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Estendendo o tapete vermelho ao império dos Estados Unidos?

Khury Petersen-Smith analisa os efeitos da visita de Donald Trump à Ásia.

Donald Trump e Melania Trump desembarcam na Coréia do Sul - Staff Sgt. Alex Echols III | flickr
Donald Trump e Melania Trump desembarcam na Coréia do Sul - Staff Sgt. Alex Echols III | flickr

Já no final de sua viagem de onze dias pela Ásia e região do Pacífico, Donald Trump foi ao Twitter insultar o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un. Afora esse momento, poder-se-ia quase ouvir os suspiros de alívio – entre os responsáveis pelo planejamento da viagem, tanto da Casa Branca, quanto dos cinco países visitados – por ter passado praticamente sem nenhum incidente.

Entre a inabilidade de Trump em agir de forma apropriada mesmo no próprio país que governa, isolando-se dos estrangeiros, e as relações cada vez mais apocalípticas de sua administração com a Península Coreana no período antecedente à viagem, o império dos Estados Unidos, seus aliados e apoiadores na mídia norte-americana e em outros lugares, tiveram razões de sobra para se preocuparem em manter a viagem diplomática nos eixos.

Sem dúvida a escolha dos responsáveis pelo planejamento da viagem por abrir mão da visita de Trump à Zona Desmilitarizada (ZDC) entre as Coreias do Norte e do Sul foi um sinal desse esforço. Uma visita como essa teria sido uma oportunidade para Trump ameaçar diretamente a Coreia do Norte – como fez o Vice-presidente Mike Pence, quando foi à ZDC e declarou que “a era da paciência estratégica acabou”, sinalizando uma postura mais agressiva contra aquele regime.

Contudo, as fotos oportunas de Trump tiradas em Tóquio, Seul, Pequim, Hanoi e Manila intencionam obscurecer o fato de que os Estados Unidos, bem como seus aliados na região, vêm realizando manobras políticas cujas consequências violentas já se evidenciam – e abrem caminho para mais.

O fato de que líderes da Ásia tenham estendido figurativa e literalmente o tapete vermelho a Trump, a despeito da contínua depreciação de Kim, chamado de “fogueteiro” – para não mencionar a discussão aberta referente à “destruição total” e “aniquilamento total” da Coreia do Norte empreendida pelo presidente, secretário de defesa e o embaixador dos Estados Unidos na ONU – fala por si.

Assim sendo, é aconselhável fazer um inventário do que os Estados Unidos e as outras forças na região têm dito e feito – bem como da situação da resistência a essas manobras.

Para além da retórica beligerante de Trump sobre a Coreia do Norte, os Estados Unidos deram uma série de passos de modo a tensionar a situação.

Para começar, as Forças Aéreas Norte-Americanas estão se preparando para colocar aviões com armas nucleares em posição de alerta 24 horas. Washington tem também articulado sanções mais pesadas contra a Coreia do Norte, realizado os exercícios rotineiros em conjunto com o exército da Coreia do Sul que simulam ataques à Coreia do Norte e enviado bombardeiros para sobrevoar a Península Coreana – tudo isso logo após o regime comandado por Kim ter realizado testes com misseis e armamento nuclear.

Os Estados Unidos e a Coreia do Sul levaram em frente a instalação de componentes do sistema de mísseis antibalísticos THAAD (sigla em inglês de Terminal de Defesa de Áreas de Alta Altitude) em Seongju, em setembro passado, mesmo com as críticas feitas pelo presidente liberal Moon Jae-in antes de ocupar o cargo – e apesar da suspensão temporária da implementação, conquistada graças aos protestos ao longo do verão.

Enquanto isso, as eleições no Japão no mês passado resultaram na vitória dos conservadores: o primeiro-ministro Shinzo Abe e seu Partido Liberal Democrata (PLD). Abe lançará mão da vitória a fim de tentar impor a revisão do Artigo 9 da Constituição Japonesa, a qual franquearia ao Japão aumentar sua capacidade de empreender ofensivas militares.

Feliz por comemorar com seus aliados durante sua estadia em Tóquio, Trump afirmou, referindo-se a Abe e aos mísseis da Coreia do Norte, “Ele os explodirá pelos ares assim que completar a compra com os Estados Unidos do enorme aparato militar”. Abe acrescentou que o Japão já compra muitas armas dos Estados Unidos.

Se houve o azedamento das relações formais entre Estados Unidos e as Filipinas sob o governo de Rodrigo Duterte, enquanto Barack Obama era presidente – com Duterte ameaçando mudar a orientação geopolítica do país dos Estados Unidos para sua rival, a China – Trump, por sua vez, encontrou em Manila uma recepção calorosa.

De fato, independentemente do atrito entre Obama e Duterte, os exércitos dos Estados Unidos e das Filipinas, junto com o da Austrália, continuaram a colaborar em operações e treinamentos conjuntossobretudo na ilha de Mindanau, a qual Duterte impôs a lei marcial.

Durante a visita, Trump reafirmou a apoio a Duterte, que massacrou milhares de filipinos por meio de violência policial sob o pretexto de “guerra às drogas”. Sobre essa campanha, uma transcrição vazada, publicada pelo Washington Post revelou que Trump teria parabenizado Duterte no início do ano pelo “incrível trabalho” realizado.

Se Trump está satisfeito com a presença militar dos Estados Unidos no Pacífico e com o fato de que aliados asiáticos estão buscando maior militarização em colaboração com os Estados Unidos, isso em muito se deve aos esforços da administração de Obama, que o antecedeu.

