Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Hitler é filho de Lênin?

Fazer da história um destino inapelável é uma forma pouco sofisticada de desresponsabilizar os crimes.

Lenin em 1918. Crédito: Associated Press
Lenin em 1918. Crédito: Associated Press

Simon Montefiore é um curioso historiador tornado romancista, que se especializou na história russa e tem produzido biografias sobre os Romanov e sobre Stalin (“A Corte do Czar Vermelho”, publicado em Portugal). Mas, ao contrário do que manda o ofício do historiador, Montefiore exibe uma relação sentimental com os seus biografados, definindo-os por traços que não podem ser mais do que atribuições hipotéticas e subjectivas. Assim, o seu fascínio por Stalin leva-o a descrevê-lo como “enérgico e vaidoso” (p.23), “loquaz, sociável e um excelente cantor” (p.24) que “zumbia de energia sensitiva” (p.65), sendo um “político superinteligente e dotado” (p.24), para chegar a afirmar que “a base do poder de Stalin dentro do partido não era o medo: era o encanto” (p.64), o que a história parece contrariar.

Na vertigem dos cem anos da revolução de Outubro, o nosso romancista acrescentou a esta história-socialite uma outra filosofia, a da história-destino. Em artigo no New York Times, que merece certamente ser destacado no Observador, deu voz a uma ideia circulante e cómoda: “Sem Lênin não teria havido Hitler”. Ele explica-se: “Sem a revolução russa de 1917, Hitler teria acabado como um pintor de postais em algum das lojas onde começou. Sem Lênin, nada de Hitler – e o século XX tornar-se-ia inimaginável. De facto, mesmo a geografia da nossa imaginação se tornaria inimaginável.” É sempre uma aventura imaginar o inimaginável que a imaginação não consegue descrever. Mas Montefiore vai disparado e todo o século XX mudou na sua fantasia: “Mao, que recebeu uma grande ajuda soviética nos anos 1940, não teria conquistado a China, que talvez ainda fosse dirigida pela família de Chiang Kai-Chek. As inspirações que iluminaram as montanhas de Cuba e as selvas do Vietname nunca teriam acontecido. Não teria havido Guerra Fria.”

É melhor pararmos antes que nos diga que, sem Lênin, nunca teria havido uma cápsula a viajar até à Lua ou que Éder não teria marcado o golo da vitória no campeonato europeu. De facto, a curiosidade desta narrativa sobre o destino cósmico é que é estritamente instrumental e portanto ideológica: em vez de analisar os factos e os processos sociais e políticos, Montefiore quer atribuir culpas e ajustar contas e escolhe para isso atrabiliariamente os seus alvos. Ora, a falsidade de tais propósitos é grotesca: se o nazismo resulta da vontade de sectores importantes do capital alemão de destruírem os movimentos populares que o ameaçavam na Alemanha, e que foram apoiados pelo impacto da revolução em Petrogrado, isolar o nazismo como uma irritação anti-soviética é desculpá-lo ou, pior, ignorar que o mesmo sistema de acumulação de capital já tinha gerado a escravatura, o colonialismo e bastas ditaduras ocidentais. O capitalismo foi fascista sempre que precisou de o ser.

Assim, a história é sempre uma escolha: em todos os momentos, encontra bifurcações, alternativas possíveis que dependem da vontade dos actores sociais, da relação de forças e das estratégias seguidas. Fazer da história um destino inapelável é uma forma pouco sofisticada de desresponsabilizar os crimes, neste caso os de Hitler, para nem discutir a esfusiante narrativa sobre o século XX com a eternidade da família Chiang Kai-Chek ou com Fidel Castro a desaparecer na Sierra Maestra e os casinos de Baptista e da Mafia a prosperarem até aos dias de hoje.

O problema suplementar desta história fantasiosa é que nunca tem um princípio: se Hitler e Stalin são filhos de Lênin, este é filho de quem? Dos Romanov? De Marx? E Marx é filho de Hegel, Hegel é filho de Napoleão, este de Maria Antonieta, esta de Mazarino, este de Alexandre Dumas, este do iluminismo? Chegamos a Gengis Khan ou a Júlio César? A Cristo? Uma história ideológica é sempre uma mentira patética.

(Artigo publicado originalmente em blogues.publico.pt)

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

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