Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A esquerda volta a começar de novo

A capacidade de reinvenção do capitalismo é implacável. Uma alternativa de esquerda passa necessariamente pela crítica da economia capitalista.

Manifestantes protestam contra o presidente estadunidense Donald Trump em março deste ano -  KENA BETANCUR/AFP/GETTY IMAGES
Manifestantes protestam contra o presidente estadunidense Donald Trump em março deste ano - KENA BETANCUR/AFP/GETTY IMAGES

Há vinte anos, o otimismo em torno do desenvolvimento da internet – por parte do Exército estadunidense (ARPA/DARPA1) através de canais de comunicações controlados pelas empresas de telecomunicações estadunidenses -, era sobre o surgimento de um novo espaço público onde as ideias poderiam ser comunicadas livremente e a democracia floresceria. Os anos subsequentes viram uma mudança de orientação desde o demos até a aglomeração empresas-Estado desde onde provém o que é crescentemente um sistema profundamente exemplificador de controle social.

O conceito comercial de “escolha do consumidor” que agora conduz o desenvolvimento da internet emerge da improbabilidade economicista de que o capitalismo é uma resposta à demanda do consumidor. A lógica temporal disse que as pessoas não querem o que ainda não conhecem. O sistema ocidental que “informa” a seus objetivos comerciais se baseiam na coerção psicológica, chamada propaganda antes de que o termo se trasladasse para a política. Além de sobre matanças massivas, o século XX foi “sobre” a criação de sociedades de consumo.

Quando o ardente feminista e cínico profissional William Jefferson Weinstein (Clinton) utilizou pesquisas comerciais para sondar as profundidades da identidade estadunidense desatada por Ronald Reagan, criou um círculo vicioso em sua perseguição do poder. Ao fazer que o povo regurgitasse a tagarelice cínica que lhes haviam alimentado meses e anos antes para desenvolver seu “programa”, jogou o jogo comercial de criação de “demanda”. Caso isso não tenha ficado claro, a democracia e a coação psicológica surgem de premissas de lógica social separadas e distintas.

Qualquer surpreendido pela reorientação de internet não esteve prestando a atenção. Difundir a “democracia” foi o código para o saque capitalista desde que nasceu o Exército dos EUA. O general estadunidense Smedley Butler admitiu isso há um século. As empresas de telecomunicações estadunidense foram partícipes do estado de vigilância imperante nos EUA durante décadas. E foi nos anos 60 quando os publicistas criaram o “capitalismo contracultural” para substituir a política de rua pela “escolha do consumidor”: calças de sino, cartazes de Peter Max e consumismo “moderno”.

A resposta habitual e esse tipo de desenvolvimentos é que o desenlace poderia ter sido diferente. E sem dúvida poderia tê-lo sido. O capitalismo ocidental poderia ter-se desenvolvido sem armas nucleares, catástrofes ambientais e a utilização da coação psicológica. Mas não foi assim. Internet poderia ter sido um lugar para o livre intercâmbio de ideias, apesar dos monstros da pornografia e do anonimato, mas seu destino foi selado pela lógica que o criou.

De fato, as corporações agora mediam (e portanto controlam) a maioria das comunicações de pessoa a pessoa no Ocidente.

O tipo de “inteligência” utilizado na informática e cada vez mais em outros âmbitos, a “inteligência artificial”, provém do dualismo profundamente alienado que Rene Descartes utilizou para localizar as almas “atemporais” no mundo temporal. Na história, J. Robert Oppenheimer descobriu como construir uma arma nuclear e só mais tarde, fora do “como” do raciocínio operacional, começou a se perguntar “por quê?”. A loucura desta inteligência reflete-se no fato que os criadores da primeira arma nuclear não sabiam se, uma vez iniciado, o processo de fissão nuclear poderia ser detido.

No âmbito do mais explicitamente político, depois que George W. Bush lançasse sua parte da guerra Clinton-Bush contra o Iraque, o debate público se tornou em grande medida técnico: poder-se-ia haver evitado o saque? Como manejamos a contrainsurgência? Como devem ser contados os mortos de guerra? Etc. Em qualquer sentido humano, a guerra foi uma catástrofe desde a primeira pessoa assassinada. E rapidamente piorou. Até o dia de hoje não há um “por quê” satisfatório da guerra. Mas através de cada etapa, na medida em que a história pode ser tão reduzida, um “processo” conduziu aos métodos de aniquilação.

Baby Bush usou um método mais direto que os Clinton para vender sua parte da guerra. O residual do 11-S (de maneira conservadora, 100 vezes mais pessoas morrem a cada ano pelos erros médicos que pelos ataques) fez que se semeassem as sementes do medo no New York Times e o Washington Post para depois colher o cultivo do falso consentimento para sua guerra e “investimento” na coerção psicológica original. O fato de que os Clinton colaboraram com tão gosto para vender a guerra de Baby Bush ilustra o papel da lógica operacional como subtexto.

