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Sete anos depois da Primavera Árabe: a Tunísia volta às ruas contra a austeridade

Os protestos que começaram em 8 de janeiro na periferia de Tunis prometem seguir rumo a uma grande mobilização no dia 14 de janeiro.

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Quando Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo em Sidi Bouzid na Tunísia, talvez não imaginasse o quanto aquele gesto incendiaria o mundo árabe e que isso desencadearia uma revolta de norte a sul do planeta. Talvez não imaginasse que seria a faísca de uma Revolução Democrática em seu país, que derrubaria Ben-Ali e um regime de décadas de restrição às liberdades civis. Ou talvez seu desespero tenha sido o detonador inconsciente de sua imaginação.

A palavra “Mártir” vem do grego martys, “testemunha”. É bem provável que Mohamed não fosse mesmo mais que uma testemunha da crise pela qual passa o capitalismo contemporâneo, mas seu testemunho de impotência em mudar sozinho a situação de seu país, que o levou a tirar sua própria vida, foi uma renúncia e uma denúncia. Ninguém renuncia à vida sem imaginar que este ato vai sensibilizar a outrem de sua atitude, ao suicídio do mártir implicitamente está associada uma causa. As mobilizações que estão ocorrendo atualmente na Tunísia, há 7 anos da Primavera Árabe, são reflexos daquilo que a Revolução de Jasmim não pôde vencer. São indícios de que a causa de Moahemed segue por realizar-se.

No registro dos seis anos da revolução de 2011, Gibert Achcar alertava para o fato de que: O que começou na região árabe em 2011 foi, na verdade, um processo revolucionário de longa duração, desde o inicio impossível de prever se levaria anos, décadas, se poderia ou não alcançar um novo período de estabilidade sustentada sem a emergência de lideranças progressivas capazes de guiar os países árabes para fora da crise insuperável na qual se lançaram depois de décadas apodrecendo sob o despotismo e a corrupção.

Conscientes desta escala histórica dos acontecimentos de 2011, assim como sua temporalidade alargada (exatamente por ser histórica), não há dúvidas de que o país que mais avançou do ponto de vista democrático foi a Tunísia. Além de uma democracia burguesa com eleições livres, o país foi palco do desenvolvimento de um conjunto de organizações e coletivos em defesa de liberdades civis, sindicatos e organizações estudantis represadas por décadas de ditadura. De acordo com Ali Bousselmi, de 27 anos, fundador do grupo LGBT Mawjoudin (Nós Existimos) em entrevista concedida ao jornal O Globo: Antes, a gente não podia nem falar com nossos amigos algo contra o governo. Sempre tinha alguém escutando a conversa. Agora, temos até associações que defendem os direitos de minorias…

Também no terreno político conquistaram-se postos avançados e mais espaço para os socialistas revolucionários expressarem suas posições. O companheiro Amami Nizar, por exemplo, que esteve no Brasil a convite do MES meses após a Revolução, atualmente é Coordenador Geral do Partido Trabalhista de Esquerda e Membro da Assembleia do Povo para o distrito eleitoral de Manouba / bloco da Frente Popular. Os avanços inegáveis, entretanto, começam neste momento a entrar em contradição com a permanência do país no capitalismo, especialmente na atual fase de crise. Mesmo premiando a Tunísia com o Nobel da Paz, o imperialismo não tem mais a oferecer do que sua receita de “austeridade” mundial.

O detonador das atuais mobilizações foi o agravamento de preços e a austeridade que resultam do empréstimo concedido pelo Fundo Monetário Internacional à Tunísia, no valor de 2800 milhões de dólares em troca da aplicação de sua receita de “reformas” econômicas. A imposição de um Orçamento que corta gastos nas áreas sociais e gera maior inflação levou às ruas o enfrentamento. Para o líder da Frente Popular Hamma Hammam, esta é uma oportunidade de trazer a luta para as ruas: Vamos permanecer nas ruas e aumentar o ritmo dos protestos até que este Orçamento injusto seja abandonado.

Parafraseando o slogan da Primavera Árabe de 2011, “o povo quer a queda do regime”, agora os manifestantes gritam “o povo quer a queda do Orçamento”. Os protestos que começaram em 8 de janeiro na periferia de Tunis prometem seguir rumo a uma grande mobilização no dia 14 de janeiro que é o aniversário da queda de Ben Ali. A revolução segue seu longo caminho.

Artigo originalmente publicado no Portal de la Izquierda.

 

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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