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A crise coreana e a diplomacia de Pyongyang

Está em curso um processo de distensão diplomático-militar na Coreia do Sul?

Jogadoras do time de hockey unificado das Coreias comemoram gol em Olimpíadas -  Credit Hilary Swift/The New York Times
Jogadoras do time de hockey unificado das Coreias comemoram gol em Olimpíadas - Credit Hilary Swift/The New York Times

Depois de sua eleição em maio de 2017, o novo presidente sul-coreano, Moon Jae-in, havia tentado abrir um diálogo com o regime norte-coreano. Kim Jong-un havia respondido com uma negativa fazendo perder qualquer credibilidade esta iniciativa que, por outro lado, não agradava Washington 1. No entanto, o diálogo norte-sul foi desbloqueado bruscamente durante a preparação dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyongang. Em 9 de janeiro, celebrou-se um encontro em Panmunjon, um povo da zona de encontro entre as duas capitais. Foi anunciada a participação de Pyongyang nos Jogos Olímpicos assim como a organização de conversas militares oficiais. Por seu lado, Seul obteve o adiamento das manobras aeronáuticas dos Estados Unidos-Coreia do Sul previstas para fevereiro. O processo diplomático estava por ser comprometido verdadeiramente.

Evidentemente, é muito cedo para saber quanto tempo durará depois do encerramento dos Jogos Olímpicos e até onde irá esta distensão mas já modificou o panorama geopolítico. Há uma nova perspectiva sobre como se apresenta a questão da reunificação, especialmente no Sul.

Distensão

O simbolismo da distensão foi muito mais além do mínimo necessário. Na cerimônia de abertura em 9 de fevereiro, os e as esportistas norte-coreanas e sul-coreanas desfilaram conjuntamente, numa delegação única. Foi formada uma equipe conjunta de hóquei sobre o gelo. Kim Yong-nam, chefe de Estado com funções simbólicas, viajou para Pyongang, com um importante contingente de “animadoras” e um grupo de artistas. Mais importante: pela primeira vez, um dignatário de alto nível do regime norte-coreano se apresentou no Sul; e não qualquer um: Kim Yo-jong, a irmã pequena de Kim Jong-un, a única mulher integrada no núcleo dirigente onde parece que sua influência é importante. Ela transmitiu um convite a Moon Jae-in para que visite Pyongyang.

A diplomacia do esporte tem uma longa história internacional, mas por que os Jogos de Pyongyang permitiram um degelo (apesar das temperaturas frequentemente inferiores a 20 graus negativos) tão espetacular ainda que seja momentâneo? Os dois regimes têm um objetivo em comum: recuperar o mando e não ser mais reféns de decisões tomadas por Trump que não tem o costume de consultar com seu aliado (Seul) e de levar em conta as consequências de uma intervenção militar dos EUA, cuja ameaça foi esgrimida muitas vezes, para a população civil dos dois lados da zona desmilitarizada. Nem a população norte-coreana nem a sul-coreana querem morrer para permitir a Washington assegurar sua hegemonia.

Por sua vez, o regime norte-coreano alcançou certo nível no desenvolvimento de sua capacidade nuclear e balística ainda que provavelmente tenha ainda problemas sem resolver no plano operativo. Na véspera da abertura dos Jogos, organizou um importante desfile militar, mas uma pausa neste âmbito talvez seja bem-vinda. Ademais, o constante endurecimento das sanções decididas pela ONU não é pueril. É certo que Pyongyang sabe como esquivar delas ou reduzir seu impacto sobre a economia centralizada, mas desde seu acesso ao poder em 2011, Kim Yong-un favoreceu o rápido desenvolvimento de uma economia de mercado informal cuja dependência dos intercâmbios internacionais é maior.

O sistema norte-coreano é híbrido, em transição, que abarca um setor do Estado (amiúde, sob o controle do exército), um mercado legal e ilegal e o contrabando florescente com a corrupção como lubrificante 2. Ainda quando a situação de uma grande parte do povo segue sendo muito precária, as desigualdades sociais se agravam, se exibe o enriquecimento de uma minoria, novas formas de vida se estendem numa parte não desdenhável da população: consumismo, produtos importados, painéis solares, bicicletas elétricas, táxis, informática, modernização urbanização, (sobretudo, da capital)… Para Philippe Pons, o sistema se baseia num triângulo de ferro: a elite do regime – começando pela hierarquia militar que controla setores inteiros da economia -, o aparato – que embolsa as rendas -, e os operadores do mercado que lhes subornam para que a máquina funcione”.

As elites locais se diversificam e se ampliam incluindo agora pessoas empreendedoras. Coreia do Norte já não é o reino ermitão de outrora; num êxito para a dinastia totalitária dos Kim que assim consolida sua base mas ao mesmo tempo torna o regime mais vulnerável a um isolamento internacional mesmo que imperfeito e esquivado.