Com os democratas outra vez em ascenso político e os candidatos progressistas ganhando eleições, as reformas ao longo da trajetória social que elevou a Carter, Reagan, Bush, Clinton, Bush e Obama, sem dúvida, avançarão. Apesar de toda a retórica comovedora, a “era de Trump” segue esta trajetória política desalentadoramente bem. Bill Clinton foi o rosto progressista que nos salvou a “nós” dos excessos de Reagan/Bush ao “libertar” Wall Street, “por fim ao bem-estar tal como o conhecemos” e inaugurar o novo Jim Crow.

Se isso parece uma exposição alternativa do programa de Donald Trump, que forma de “resistência” não o seria? O progressismo surgiu de uma hiper-lógica social que era qualquer coisa menos lógica. E o neoliberalismo é a lógica renomeada do Estado capitalista que existe para promover os interesses dos capitalistas proeminentes. O “erro” republicano sempre foi sempre ter sido demasiado explícito na busca deste fim em momentos inconvenientes da história, testemunha da Grande Depressão que “pediu” um FDR 2 para endereçar o barco da exploração econômica.

Quando a ex-presidenta do DNC 3, Donna Brazile, informou que o dinheiro dos Clinton havia sustentado sua organização (o DNC) durante as primárias democratas e as eleições gerais, fez-se visível uma fusão de reinos. Barack Obama desenhou a salvação da economia política que herdou, como se fazê-lo não fosse político. De fato, “o sistema” que salvou é a ideologia, a encarnação de interesses particulares como organização social. Isso explica em grande parte a inconveniente, ainda que previsível, continuidade do serviço do sr. Trump a sua classe apesar de sua ameaça retórica de descumprimento.

A fantasia dos democratas de que “os russos nos roubaram as eleições” é uma duplicata da diferenciação dos produtos (pense em Coca-Cola versus Pepsi, onde a nutrição nunca entra como qualificador). Como um lembrete, a acusação não foi que Donald Trump e seu séquito sejam parasitas comerciais corruptos no mundo, isso descreve bastante bem a classe de doadores dos democratas. A acusação foi que a presidência do sr. Trump é ilegítima porque “o processo” esteve prejudicado. No contexto da política estadunidense, as acusações de corrupção sugerem, no pior dos casos, uma execução deficiente.

Agora, com as acusações da sra. Brazile 4, parece que os Clinton também comprometeram a “integridade” do “processo” dos democratas. A pergunta que necessita ser feita é: se o dinheiro, ou mais precisamente, as pessoas e entidades que contribuem com dinheiro, já controlam o “processo”, realmente importa o lugar deste controle? Dito de outra forma, com o establishment político tornando-se “democrata”, ou seja, atuando em defesa do status quo, quão exitoso teria sido o programa “clássico” democrata de Bernie Sanders? E com a história recente como guia, seriam os democratas ou os republicanos os que a afundariam? Do contrário, boa sorte com essa coisa da “unidade”.

O enigma gramsciniano que surge é de lógica política. O raciocínio de oposição, democratas contra republicanos, é uma estratégia para controlar o âmbito político e não para definir fronteiras “naturais”. A violência da retórica política atual está em proporção inversa às diferenças programáticas entre democratas e republicanos. Mas é quase proporcional à violência sistêmica da economia política estadunidense. Foi Barack Obama quem começou a “modernização” das armas nucleares que Donald Trump agora usa para ameaçar com a aniquilação nuclear. E o uso de Hillary Clinton de dinheiro como “discurso” político para amplificar sua “voz” com o fim de controlar os resultados eleitorais no Partido Democrata é totalmente a lógica da integração Estado-corporações: aquele ou aquela que tem o ouro, manda.

Através da venda efetiva do “estilo de vida” estadunidense em todo o mundo, pequenos passos numa direção política ou outra continuarão existindo numa trajetória mais ampla até a catástrofe social. Terminar com o militarismo significa terminar com a economia política que o produz. Por fim à crise ambiental significa terminar com a economia política que a produz. E eleger candidatos progressistas sem reorientar fundamentalmente a economia política longe da lógica violenta e antagônica do capitalismo produzirá somente mais do mesmo.


Notas

1 Acrônimo em inglês de Defense Advanced Research Projects Agency(Agência de Projetos de Investigação Avançados de Defesa), agência do Departamento de Defesa dos EUA criada em 1958 e da qual surgiu a rede tecnológica que daria origem a internet. (N. del T.)

2 Siglas pelas quais é conhecido Franklin Delano Roosevelt, presidente dos EUA (1933-1945).

3 Siglas em inglês do Democratic National Committee (Comitê Nacional Democrata), máximo órgão de governo do Partido Democrata dos EUA.

4 Donna Brazile, analista política e estrategista de campanha do Partido Democrata, se viu envolta num escândalo ao reconhecer que corrigiu debates eleitorais na CNN para favorecer seu partido.

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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