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Alain Badiou sobre a Revolução no Egito, Sete Anos Depois

No aniversário de sete anos da revolução egípcia de 25 de janeiro, Alain Badiou reflete sobre o movimento que inspirou seu livro "O Renascimento da História".

AFP
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O aniversário de sete anos da Revolução Egípcia de 25 de janeiro, um evento que capturou a atenção global e inspirou incontáveis movimentos, oferece um momento oportuno para refletir sobre o estado da política hoje. O filósofo francês Alain Badiou foi uma das principais figuras intelectuais a teorizar as revoltas egípcias e tunisianas e articular seu significado histórico em seu livro “The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings” (Verso, 2012). Badiou testemunhou os desdobramentos de Maio de 1968 na França, um evento ao qual ele mantém fidelidade. Badiou reconhece que, com o Egito, a política baseada em movimentos entrou em uma nova fase no processo histórico. Resta saber se, e como, o evento da revolução egípcia pode revelar pistas e desbloquear ideias sobre a natureza mutável da política e da organização, o significado da revolução e as noções de fracasso e sucesso.

O evento de 25 de janeiro de 2011 foi desafiado até o seu âmago, para dizer o mínimo. Sete anos depois, a promessa, a abertura, a solidariedade social, a criatividade explosiva e a experimentação social exemplificada pela Praça Tahrir, mas de modo algum limitada apenas a ela, foi para muitos suplantada pelo cinismo, senão pelo desespero, pelas repressões, pelas dificuldades e pela retração. Seja qual for a situação e o clima hoje, o movimento ofereceu, nas palavras de Badiou, “uma nova proposição”, mesmo que fugaz e obscura. Ao mesmo tempo, o movimento foi substituído pelo “círculo”, um ciclo pelo qual os grupos organizados entrincheirados – a Irmandade Muçulmana, as forças armadas, a elite econômica – caem do poder apenas para ressurgir novamente. Isso significa, como pergunta Badiou, que “finalmente, não há nenhuma novidade?”

Este encontro com Alain Badiou não é uma entrevista no sentido tradicional, mas sim um conjunto de reflexões, proposições e questões. Ele reflete sobre o significado do Egito para a região e para o mundo, o significado da política, da revolução e dos movimentos sociais. Ele coloca perguntas para “nós” – não só nós no pequeno grupo que viajou para Paris para se encontrar e conversar com ele sobre o Egito e sobre questões mais amplas a respeito da construção de movimentos, mas para todos nós que buscamos por uma forma de política progressista nestes precário, volátil e imprevisível, “tempo de tumultos e revoltas”.

Parte I: Sobre a importância do Egito para os movimentos globais

Para mim, a sequência do movimento no Egito tem sido muito importante por muitas razões. Primeiro, penso que, no Oriente Médio, o Egito é um ponto muito importante. Na minha opinião, um ponto decisivo em certo sentido. Então, para mim, o que aconteceu no Egito é muito importante no nível do movimento político global no mundo.

O movimento enquanto tal foi uma nova proposição.

Em segundo lugar, é importante porque a forma do movimento foi em certo sentido algo novo. Era uma nova forma. Uma nova forma que era a de tomar o poder em algum lugar. Não ao nível do estado, mas para organizar alguma forma de tomada de decisão coletiva que leva muito tempo para um movimento formular. [O movimento criou] um novo espaço que está entre uma posição real e uma posição simbólica. Isso pode criar algo que é um símbolo, um símbolo político para muitas pessoas. E, finalmente, [ele unificou] algumas diferenças importantes dentro do povo, entre os coptas e muçulmanos, e assim por diante. Tudo isso foi, para mim, muito interessante. E eu não acho que isso foi o produto da política antiga.

Naturalmente, a política antiga também estava presente. Mas o movimento como tal foi uma nova proposição. Chamei isso de “O Renascimento da História”. Assim, o destino de tudo isso, o tornar-se de tudo isso, foi para mim uma questão muito importante, não apenas uma questão de vitória e fracasso. Na verdade, a minha pergunta é:

Qual era exatamente o conceito possível de vitória para esse tipo de movimento?

Esta é uma questão muito profunda e difícil. Porque é muito difícil imaginar que você tem uma nova forma de movimento eventualmente resultando na forma clássica do movimento, isto é, tomar o poder, ou algo assim.

Em algum sentido, quando temos uma experiência muito forte, para mim, por exemplo, Maio de 1968, e para vocês, o movimento no Egito, muitas vezes depois dela, você tem algo como uma situação reativa. Na França também, alguns anos depois de Maio de ’68, a situação tornou-se, de certo modo, comum, não extraordinária.

[O levante egípcio] é uma história extraordinária, em certo sentido porque, depois desse movimento extraordinário, você tem algo como o retorno à situação [antiga]. E assim, é realmente uma questão para mim… por que existe esse tipo de ciclo: Mubarak, um grande movimento, um movimento extraordinário, a Irmandade Muçulmana e o retorno à ditadura, a ditadura militar. É para mim uma história muito interessante e terrível.