Quanto aos símbolos, desde 2017 durante as felicitações de Ano Novo, Kim Jon-un aparece em trajes civis e não com vestimenta Mao enquanto o retrato de seu avô Kim Il-sung já não é visível nessa ocasião. A utilização de termos clássicos, como Songun (prioridade ao exército e não ao partido), as ideias de “Juche” (construção socialista à coreana), o “Kimilsungism-Kimjpngilism” (em honra ao pensamento de seus predecessores), foi reduzido ou abandonado. Pela primeira vez em 2018, Kim nomeou o chefe de Estado sul-coreano dando seu título “Presidente Moon Jae-in”, chamando à reconciliação mas anunciando, ao mesmo tempo, que reativava a pressão para a reunificação da “nação étnica” em seu proveito 3. Este ano, a data do desfile militar que celebra a fundação do exército foi modificada. Foi celebrado o 25 de abril em referência à criação, por parte de seu avô, da guerrilha coreana antijaponesa que atuava na China em 1932; agora será celebrado o 8 de fevereiro em referência à constituição, em 1948, do exército do Norte. Kim Jong-un deve ser idolatrado por si mesmo e já não em função de sua ascendência.

Ruptura geracional no Sul

No Sul, o presidente Moon Jae-in pertence a uma corrente política para a qual a questão nacional (ou seja, a reunificação) sempre foi central: seu enfoque não é simplesmente oportuno ou oportunista. No entanto, os Jogos provocaram a aparição de uma profunda ruptura geracional. A juventude que apoiou massivamente a Moon nas recentes eleições contra a direita militarista e corrupta no poder não querem ser arrastados por Trump para uma guerra devastadora, mas não sonham com a reunificação. A divisão da península remonta a sessenta e cinco anos e muito se passou desde então. Já não têm parentes no Norte, têm outra história e temem um descenso em seu nível de vida. As pessoas refugiadas do Norte, aceitam melhor a política do presidente mas algumas não conseguem fazer frente a hipercompetitividade capitalista do Sul e pensam em voltar para seu país de origem 4. Alguns grupos se mobilizaram contra a organização dos Jogos por seu impacto ambiental, por seu custo e porque as grandes obras executadas para assegurar sua utilidade no período posterior aos Jogos são muito caras. Quanto à ala combativa do movimento operário, não recuperou toda sua liberdade de ação. Dirigentes sindicais encarcerados pelo governo precedente da direita autoritária, continuam no cárcere e Moon Jae-in continua com suas políticas neoliberais.

A aspiração à reunificação coreana é majoritária na população (ainda que mais frágil do que no passado) mas é minoritária entre a juventude. Muitos jovens sul-coreanos acreditam que Seul paga muito caro pela presença dos nortenhos em Pyongyang. Estão furiosos com o ocorrido com as jogadoras de hóquei sobre o gelo: a criação de uma equipe única lhes impediu de obter qualquer medalha e, frente a virulência das críticas, o presidente teve que se desculpar por não haver prestado suficiente atenção ao futuro destas esportistas. Parece que o governo de Seul não se deu conta com antecedência desta ruptura geracional.

O desafio presente: a distensão militar

As transformações atuais na península recordam a outras. No Norte, foi iniciada uma transição ao capitalismo na China no final dos anos 1970. No Sul, o sentimento de pertencimento a uma mesma nação e a aspiração a sua reunificação se debilitou como ocorreu no caso de Taiwan (e num contexto especial, em Hong Kong). A memória histórica da ocupação japonesa e da guerra da Coreia (1950-1953) não ocupa o mesmo lugar dos dois lados opostos do paralelo 38. Esta evolução terá consequências muito importantes e há que segui-las com atenção: o futuro não está escrito quando tanto hoje como ontem, a geopolítica mundial se impõe com brutalidade e pode modificar as dinâmicas coreanas.

O que conta no imediato é que se produziu uma paralisação na escalada bélica na península. Washington multiplicou as provocações verbais, aumentou as sanções até a abertura dos Jogos e se irritou. Desde Tóquio, o vice-presidente Mike Pence advertiu Moon Jae-in que não permitisse a Coreia do Norte utilizar Pyongyang com fins propagandísticos. Agora Estados Unidos e Japão tiveram que tomar nota do ocorrido em Pyongyang. Por ora, os ensaios nucleares e o lançamento de mísseis do Norte foram interrompidos. As manobras aeronáuticas EUA-Coreia do Sul foram adiadas (para junho?); a questão é saber qual será seu alcance e se o Norte será a presa claramente como ocorreu anteriormente. A guerra e a paz estão na balança.
O movimento de distensão iniciado pelas duas Coreias deve ser prolongado para além dos Jogos Olímpicos e a solidariedade internacional deve contribuir para isso.

15 de fevereiro de 2018


Notas:

1 Pierre Rousset, ESSF (artigo 42145), La crisis coreana, Estados Unidos, la inestabilidad de la geopolítica asiática y la proliferación nuclear.

2 Philippe Pons, ESSF (artigo 43076), Corea del Norte: la coraza del régimen frente a las sanciones- ¿ Aumento de la élite y “nueva burguesía roja” el fracaso de esta coraza?

3 Tadashi Kinoshita, 3 de febrero de 2018, artigo publicado neste dia.

4 Won Youngsu, ESSF (artículo43055),Contextualizing Winter Olympics in South KoreaContextualizing Winter Olympics in South Korea .

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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