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Stonewall: entre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade

A revolta de Stonewall representa uma inspiração de luta social, que fura os bloqueios da invisibilidade e pauta o debate na sociedade.

Imagem da última noite dos seis dias de levante em na cidade de Nova York - Credit Larry Morris/The New York Times
Imagem da última noite dos seis dias de levante em na cidade de Nova York - Credit Larry Morris/The New York Times

A rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969, é até hoje reconhecida como um dos principais momentos da história da luta por direitos da comunidade LGBT e de resistência contra a opressão. Para todos aqueles que se revoltam contra o sistema e acreditam que não existe transformação pacífica da ordem, Stonewall representa também uma inspiração de luta social, que fura os bloqueios da invisibilidade e pauta o debate na sociedade, elevando a pauta a setores da sociedade a qual ela não atingia anteriormente.

A revolta foi uma resposta espontânea da comunidade de Greenwich Village (bairro conhecido na época por ser um refúgio pra comunidade LGBT) contra a violência policial e os desmandos do Estado, que criminalizava as pessoas com orientação sexual e identidade de gênero não normativas. As constantes batidas policiais no bar chamado Stonewall Inn, sempre extremamente abusivas e violentas, fizeram com que as LGBTs que frequentavam aquele espaço (em sua maioria LGBTs muito marginalizadas, “queens de rua”, sem trabalho e espaço na sociedade de classes) se revoltassem e radicalizassem contra a polícia. Com gritos de “Gay Power” a comunidade local expulsou a polícia com paus, pedras, tijolos, etc.

Os maiores detalhes e curiosidades sobre o evento podem ser vistos em filmes, documentários, artigos sobre o assunto e são fascinantes. O objetivo desse ensaio, no entanto não é recriar o evento histórico como meio de saudação ao que foi a rebelião, mas de refletir, à luz da teoria marxista, o que essa história tem a nos ensinar, suas virtudes e limites, do ponto de vista do desenvolvimento da luta revolucionária.

Sem dúvida alguma qualquer LGBT que deseja destruir o sistema que nos oprime diariamente tem como objetivo refazer várias revoltas como foi a de Stonewall pelo mundo todo, e esse é um espírito corretíssimo. Essa rebelião representa a faísca que um movimento identitário pode provocar pra incendiar uma sociedade opressora. Iremos nesse texto pensar quais as mudanças do fim da década de 60 até hoje, quais os novos desafios, quais as novas perspectivas, e qual sentido teria uma revolta desse tipo nos dias de hoje. O laço que mantém vivo o fascínio por esse evento é a definição de que a luta direta, radical e com caráter anti-sistêmico é o melhor método de arrancar vitórias para qualquer setor oprimido da sociedade, e refletir criticamente sobre essa experiência histórica, se esforçando em pensar a atualidade de Stonewall, é o melhor meio de manter esse evento vivo e pulsante.

A principal diferença entre aquele momento histórico e o atual, que abordaremos aqui, é uma diferença acerca do caráter de classe da maioria da comunidade LGBT. Naquela época, nos EUA (seguindo uma tendência internacional), as LGBTs eram excluídas da vida social na maioria dos aspectos, inclusive jurídico-legais. Isso é perceptível quando se analisa os agentes históricos envolvidos na rebelião: pessoas marginais, desempregadas, indigentes, entre outros. Nessas últimas décadas, com o fim da repressão legal à homossexualidade e principalmente com a mudança no modo fordista de regulação do trabalho para uma situação de trabalhos cada vez mais precários, flexíveis, sem garantias trabalhistas, as LGBTs passam a ser incluídas nessa dinâmica do trabalho precário. Portanto, a comunidade LGBT hegemonicamente lumpemproletarizada (fora do processo de produção e reprodução da vida material) da década de 60 e 70 deu lugar a uma comunidade hegemonicamente subproletarizada.

Entender o perfil de classe da comunidade LGBT não é menor. As configurações classistas ajudam a entender os motores ideológicos dos movimentos sociais e permitem, nesse caso, caracterizar o perfil que o movimento LGBT tinha a época e o que tem hoje, além de suas possibilidades enquanto movimento reivindicatório.

Essa diferença central, que será mais desenvolvida ao longo do texto, permite uma caracterização de duas ordens: uma pessimista e outra otimista.

O caráter pessimista é que nos dias de hoje um levante daquele tipo é muito mais difícil de surgir/se organizar. O trabalho precário e flexível que acomete a maioria das LGBTs atualmente vêm aliado a um reforço ao individualismo e a ideologia da concorrência, minando os mecanismos de solidariedade de classe dos trabalhadores. A pressão material da rotatividade no emprego, o medo da demissão e os mecanismos de controle social do trabalho, muitas vezes auto regulado (regulado pelos próprios trabalhadores), contribuem para uma camada LGBT que não apenas se inseriu nessa dinâmica do trabalho, como foi absorvida pela mesma. Nesse sentido David Harvey, n’A Condição Pós-moderna, afirma que um dos objetivos do Capital consiste em tornar o trabalho servil e engajado, onde as diferenças (com predominância das diferenças de gênero, raça e sexualidade) cumprem esse papel de minar a solidariedade de classe, mecanismo fundamental à tomada de consciência.

