – ao mesmo tempo em que fortalece a “mão direita do estado”, repressiva e reacionária: os setores do estado que concentram a riqueza e o poder para cima enquanto castiga os pobres, oprime e excluiu as minorias, fazendo guerra permanente, e reprimindo a maioria da população em seu conjunto.

Quão aberrantemente adequado é que Stephen Paddock – um fã de pôquer multimilionário e ex-auditor da Lockheed Martin – estabelecesse um novo recorde de mortes causadas por um só atirador em Las Vegas, capital mundial do jogo. Toda está loucura direitista é o que a arquicapitalista e militantemente imperial “sociedade cassino” forjou. A visão do NRA de uma nação onde todos os lares estão armados até os dentes com as últimas armas automáticas de guerra é quiçá o epítome último da visão neoliberal-capitalista do individualismo puro de todos contra todos. A consequência lógica desta agenda de “livre mercado” – defendida por toda a classe dominante dos Estados Unidos, de Goldman Sachs aos infames irmãos Koch – é um vasto estado policial militarizado: o caos hobbesiano que conduz ao poder do estado autoritário em nome da “lei e ordem”.

Não se trata só da classe, por suposto. As pessoas que estão mais reprimidas, torturadas, encarceradas, e criminalmente marcadas por este estado policial autoritário e pré-fascista (se não o é já) são de maneira muito desproporcional os negros, os latinos e os indígenas americanos. Os assassinos em massa de nosso tempo quase nunca pertencem a esses grupos raciais, porque os tiroteios massivos realizam normalmente homens brancos loucos e malvados, que se convertem em pretexto para o fortalecimento do estado policial, que está fundamentalmente comprometido com – e em grande medida funda suas raízes em – o projeto de supremacia branca que quer marginar os negros, latinos e indígenas americanos em seus nichos geográficos e socioeconômicos. A NRA, nunca se deve esquecer, quer antes de tudo armas só para pessoas brancas. E inclusive se o NRA gosta de vender pequenas armas de defesa pessoal a suas filiadas femininas brancas, também se espera que as mulheres sejam submissas ao poder pseudo-fálico do grande rifle americano.

A NRA sabe o que está fazendo, não há dúvidas. O massacre de Las Vegas é só o último de uma larga série de ataques terroristas em solo estadunidense do lobby das armas. Há que esperar que ocorram mais na medida em que as mudanças demográficas radicais e nas relações de gênero se entrecruzam como o declive do capitalismo, a globalização e o deslocamento técnico que empurrem mais homens brancos dos Estados Unidos (a maioria dos quais carecem da fortuna pessoal do lunático paddock) além dos surtos psicóticos.

Foi mencionado que se a NRA tivesse alcançado o que queria, Stephen Passock teria podido equipar-se com silenciadores e, portanto, teria sido capaz de matar, quem sabe, quiçá 200, não só 59 pessoas, nos cassinos de Las Vegas? Sim, mas vale a pena repeti-lo. Quando sofrerá a NRA um destes terríveis incidentes em um de seus coquetéis ou convenções?

Enquanto isso, como era de esperar, a “direita alternativa” proto-fascista (muitos de cujos membros são mebros da NRA) tenta difundir que Paddock era um “liberal anti-Trump”, inclusive um “militante Antifa”. Por suposto: as vítimas eram parte da cultura do jogo, fãs da música branca country e, portanto, o assassino só podia ser um “malvado esquerdista”. A extrema direita sempre está buscando um incêndio do Reichstag. E também, a sua maneira a direita nacionalista branca da administração Trump.

A decadência dos Estados Unidos pode ser tão terrível quanto sua ascensão. Cuidado atrás de você.

(Tradução de Marcelo Martino da versão em espanhol disponível no site Sin Permiso)

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Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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