Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

As origens e os significados do stalinismo

O artigo oferece inovador ponto de vista sobre a ascensão do stalinismo, a coletivização forçada no campo e o papel dos “kulaks” no debate político do período.

"Querido Stalin é a felicidade das pessoas", 1949 Joseph Vissarionovich Stalin.
"Querido Stalin é a felicidade das pessoas", 1949 Joseph Vissarionovich Stalin.

Quando o Segundo Congresso dos Soviets foi convocado, em 25 de Outubro de 1917, 505 dos 670 delegados chegaram comprometidos a transferir “todo o poder aos soviets”1. Estes deputados representavam por volta de 402 soviets locais de operários e soldados o que, incluindo as famílias, significava dezenas de milhões de pessoas. Vinte anos depois, o regime stalinista já havia aprisionado alguns milhões de prisioneiros políticos, sendo Stálin pessoalmente responsável pela ordem de prisão de algumas centenas de milhares, baseado em cotas a priori. O regime executara, entre 1937 e 1938, por volta de 680 mil pessoas. Intelectuais anticomunistas, aliás, fizeram carreira acadêmica buscando conectar 1917 e 1937, ou seja, ligando a existência da revolução ao sistema repressivo stalinista como seu resultado inevitável. Socialistas sempre recusaram esta afirmação, mas é preciso explicar a tragédia da Revolução Russa e como foi possível a emergência do regime stalinista.

Com a abertura dos arquivos, não precisamos mais especular a respeito do alcance e da brutalidade do regime stalinista. Este guardou registros detalhados das prisões, da repressão e das iniciativas populares contra estas políticas. Gostaria de sumarizar alguns dos eventos cruciais e os pontos de virada no desenvolvimento do stalinismo à luz das pesquisas que se valeram destes documentos. Gostaria ainda, e com algum senso de proporção, de reexaminar criticamente as controvérsias teóricas sobre a natureza do regime stalinista.

Para começar, lembro que devido ao atraso econômico da Rússia, a estratégia bolchevique da revolução se apoiava em uma revolta europeia. No Soviet de Petrogrado, em 25 de outubro de 1917, Lenin argumentou: “Seremos ajudados pelo movimento mundial da classe trabalhadora que já começa a se desenvolver na Itália, Grã-Bretanha e Alemanha”2. Esta perspectiva era compartilhada por todo dirigente bolchevique e repetida centenas de vezes, mesmo por Stálin em seu Fundamentos do Leninismo (1924): “Podemos vencer e assegurar a vitória definitiva do socialismo em um único país sem os esforços combinados de proletários dos diversos países avançados? Certamente não.” Sete meses depois, este argumento seria revisado: “Formalmente, a vitória da revolução em um país foi considerada impossível. Agora este ponto de vista não mais se encaixa nos fatos”3.

O prognóstico da Revolução Russa como elo de uma cadeia de revoltas europeias não se realizou. Por um tempo, em 1918, conselhos operários emergiram por toda a chamada Europa Central. Não cabe discutir estas revoltas aqui, mas para uma abordagem internacional da tragédia da Revolução Russa é fundamental lembrar da revolução alemã de 1918, das ocupações de fábrica na Itália em 1920 e assim por diante.

Também é preciso lembrar que os bolcheviques herdaram uma catástrofe econômica de grandes proporções. A triste realidade foi que, ao invés dos trabalhadores europeus conseguirem auxiliar a Revolução Russa, foram as classes dominantes europeias que conseguiram auxiliar a contrarrevolução, tanto por meio de intervenção militar direta, como por meio da ajuda aos exércitos brancos. Ao invés de guerra civil, o correto seria chamar a devastação de 1918 e 1920 por guerra imperialista, já que sem a ajuda externa as mirradas forças brancas seriam incapazes de construir um exército. Quando as forças brancas antissoviéticas se aproximaram de Rostov, na primavera de 1918, estas eram essencialmente um corpo militar profissional sem um exército: dois terços dos 3.685 homens eram oficiais, incluindo 36 generais e 200 coronéis 4. Por volta do final do verão de 1918, mais de 150 mil soldados estrangeiros estavam na Rússia oferecendo um apoio crucial às posições brancas em todo o front norte, Ucrânia e no Cáucaso. Cargueiros de aliados aos brancos incluíam centenas de milhares de rifles, mil peças de artilharia com milhões de morteiros, sete mil metralhadoras, duzentos aviões e uma centena de tanques. Muito deste apoio inicial vinha da Grã-Bretanha e França, mas o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Robert Lansing, convencera Woodrow Wilson a injetar secretamente dezenas de milhões de dólares nos exércitos brancos em um esforço por estabelecer um “governo russo estável” por meio de uma “ditadura militar”5.

Este artigo faz parte da 6ª edição da Revista Movimento. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

Arte de Adria Meira sobre El Lissitzky

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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