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Pentágono divulga estratégia para confronto com Rússia e China

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos acaba de publicar documento no qual relocalizam o centro de sua estratégia militar para o século XXI.

O Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA - Reprodução
O Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA - Reprodução

O secretário de defesa do governo Trump, o ex-general da Marinha James Mattis, lançou uma nova Estratégia de Defesa Nacional que aponta preparações abertas do imperialismo americano para um conflito militar direto com as potências nucleares Rússia e China.

Em sua fala na Universidade Johns Hopkins de Maryland, Mattis deixou claro que a estratégia, o primeiro documento desse tipo a ser publicado pelo Pentágono em aproximadamente uma década, representa uma virada histórica na ostensiva justificativa dada ao militarismo global dos EUA por quase duas décadas: a guerra ao terrorismo.

“A grande competição pelo poder – não o terrorismo – é agora o principal foco da segurança nacional dos EUA”, disse Mattis em seu discurso, que acompanhou o lançamento de um documento não confidencial de 11 páginas delineando a Estratégia da Defesa Nacional em termos gerais. Uma versão mais extensa e confidencial foi enviada ao Congresso americano, que inclui propostas detalhadas do Pentágono para o aumento dos gastos militares.

Muito do que foi expresso neste documento ecoava os termos usados em outro documento da Estratégia de Segurança Nacional revelado no mês passado em um discurso fascista feito pelo Presidente Donald Trump. Mattis insistiu que os EUA estavam enfrentando “ameaças crescentes de poderes revisionistas tão desiguais quanto a China e a Rússia, nações que procuram criar um mundo compatível com seus modelos autoritários”.

A estratégia de defesa acusa a China de buscar “a hegemonia na região Indo-Pacífico a curto prazo e a deposição dos Estados Unidos para alcançar o predomínio global no futuro.”

A Rússia, o documento acusa, está tentando atingir “autoridade para vetar decisões governamentais, econômicas e diplomáticas das nações em sua periferia, quebrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte e mudar as estruturas de segurança e economia da Europa e Oriente Médio a seu favor.”

“A China é um concorrente estratégico que usa economia predatória para intimidar seus vizinhos e militarizar recursos no Mar da China Meridional”, afirma. “A Rússia violou fronteiras das nações vizinhas e buscou o poder de veto sobre as decisões econômicas, diplomáticas e de segurança de seus vizinhos.”

Ao que pareceu ser uma ameaça direta tanto à China quanto à Rússia, Mattis advertiu: “Se vocês nos desafiarem, esse será o pior e mais longo dia.”

Tanto Moscou como Pequim se pronunciaram condenando a estratégia de defesa dos EUA. Um porta voz chinês denunciou o documento como um retorno à “mentalidade da Guerra Fria”. O Ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, por sua vez, disse a uma conferência de imprensa das Nações Unidas: “É lamentável que, ao invés de ter um diálogo normal, em vez de usar a base do direito internacional, os EUA realmente estão se esforçando para provar sua liderança através de tais estratégias e noções de conflito.” Um porta voz do governo em Moscou caracterizou o documento como “imperialista”.

Assim como a Estratégia de Segurança Nacional publicada mês passado, a estratégia de defesa caracteriza o Irã e a Coreia do Norte como “regimes desonestos”, acusando-os de desestabilizadores regionais com sua “busca por armas nucleares e apoio ao terrorismo”. Ela acusa o Teerã de “competir com seus vizinhos, afirmando um arco de influência e instabilidade enquanto disputa a hegemonia regional.”

O texto clama pela preparação para a guerra pelo que ele chama de “três regiões chave”: o Indo-Pacífico, a Europa e o Oriente Médio. O documento também faz breves referências à América Latina e África, afirmando a necessidade do imperialismo americano perseguir a hegemonia nesses continentes. Isso deixa claso que esses continentes são a arena para a luta global pelo “grande poder” que forma o cerne da estratégia, afirmando que um objetivo fundamental na África é “limitar a influência maligna de poderes não-africanos.”

O que claramente emerge do texto do Pentágono é uma visão do imperialismo americano sitiado por todos os lados e em perigo mortal de perder seu domínio global. Isso reflete o pensamento entre a cabala dos generais aposentados e ativos que dominam a política externa da administração Trump de que os últimos 16 anos de guerras intermináveis no Oriente Médio e na Ásia Central não conseguiram promover os interesses estratégicos dos EUA, criando uma série de fiascos que esmagam o exército americano.

