Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Manifesto: 4,70 não! Fora Jonas!

A juventude da cidade de Campinas não quer sua cidade dominada pela máfia do transporte.

O prefeito de Campinas Jonas Donizette (PSB) - Reprodução
O prefeito de Campinas Jonas Donizette (PSB) - Reprodução

No dia 28 de dezembro de 2017, entre as comemorações do natal e o ano novo, a população de Campinas foi surpreendida negativamente mais uma vez pelo seu prefeito. Jonas Donizette (PSB) anunciou que, pelo décimo ano consecutivo (10º!), Campinas terá um aumento em sua passagem de ônibus, passando de R$ 4,50 para R$ 4,70. Para quem possui bilhete único, a tarifa aumentou de R$ 4,20 para R$ 4,30, e a segunda integração de ônibus, anteriormente gratuita, passa a custar R$ 0,40.

Não queremos nossa cidade dominada pela máfia do transporte

O tema do valor das tarifas do transporte é sempre muito sentido e questionado pela população nos momentos de aumento. Entretanto, desde as manifestações de junho de 2013, tem ficado mais nítido que o preço da tarifa na verdade é resultado de uma guerra entre os empresários de ônibus e a população, mediada pela prefeitura, que na enorme maioria das vezes está do lado dos empresários. Quanto mais força os empresários possuem, mais caro é o preço da tarifa dos ônibus. O exemplo do Rio de Janeiro, em que foi comprovado que as planilhas usadas pelas empresas para “justificar” o preço abusivo das tarifas eram fraudadas, é categórico neste sentido.

Campinas parece ser uma cidade que, para além do já abusivo valor médio das passagens nas cidades grandes e médias no Brasil, possui um excedente de preço que vai diretamente para o bolso dos empresários, como fruto da força do empresariado de ônibus na cidade. Concretamente, a cidade tem hoje a maior tarifa entre as 10 maiores cidades do estado de São Paulo, e, entre as capitais do país, só fica atrás de Brasília.

Ao se analisar os serviços prestados pelas empresas da cidade, percebemos outros elementos que não condizem com cidades de porte maior ou semelhante a Campinas. Em comparação com São Paulo, por exemplo (cidade que desde ontem a já abusiva tarifa do transporte passa a valer R$ 4,00), Campinas possui linhas de ônibus menores, com menor tempo de trajeto e com a segunda integração paga (em São Paulo é gratuita). Além disso, existem ônibus circulando com mais de 10 anos de uso, e a idade média da frota ultrapassa os 5 anos estipulados no contrato. Por fim, desde 2016 os ônibus não possuem mais cobrador.

Alguns motivos desse preço abusivo vêm do fato de que nossa cidade (assim como diversos outros municípios da região) é dominada por uma máfia do transporte. As duas maiores empresas da cidade (das seis operantes) possuem um mesmo dono, o empresário Belarmino de Ascensão Marta, configurando praticamente um monopólio na cidade. Além de Campinas, ele também possui empresas nos municípios de Hortolândia, Sumaré, Itupeva, Americana, Santa Bárbara D’Oeste, Indaiatuba, Itu, Cajamar, Jundiaí, Valinhos, Vinhedo, Louveira, Monte Mor, Sorocaba, e diversos outros municípios. Desta forma, a classe dos empresários de ônibus (Belarmino e outros empresários menores que atuam na região) se articula para seguir obtendo – ano após ano – lucros estratosféricos às custas de passagens muito caras e serviços péssimos para a população. Resultado disso é que parte da população deixa de se locomover na cidade por falta de dinheiro para pagar o transporte: o número de pessoas transportadas em alguns meses do último ano chegou a ser 15% menor que em 2016 (ano em que a tarifa era de R$ 3,80).

Outra parte das razões para os preços estratosféricos nas tarifas de ônibus vêm do fato da prefeitura de Campinas atuar como um agente parceiro dos empresários, ao invés de garantir um bom serviço à população. Não à toa, durante sua campanha, o prefeito Jonas Donizette recebeu doações em dinheiro da Associação das Empresas de Transporte Coletivo de Campinas (Transurc), empresa privada composta por integrantes das empresas de ônibus da cidade, que administra o sistema de bilhetagem eletrônica. Entretanto, as questões não param por aí: o aumento das tarifas do transporte é parte de um pacote de retrocessos e escândalos vindos da prefeitura nos últimos meses.

Jonas ladrão e inimigo do povo

Desde o final do ano passado, tem sido mais difícil para a prefeitura maquear sua maneira perversa de governar. No início de dezembro, ficou público o escândalo da saúde envolvendo a empresa Vitale, que desviava verbas do Hospital Ouro Verde: a empresa, contratada por Jonas para administrar o serviço, embolsava parte do dinheiro público destinado ao hospital (foram encontrados 1,2 milhões de reais, além de carros de luxo). Em escutas telefônicas, os empresários da Vitale citavam diversas vezes o nome de Jonas como parte das negociações feitas para beneficiar o grupo.

Não bastasse o desvio de verbas da saúde, o prefeito, junto do presidente da câmara dos vereadores, Rafa Zimbaldi (PP), também foi acusado de nepotismo, ou seja, de empregar familiares em cargos públicos comissionados, pelo Ministério Público. A denúncia consiste no fato de que o irmão e o sobrinho do prefeito ocupam cargos no governo; o primeiro é ouvidor do legislativo, enquanto o segundo é secretário de gabinete na prefeitura.

Somado a isso, os funcionários públicos municipais e os aposentados e pensionistas da prefeitura foram informados, no final do ano passado, que não receberiam seus salários nas datas planejadas: os primeiros estão tendo o salário de dezembro de 2017 pago somente neste mês, enquanto os segundos tiveram o 13º parcelado em duas vezes (e o montante total ainda não foi pago).

4,70 não! Fora Jonas!

Por todos estes motivos entendemos o aumento da tarifa como ilegítimo. Os poderosos do andar de cima buscam justificar o aumento injustificável com base na narrativa de que vivemos uma crise econômica e que o preço dos combustíveis também aumentou, mas de fundo trata-se de uma medida que visa somente a manutenção dos lucros exorbitantes dos empresários. Enquanto dizem isso, são milhares de pessoas que deixam de se locomover na cidade todos os dias por não ter dinheiro para pegar o transporte público. Queremos que se diminuam os lucros dos empresários para que toda a população tenha direito a um transporte público e de qualidade.

Por outro lado, Jonas Donizette não tem legitimidade política alguma para seguir governando. O prefeito, envolvido em um escândalo de desvio de verbas milionário da saúde, aumenta a passagem dos ônibus com uma mão, enquanto parcela os salários do funcionalismo público com a outra. De quebra, sustenta uma estrutura com mais de 800 cargos comissionados, indicando membros de sua família para alguns deles.

Por fim, entendemos que é somente com base na mobilização popular que conseguiremos garantir nossas conquistas. Não é com base em acordos com quem retira nossos direitos que iremos inverter as prioridades do governo. Nos inspiramos na juventude francesa que há 50 anos ocupou ruas, praças e fábricas para fazer valer seus direitos, no Maio de 1968, para dizer que quem decidirá sobre nosso futuro somos nós.

4,70 não! Jonas ladrão, Fora Jonas!

Campinas, 08 de janeiro de 2018

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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