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Raisman responsabiliza Federação de Ginástica e Comitê Olímpico dos EUA por abusos sexuais

Leia aqui o depoimento da ginasta no julgamento do ex-médico da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, Larry Nassar.

A ginasta Aly Raisman durante seu pronunciamento à Corte nos EUA - Reprodução
A ginasta Aly Raisman durante seu pronunciamento à Corte nos EUA - Reprodução

Meritíssima, obrigado pela oportunidade de prestar esta declaração aqui hoje, e obrigado por conceder tempo e flexibilidade para que todas as outras sobreviventes possam também prestar as suas declarações. Cada sobrevivente merece ser igualmente ouvida.

Não imaginei que estaria aqui hoje. Estava com medo e nervosa. Só quando comecei a assistir às declarações impactantes das outras corajosas sobreviventes percebi que também precisava de estar aqui.

Larry, compreende agora que nós, este grupo de mulheres que foram abusadas por si de uma forma tão cruel e por um longo período de tempo, são agora uma força e você não é nada.

As coisas mudaram, Larry. Estamos aqui, temos as nossas vozes, e não vamos a lugar nenhum.

E agora, Larry, é a sua vez de me ouvir.

Não há um mapa que mostre o caminho para a cura. Percebermos que somos sobreviventes de abuso sexual é realmente difícil de transmitir por palavras. Não consigo traduzir adequadamente o nível de desgosto que sinto quando penso como isso aconteceu.

Larry, você abusou do poder e confiança que eu e tantas outras depositámos em si, e não tenho a certeza se alguma vez conseguirei aceitar a forma atroz como me manipulou e me violou.

Você era o médico da equipa nacional da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, o médico do Estado de Michigan, e o médico da equipa olímpica dos Estados Unidos. Tinha a confiança de tantas pessoas e aproveitou-se de inúmeras atletas e das suas famílias.

Os efeitos das suas ações têm um longo alcance. O abuso vai muito além do momento, muitas vezes assombrando as sobreviventes para o resto das suas vidas, dificultando a confiança e tendo impacto nos seus relacionamentos.

É ainda mais devastador quando esse abuso vem de um médico tão conceituado, já que faz com que as sobreviventes questionem as organizações e até mesmo a própria profissão médica, das quais tantas dependem.

Estou aqui para enfrentá-lo Larry, para que possa ver que recuperei a minha força – que não sou mais uma vítima. Sou uma sobrevivente.

Já não sou a menina pequena que conheceu na Austrália quando começou a aliciar-me e a manipular-me.

Quanto à sua carta de ontem, é patético pensar que alguém teria alguma simpatia por si. Acha que isto é difícil? Imagine como todas nós nos sentimos.

Imagine como é ser uma adolescente inocente num país estrangeiro, ouvir alguém bater à porta, e é você. Não quero que esteja lá, mas não tenho escolha. Os tratamentos consigo eram obrigatórios. Aproveitou-se disso. Perguntou-nos se não queríamos ser tratados por si, sabendo muito bem os problemas que isso nos causaria.

Deitada sobre o meu estômago consigo na minha cama, a insistir que o seu toque inadequado ajudaria a curar a minha dor. A realidade é que me causou uma grande quantidade de dor física, mental e emocional.

Nunca me curou. Aproveitou as nossas paixões e os nossos sonhos. Deixou-me desconfortável, e pensei que era estranho, mas senti-me culpada porque era um médico, então assumi que eu era o problema, por pensar mal de si. Não me permitiria acreditar que o problema era você.

Desde que éramos pequenas, disseram-nos para confiar nos médicos. Você está tão doente, nem compreendo a raiva que sinto quando penso em si. Mentiu-me e manipulou-me para pensar que, quando me tratou, estava a fechar os olhos porque tinha trabalhado muito, quando na realidade estava a tocar-me, uma criança inocente, para se satisfazer.

Imagine sentir que não tem poder e nem voz. Bem, sabe Larry, tenho poder e voz, e só estou a começar a usá-los.

Todas estas mulheres corajosas têm poder, e usaremos as nossas vozes para garantir que obtenha o que merece, uma vida de sofrimento passada a repetir as palavras deste poderoso exército de sobreviventes.

Também estou aqui para lhe dizer olhos nos olhos, Larry, que não me tirou a ginástica. Adoro esse desporto, e esse amor é mais forte do que o mal que reside em si e naqueles que lhe permitiram ferir muitas pessoas.

