Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A verdadeira personalidade de Lenin

Em 1937, o revolucionário belga escreveu sobre os últimos momentos da vida de Lenin e as angustias para com os males do regime que fundara.

'Vladimir Lenin (1870-1924)', Mikhail Kupriyanov, Porfiry Krylov e Nikolai Sokolov, 1949
'Vladimir Lenin (1870-1924)', Mikhail Kupriyanov, Porfiry Krylov e Nikolai Sokolov, 1949

Morreu esgotado polo seu labor sobre-humano a 21 de Janeiro de 1924. Havia por volta de dois anos que a doença o imobilizava na sua cadeira e tinha uma terrível expressão de angústia, de que algumas fotografias da época dão prova. Mas a sua inteligência continuava acordada e, de quando em quando, manifestava-se em potentes labaredas. Nesses momentos exprimia a sua grande ansiedade. Os males do regime que fundara, e que via com grande lucidez, angustiavam-no. Não há mada mais trágico que a história das suas últimas lutas contra a doenças, com o pensamento fixo em poder trabalhar novamente, em procurar soluções e aliados, em conter as ameaças. E, sem dúvida nenhuma, se Lenin tivesse vivido mais alguns anos, o rumo da revolução ter-se-ia visto profundamente modificado em sentido favorável.

É indubitável que a sua grande autoridade e a sua vasta inteligência teriam agido eficazmente no curso das coisas. Talvez tivesse podido orientar o Estado socialista para a inteligência com os camponeses e moderar assim, ou até ultrapassar, as tendências reacionárias do interior. Talvez tivesse sucumbido no longo prazo neste combate, como sucumbiu outra inteligência igual à dele. A História percorre o caminho servindo-se, segundo as circunstâncias, dos homens de gênio e dos medíocres. Depois de Napoleão, criou o homem de Sedan. O acaso e o inexorável vão misturados. A sorte das pessoas depende do acaso, a resultante social do inexorável, e este inexorável arrasta e quebra o acaso… tantas causas econômicas e históricas tenham contribuído para o desgaste da Revolução que se Lenin tivesse vivido mais tempo, provavelmente teria corrido uma sorte semelhante à dos seus companheiros das grandes jornadas revolucionárias. Mas o regime seria melhor.

Esse ponto de vista não é, de maneira nenhuma, pessimista. Para dominar a natureza, cumpre que o homem a perceba e se adapte a ela. Para construir o para-raios, cumpre saber que o raio vai cair e como vai cair. Não há que contar com as orações para o impedir. Para transformar a sociedade e discernir as suas vias, cumpre obedecer a necessidade mais forte, que é a necessidade econômica. Assim, na ciência marxista, Marx e Engels, investigadores honestos, ao atingirem o mecanismo moderno da produção, concluíram na necessidade do socialismo, aspiração das massas a um maior bem-estar e a uma vida mais justa, passando assim da utopia à ciência. Com Lenin, o socialismo passou da ciência à ação.

Pouco antes de Outubro, as circunstâncias simplificavam os problemas. A guerra reduzia tudo a algumas alternativas do gênero de ser ou não ser. Mas necessitava-se valor para o ver e, após tê-lo visto, agir audaciosamente. Mas já não se podia ser nem viver como no passado. Cumpria era romper com ele. E isto costuma ser o mais difícil para os homens, que são, via de regra, prisioneiros das suas rotinas e das suas ilusões. Os escritos de Lenin revelam grandes riquezas. Mas nunca tiveram tanto valor como nesses seis meses do ano 1917 em que ele foi o único que se orientou com passo certo no meio de acontecimentos tão caóticos, compreendendo que se vivia uma situação instável, entre duas ditaduras igualmente possíveis, a da reação e a da classe operária e que, portanto, não cabia mais eleição que entre a ação e o desastre. O critério dele não era fruto da paixão revolucionária, que poderia ter sido cega, como outra paixão qualquer; mas da convicção do político e do economista, fundada na análise cotidiana de uma dada situação.

Lenin levava tudo em conta: o estado da produção, as mudanças, as intenções e as possibilidades da burguesia, a mentalidade dos generais e dos advogados que estavam ainda no poder, as aspirações das massas na cidade e no campo. E, afinal, concluiu que chegara a hora. Estado refugiado numa cabana da Finlândia, na beira do mar, a inícios de Outubro, escreveu para o Comitê Central do Partido:

“Caros camaradas: os acontecimentos fixam-nos tão netamente o nosso dever que a espera resulta um crime. O movimento camponês desenvolve-se com uma força crescente. As tropas professam-nos uma simpatia cada vez mais acesa. Em Moscou podemos contar com 99% dos votos dos soldados: as tropas finlandesas e a frota som contra o Governo. Unidos aos socialistas revolucionários de esquerda, temos a maioria do País… nestas condições, esperar resulta um crime…”.

E ainda:

“A vitória é certa. Há uma percentagem elevadíssima de possibilidades de a obtermos sem efusão de sangue”.

Vi-o, em várias ocasiões um bocado mais tarde, na fase mais ardente da vida dele. Ninguém era mais singelo do que ele. Ninguém ficava mais longe de tudo o que fosse armar-se em homem de gênio que de modo verossímil era, o grande chefe, o fundador do Estado soviético. Todas estas palavras ditas a respeito dele teriam-no indignado. Quando se agravavam os desacordos no partido, a sua maior ameaça era:

“apresento a minha demissão ao Comitê Central, volto a ser um simples militante e a defender o meu ponto de vista na base”…

Levava ainda os seus velhos fatos de emigrante na Suíça. Quando se quis festejar o seu 50 º aniversário, quase se zangou: e só esteve 20 minutos na velada íntima que celebraram alguns companheiros.

Quando Kámenev lhe falou de editar as obras dele completas, contestou-lhe com certa contrariedade:

“Para quê? Tem-se escrito muita coisa em trinta anos! Não vale a pena!”

Não se tinha por infalível, e de não era tal. Cometeu grandes erros. E, amiúde, no curso da sua mais justa ação, uma parte de erro não diminuía a sua extraordinária perspicácia. Em conjunto, a sua obra fica como um novo ponto de partida na história, como um magnífico exemplo de desinteresse e de devoção à classe operária, como uma aplicação vigorosa do pensamento marxista à luta de classes. Para aí é que nós olhamos hoje como para uma luz, e não para os seus lúgubres restos, embalsamados sob um monstruoso mausoléu…

1937

Fonte: https://www.marxists.org/portugues/serge/1937/mes/personalidade-ga.htm

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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