“Hoje nós estamos emergindo de um período de atrofia estratégica, cientes de que nossa vantagem na competitividade militar vem sendo erodida”, afirma o documento. “Nós estamos diante de uma crescente desordem global, caracterizada pelo declínio na ordem internacional baseada em regras de longa data, criando um ambiente de segurança mais complexo e volátil do que qualquer um que nós tenhamos vivido na nossa memória recente. A competição estratégica entre Estados, não o terrorismo, é agora a principal preocupação da segurança nacional dos EUA.”

O objetivo do Pentágono, de acordo com a estratégia de defesa, é garantir que os EUA continuem a ser “a principal potência militar do mundo” capaz de “garantir a balança do poder a nosso favor”, “promover uma ordem internacional que seja mais propícia à nossa segurança e prosperidade” e “preservar o acesso aos mercados”.

O impulso do documento é uma demanda por uma vasta acumulação da máquina de guerra americana, que já gasta mais do que os próximos oito países combinados, incluindo quase o triplo dos gastos militares da China e cerca de oito vezes o montante gasto pela Rússia.

A falha em implementar o gigantesco aumento nos gastos militares que o Pentágono demanda – a Casa Branca de Trump pediu um aumento de 54 bilhões de dólares no orçamento militar, enquanto líderes no Congresso sugeriram um passo ainda mais largo – resultará na “queda da influência internacional dos EUA, erodindo a coesão entre aliados e parceiros e reduzido acesso a mercados que contribuirá para o declínio de nossa properidade e padrão de vida”, alerta o resumo não confidencial da estratégia de defesa.

Apesar de ter consumido trilhões de dólares da economia americana para pagar os últimos 16 anos de guerra, Mattis e a estratégia de defesa caracterizam o exército americano como uma instituição que tornou-se praticamente famélica de recursos, incapaz de atender a “prontidão, aquisição e requisitos de modernização.”

O objetivo primordial em termos de modernização é o acúmulo da “tríade nuclear” dos EUA – a série de mísseis balísticos intercontinentais de Washington, mísseis balísticos lançados por submarinos e bombardeiros estratégicos, capazes de destruir a vida no planeta muitas vezes.

O documento afirma que o Pentágona procurará atualizar todos os aspectos de seu aparato de guerra nuclear, “incluindo comando nuclear, controle, comunicações e infraestrutura de suporte.” Acrescenta ainda que “a modernização da força nuclear inclui o desenvolvimento de opções para combater as estratégias coercivas dos concorrentes, baseadas no uso de ameaças de ataques nucleares ou estratégicos não nucleares”. Em outras palavras, o exército americano está disposto a iniciar uma guerra nuclear em resposta a um ataque convencional ou cyberattack.

Impressionantemente, o documento do Pentágono usa as palavras “letal” e “letalidade” 15 vezes para descrever os objetivos de Mattis e seus colegas generais em relação ao acúmulo militar. Claramente o que está sendo preparado é um nível de assassinato em série muito além dos banhos de sangue realizados no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iêmen e outros lugares.

No discurso de Matti havia um forte elemento de ressentimento em relação ao governo civil e seu controle constitucional sobre o exército. Ele descreveu as tropas americanas como se estivessem sendo compelidas a “estoicamente preservar uma atitude de ‘sucesso a qualquer custo’, pois eles trabalharam incansavelmente para cumprir missões com recursos inadequados e mal alinhados simplesmente porque o Congresso não pôde manter uma ordem regular.”

Mattis alertou que os planos de guerra descritos no documento irão requerer “um investimento continuado pelo povo americano”, observando que “gerações passadas” foram obrigadas a fazer “sacrifícios ainda mais severos”.

Esses novos “sacrifícios” terão a forma de cortes selvagens em serviços sociais essenciais, incluindo o esvaziamento da Seguridade Social, Medicare e Medicaid, com a transferência de recursos para os militares, o setor de armas e a oligarquia financeira.

A Estratégia de Defesa Nacional divulgada sexta-feira constitui um grave aviso para os trabalhadores nas eleições americanas e em todo o mundo. Impulsionados pela crise de seu sistema, a classe dominante capitalista dos Estados Unidos e seus militares estão se preparando para uma guerra mundial travada com armas nucleares.

20 de janeiro de 2018.

Artigo originalmente publicado no World Socialist Web Site. Tradução de Gustavo Rego para a Revista Movimento.

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Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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