Já sabe que vai para um lugar onde não poderá voltar a magoar alguém, mas estou aqui para lhe dizer que todos os vestígios da sua influência sobre este desporto serão destruídos, como o cancro que é.

O seu abuso começou há 30 anos, mas esse é apenas o primeiro incidente de que temos conhecimento. Se durante esses muitos anos, pelo menos um adulto ouvisse e tivesse tido a coragem e o caráter para agir, esta tragédia poderia ter sido evitada.

Eu e muitas outras nunca o teríamos conhecido.

Larry, você deveria ter sido preso há muito, muito tempo atrás. O facto é que não temos ideia de quantas pessoas vitimou, ou o que foi feito ou não feito, para permitir que continuasse a fazê-lo e a fugir por tanto tempo.

Durante estes trinta anos, adulto após adulto, muitos em cargos de autoridade, protegeram-no, dizendo a cada sobrevivente que estava tudo bem, que não estava a abusar delas. Na verdade, muitos adultos tinham convencido as sobreviventes de que estavam a ser dramáticas ou de que se tinham enganado.

Isto é como ser violada novamente. Como dorme à noite? Foi premiado tanto pela Federação de Ginástica dos Estados Unidos quanto pelo Comité Olímpico dos Estados Unidos, que o colocaram em conselhos consultivos e comités para criar políticas para proteger os atletas deste tipo de abuso. Era a pessoa que tinham para “assumir a liderança dos cuidados dos atletas”.

Era a pessoa que diziam que “fornecia a base para o nosso sistema médico”.

Estremeço ao pensar que a sua influência permanece nas políticas que deveriam manter os atletas seguros, que estas organizações proclamaram, durante anos, como o “estado da arte”.

Acreditar no futuro da ginástica é acreditar na mudança, mas como podemos acreditar na mudança quando estas organizações nem sequer estão dispostas a reconhecer o problema?

É fácil publicar declarações que assinalam que o cuidado dos atletas é a mais alta prioridade, mas dizem isso há anos, e durante todo esse tempo este pesadelo estava a acontecer.

As falsas garantias das organizações são perigosas, especialmente quando as pessoas querem tanto acreditar nelas. Elas tornam mais simples olhar para o lado e ignorar o problema, permitindo que este tipo de situações aconteçam. Mesmo agora, depois de tudo o que aconteceu, a Federação de Ginástica dos Estados Unidos tem a coragem de repetir as mesmas coisas que disse durante todo este tempo.

Não veem o quanto isso é desrespeitoso? Não veem o quanto isso dói?

Há alguns dias atrás, a Federação de Ginástica dos Estados Unidos publicou uma declaração, assinada pelo seu presidente e CEO, Kerry Perry, que disse que veio aqui para ouvir as mulheres corajosas e frisou: “as suas vozes poderosas deixam-me um impacto indelével e afetarão as minhas decisões todos os dias”.

Isso soa muito bem, Sr. Perry, mas neste momento: falar é barato. Contudo, saiu a meio do dia e ninguém teve notícias suas ou da sua administração.

Kerry, nunca o conheci, e sei que não estava cá durante a maior parte deste processo. Mas aceitou o cargo de presidente e CEO da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, e suponho que agora esteja ciente da pesada responsabilidade que assumiu.

Infelizmente, assumiu uma organização que sinto que está a apodrecer por dentro, e será julgado pela maneira como lida com isso.

Um conselho: continuar a despejar declarações de promessas vazias, pensar que nos pacificará, não resultará mais.

Ontem, a Federação de Ginástica dos Estados Unidos anunciou que está a terminar o seu contrato no local onde muitas de nós fomos abusadas. Fico feliz que não seja mais um local de treino nacional, mas a Federação de Ginástica dos Estados Unidos esqueceu-se de mencionar que tiveram atletas a treinar lá no dia em que divulgaram a declaração.

Federação de Ginástica dos Estados Unidos: Onde está a honestidade? Onde está a transparência? Por que a manipulação deve continuar?