Com o lançamento do que chamou de “pivô para a Ásia”, a administração de Obama intentou reorientar a atenção do poder militar e político dos Estados Unidos para além do Oriente Médio e da Ásia Central, em direção ao Pacífico. Hillary Clinton, enquanto secretária de Estado de Obama, declarou “Esse é o século do Pacífico para a América”.

Além do deslocamento norte-americano de poder aéreo e naval em direção ao Pacífico e da expansão do já grande número de bases militares na região, Clinton controlou o que chamou de “diplomacia de posição avançada” para incrementar os vínculos políticos e econômicos com os Estados Unidos como um complemento à cooperação militar.

Trump reiterou a retórica da “América em primeiro” usada em sua campanha, enquanto participava do encontro da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) realizado no Vientã. “Não deixaremos mais ninguém levar vantagem sobre os Estados Unidos”, fanfarreou.

Enquanto Trump pronunciava essa visão bizarra – como se os Estados Unidos fossem uma economia subserviente, intimidada por acordos multilaterais – ministros de outros países presentes no encontro buscavam avançar na Parceria Transpacífico (TPP, sigla em inglês) sem os Estados Unidos, conforme muitos meios de comunicação descreveram.

A TPP – que visava reunir países do Pacífico num bloco econômico sem a China, baseado em provisões clandestinas e opressivas negociadas a portas fechadas – era para ser o modelo de acordo comercial da era Obama, mas teve seu destino selado por Trump, que recuou oficialmente dessa política no início deste ano.

Com grande alarde, dos encontros de negociação no Vietnã anunciaram um acordo sobre as partes fundamentais da TPP-menos-os-EUA, só para logo menos declararem que as negociações haviam falhado por conta da hesitação do Canadá em seguir em frente.

Tanto a disposição dos outros países em tentar buscar a TPP sem os Estados Unidos, quanto a inabilidade para cumpri-la naquele momento lançaram luz ao quadro complicado da região. Ironicamente, foi Xi Jinping, presidente da China, quem defendeu na APEC acordos comerciais multilaterais.

Na China, apesar de Trump ter incitado Xi a pressionar a Coreia do Norte a encerrar seu programa nuclear, os dois líderes tiveram uma visita em boa medida calorosa em Pequim. Em comemoração aos US$250 bilhões em acordos comerciais entre os dois países, Trump declarou que o desequilíbrio comercial entre eles era insustentável, mas que por isso “não culpa a China”.

Xi, recém-saído do congresso do Partido Comunista Chinês do último mês, no qual anunciou uma nova era do poder chinês, avança com a “iniciativa do Cinturão e da Rota” (ou OBOR, sigla em inglês para “One Belt, one road”, a nova rota da seda), que envolve um pacote completo de negociações econômicas interna e externa à região.

Em linhas gerais, o caminho para o crescimento da militarização – a qual os Estados Unidos e seus aliados buscaram por anos – continuará, é o que se pode dizer após a viagem de Trump. O mesmo se pode falar do crescimento do poder econômico e político da China, que seguirá apresentando desafios aos Estados Unidos e Japão.

Entretanto, faltam elementos na composição desse quadro. Um importante fator no cenário, que se torna iminente à medida que Trump reassegura apoio militar a seus aliados, é a atual capacidade militar.

Por exemplo, a Sétima Frota da Marinha, baseada em Yokosuka no Japão, bem como a área sob sua alçada, contabilizou uma série de colisões entre embarcações neste ano, duas das quais foram fatais.

Ainda que o comandante da frota, o Vice-almirante Joseph Aucoin, tenha sido removido do posto em agosto, logo após os incidentes, pareceu que as colisões foram o resultado de uma frota cuja equipe se esgarçava conforme a Marinha se empenhava em aumentar as atividades na região.

O sentimento resultante da baixa moral e do arrebatamento também veio à tona no caso do cruzador U.S.S. Shiloh, do qual o Capitão Adam M. Aycock foi dispensado do comando no final de agosto. Isso se deu após uma série de aferições por surveys – nos quais os marinheiros responderam anonimamente à questões – que revelaram condições repressivas e desespero generalizado, assim como intenções de suicídio.

Um marinheiro descreveu o Shiloh – o qual aparentemente Aycock conduzia como um tirano, punindo mesmo as menores infrações – como uma “prisão flutuante”. Embora a falta de direitos para a equipe de recrutas seja parte da natureza da vida militar, a tônica dos Estados Unidos de beligerância no Pacífico fez com que a pressão aumentasse.

Há também, contudo, sinais auspiciosos de resistência.

Participantes de protestos desafiaram Trump durante toda a viagem, desde o início no Havaí até o final nas Filipinas. Milhares se mobilizaram contra Trump na Coreia do Sul, mesmo enfrentando medidas tomadas pelo Estado para evitar protestos, como indeferimento de permissões de manifestações e bloqueios a áreas onde ativistas pudessem se reunir. Esses protestos se somaram àqueles que confrontaram a instalação do THAAD no começo do ano. E na ocasião que o Primeiro-ministro do Japão, Abe, tentou pela primeira vez alterar a constituição, desencadeou uma onda massiva de protestos em resposta.

Com perspectivas apontando para a crescente militarização na região – da parte de Washington e das capitais da Ásia – os desafios de construir uma solidariedade internacional e resistir permanecem urgentes.

Artigo originalmente publicado no portal socialistworker.org. Tradução de Flavia Brancalion para a Revista Movimento.

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