Mas acho que devemos sempre pensar que algo importante [aconteceu], mesmo que, no final, houve algo parecido com um fracasso, algo como uma decepção. E assim, o que é muito interessante e importante para descobrir é: Quais são as lições do movimento muitos anos após o evento?

Devemos ter lições claras a respeito do movimento. Por que houve o fracasso do movimento? Quais são as razões? E, ele foi um ponto de partida para algo novo? [É importante] ir além do difícil termo de fracasso do movimento, superar o sentimento puramente negativo no final. É muito ruim ter um sentimento puramente negativo em relação a um movimento. Naturalmente, devemos ser lúcidos, devemos explicar: Por que o ciclo, a repetição?

E, neste ponto preciso, não tenho uma visão clara, nenhuma explicação clara. Talvez vocês tenham?

A dificuldade do movimento foi do lado da organização. [Para recapitular], os militares de um lado, a Irmandade Muçulmana do outro lado. [Estes grupos] estavam em condições de realmente assumir o poder. Mas o movimento como tal, a parte revolucionária do movimento, não estava em uma posição para ser realmente um candidato ao poder.

Devemos ter uma compreensão de qual é o objetivo do movimento, mas não apenas em termos puramente negativos.

E assim, a questão do movimento e a questão do poder estavam em dissimetria. Ainda sim, há algo paradoxal no resultado do movimento, na forma da Irmandade Muçulmana assumir o poder. É algo muito triste, porque é uma questão de organização. Afinal de contas, é uma lição histórica. Quando não temos nenhuma nova forma de organização, se o movimento não pode criar uma nova forma de organização ao nível do poder estatal, o resultado é que algo que é uma organização, como a Irmandade Muçulmana, finalmente assume o poder. E depois disso, temos o retorno à situação antiga. Para o campo militar [esta] também é uma lição: nunca mais algo assim deve acontecer [novamente]!

Parte 2: As Grandes Perguntas: Visão, Mudança e Ideias Afirmativas

Minha pergunta, ao nível do pensamento das pessoas, é: Qual foi o objetivo do movimento?

Porque você tem um ponto negativo claro: “Não à Mubarak!” Em certo sentido, a unidade do movimento foi fixada em uma demanda negativa que é contra o poder existente. Mas, naturalmente, não podemos concluir que o [resultado] de tudo isso será, “Mubarak não”, mas sim al-Sisi! Então, quando há um novo movimento, devemos ter uma compreensão de qual é o objetivo do movimento, mas não apenas em termos puramente negativos – Mubarak não!, e não em termos clássicos, tomarmos o poder tal como ele está. Ao invés disso, a questão é: Qual é a ideia de mudança real? Qual é a ideia afirmativa?

Eu realmente me apaixonei pelo movimento egípcio [que eu vi] como algo novo na sequência histórica de hoje – em nível mundial, não só para o Egito. Após esse evento, temos movimentos em todos os lugares, mas todos esses movimentos são, em certo sentido, menos interessantes do que o movimento egípcio, que foi grande, foi longo, que tinha muitas composições complexas. Então, temos um novo movimento [no Egito], mas temos a dimensão negativa desse movimento que é claramente contra o poder, contra Mubarak. E temos o círculo que parece sugerir que não há novidade, que não há algo novo. A minha pergunta é: O nascimento de algo é sempre um processo obscuro. Qual foi a visão dentro do próprio movimento? Qual foi a visão de [do que deve se tornar] tudo isso?

O que é claro é que você tem algo como uma nova forma de movimento ao nível da novidade do próprio movimento. Uma pergunta para todo mundo, uma questão de interesse universal, por fim, é: O que é uma revolução hoje?

Uma grande questão. Esta questão estava presente no movimento? Quais foram as discussões sobre certos pontos? Todos os detalhes são importantes em relação a esse tipo de pergunta, porque o nascimento de algo é sempre um processo obscuro.

O que é claro é que você tem algo como uma nova forma de movimento que não é insurrecional, que não é do tipo clássico de luta para conquistar o poder. Não é algo desse tipo. Também não é algo puramente localizado, mesmo que tenha ocupado um lugar na Praça Tahrir, este é um lugar simbólico. Pessoalmente, fiquei interessado pela ideia de “Nós somos os verdadeiros egípcios aqui”. “O Egito está aqui”. Não só para alguns milhares de pessoas, mas que somos, simbolicamente, a possibilidade de um novo Egito aqui. Sim, mas além desta visão simbólica, quais foram as discussões dentro do movimento sobre a questão: Qual é a verdadeira visão política?

Vocês não tem uma solução? (risos)

Pulicado originalmente em versobooks.com. Tradução de Giovanna Marcelino para a Revista Movimento. 

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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