Nem a Federação de Ginástica dos Estados Unidos nem o Comité Olímpico dos Estados Unidos me expressaram a sua simpatia ou mesmo ofereceram o seu apoio – nem mesmo para perguntar: “Como isso aconteceu? O que podemos fazer para ajudar?’ Por que eu e as outras não ouvimos nada da Federação de Ginástica dos Estados Unidos? Por que o Comité Olímpico dos Estados Unidos ficou em silêncio? Por que o Comité Olímpico dos Estados Unidos não está aqui agora?

Larry foi o médico olímpico e molestou-me nos Jogos Olímpicos de 2012. Atualmente, eles dizem que aplaudem aquelas que falaram, mas é fácil dizer isso agora. Quando as mulheres corajosas começaram a falar naquela época, mais de um ano depois de o Comité Olímpico dos Estados Unidos dizer que sabia sobre Nassar, elas foram dispensadas.

Nos Jogos Olímpicos de 2016, o presidente do Comité Olímpico dos Estados disse que a organização não realizaria uma investigação. Até defendeu a Federação de Ginástica dos Estados Unidos como um dos líderes no desenvolvimento de políticas para proteger os atletas.

Essa é a resposta que uma mulher corajosa recebe quando fala? E quando outras se juntaram a essas atletas e começaram a denunciar mais histórias de abuso, foram reconhecidas? Não. É como ser abusada de novo.

Representei os Estados Unidos da América em duas olimpíadas e fi-lo com sucesso. E tanto a Federação de Ginástica dos Estados Unidos quanto o Comité Olímpico dos EUA foram muito rápidos em capitalizar e comemorar o meu sucesso. Mas chegaram-se à frente quando eu avisei? Não.

Então, neste momento, a conversa não vale nada para mim. Estamos a lidar com vidas reais e com o futuro do nosso desporto. Precisamos de acreditar que isto não vai voltar a acontecer.

Para que este desporto continue, precisamos de exigir mudanças reais, e precisamos de estar dispostos a lutar por isso. Está claro agora que se deixarmos isso para estas organizações, é provável que a história se repita.

Para sabermos que mudanças são necessárias, precisamos de entender o que aconteceu e por que aconteceu.

Este é um processo doloroso, mas é a única maneira de identificar todos os fatores que contribuíram para este problema e como podem ser evitados no futuro.

Esta é a única maneira de aprender com estes erros e fazer da ginástica um desporto mais seguro. Se alguma vez houve a necessidade de entender completamente um problema, é este agora. Aceitar que o problema está limitado a apenas o que sabemos agora é irresponsável, delirante mesmo. Cada novo dia parece trazer uma nova sobrevivente. Não temos ideia de quantos danos causaste, Larry, e não temos ideia de quão profundas são estas histórias.

Agora é tempo de reconhecer que a própria pessoa que se senta diante de nós agora – que perpetrou a pior epidemia de abuso sexual na história do desporto, que vai ser presa por um longo período de tempo – esse monstro também foi o arquiteto de políticas e procedimentos que deveriam proteger os atletas contra abusos sexuais tanto para a Federação de Ginástica dos Estados Unidos como para o Comité Olímpico dos EUA.

Se quisermos acreditar na mudança, primeiro devemos entender o problema e tudo o que contribuiu para isso. Agora não é hora para falsas garantias. Precisamos de uma investigação independente sobre o que aconteceu, o que correu mal e o que pode ser evitado no futuro. Só então podemos saber quais as mudanças necessárias. Só então podemos saber que as mudanças são reais.

Meritíssima, peço que dê a Larry a sentença mais forte possível, que as suas ações merecem. Pois, ao fazê-lo, enviará uma mensagem a ele e a outros abusadores que não podem escapar impunes com os seus crimes horríveis. Serão expostos pelo mal que são, e serão punidos na máxima extensão da lei.

Deixe que esta sentença cause medo em qualquer pessoa que pense que é bom magoar outra pessoa.

Abusadores, o vosso tempo acabou.

As sobreviventes estão aqui, de pé, e não vamos a lugar nenhum.

E, por favor, Meritíssima, enfatize a necessidade de investigar como isto aconteceu, para que possamos responsabilizar aqueles que empoderaram e apoiaram Larry Nassar, para que possamos reparar e, mais uma vez, acreditar neste desporto bonito.

O meu sonho é que um dia, todas saberão o que as palavras “Me too” significam, mas serão educadas para, e ser capazes de, proteger-se de predadores como Larry, para que nunca tenham de dizer as palavras “Me too”.

Material traduzido e publicado pelo esquerda.net.

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A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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