Outro aspecto importante é o aumento das diferenças de classe internas a comunidade LGBT. A inclusão desigual, usando um termo do sociólogo Michael Burawoy, das LGBTs na dinâmica do trabalho não apenas cristalizou uma desigualdade entre pessoas cisheterossexuais e LGBTs no mundo do trabalho, mas também permitiu à uma pequena parcela da comunidade participar de espaços privilegiados de trabalho e poder na sociedade. Diferentemente de antigamente, onde assumir-se LGBT era, na prática, se jogar na marginalidade e renegar quaisquer possibilidades de ascensão pessoal, hoje em dia é possível que um pequeno setor (quase sempre branco, masculino e de origem social elevada) ocupe posições de prestígio na sociedade capitalista e, a partir desse lugar social pequenoburguês, essa minoria passou a disseminar seus valores pequenoburgueses à massa LGBT precária, passando a deter a hegemonia ideológica interna a comunidade.

Portanto, o resultado é uma comunidade que em sua ampla maioria é composta por LGBTs precárias, porém com uma vida ideológica pautada por valores pequenoburgueses, absorvidos pela lógica de dominação capitalista. Ou seja, em um país onde a maioria da população LGBT vive em condições precaríssimas de trabalho, onde as agressões e mortes de LGBTs são campeãs mundiais, a lógica ideológica que rege o engajamento na pauta gira hegemonicamente em torno do empoderamento individual, do consumo como atenuador das diferenças, dos nichos de mercado voltado a comunidade que lucram em cima da diversidade sexual e de gênero (pink money), etc.

Além disso, também vale comentar, no caso específico brasileiro, sobre como a epidemia de HIV-Aids fez com que a maioria dos movimentos LGBTs passassem a ter uma relação muito mais direta com o Estado por meio do financiamento via programas governamentais de combate a epidemia e cristalizando os principais movimentos em um formato muito mais institucional e regulado, o que promove algo análogo com o que acontece com o movimento sindical no Brasil, que por ser na prática apenas uma extensão do Estado burguês se esvazia de seu conteúdo subversivo, passando a ser apenas um mediador da relação trabalhador/Estado.

No entanto, voltando ao debate sobre o caráter de classe da comunidade, essa própria mudança – de uma comunidade hegemonicamente lumpemproletarizada para uma comunidade subproletarizada e mais heterogênea – que gera uma maior dificuldade para o surgimento de um levante LGBT anti-sistêmico e radical, permite que caso consigamos vencer essas barreiras, exista uma possibilidade de levarmos o movimento a um patamar que Stonewall não levou.

O principal passo que a revolta de Stonewall não deu foi o de transformar a luta social em luta política. A rebelião conseguiu resistir a repressão e levar um sem número de LGBTs pra rua, mas não conseguiu colocar a ordem estabelecida em cheque, e como toda luta social que não consegue dar esse passo, ela retrocedeu. Esse passo não pôde ser dado não por um erro consciente daquelas LGBTs, mas o fato de que foi uma rebelião dirigida por uma comunidade lumpemproletarizada dificulta colocar uma derrota do sistema no horizonte, já que o lúmpem não desenvolve consciência de classe por justamente estar de fora do processo de produção e reprodução da vida material, e, portanto, não podendo enxergar que a realidade de opressão não poderia ser superada sem a destruição da sociedade de classes de conjunto. Além disso, o lumpemproletariado, como descreveu Marx n’O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, é um setor volátil na conjuntura e pode flutuar sob a direção dos mais diversos interesses.

Aqui nesse ponto vale um parênteses sobre a relação da esquerda com as pautas identitárias. Durante décadas, em especial por influência do estalinismo mas não somente, a esquerda não incorporava os debates sobre diferenças e identidades por enxergar que essas pautas dividiam a classe trabalhadora. Esse é um tema complexo e vale com certeza um texto futuro cujo esse seja o foco. No entanto, o que é válido adiantar nessa discussão é que a dificuldade em compreender que as diferenças não dividem a classe mas o que de fato nos divide são as hierarquias entre esses grupos sociais impostas pelo Capital afastaram mais ainda as perspectivas totalizantes do marxismo das lutas travadas na época. Isso nos mostra que a conversão dessas lutas sociais em lutas políticas de esquerda, para que se realize, deverá estar diretamente ligada a um esforço das organizações socialistas em ter política e organizar essas LGBTs para um projeto maior de superação da ordem.

De todo modo, a hipótese central desse ensaio é a de que, ainda que nos dias de hoje quebrar a hegemonia ideológica pequenoburguesa e avançar na organização das LGBTs precárias seja um desafio enorme, o fato é de que essas LGBTs subproletárias são parte fundamental da lógica brutal da extração de mais valia da classe dominante perante o proletariado. Elas sentem na pele a ditadura do capital sobre o trabalho e essa experiência enquanto parte do proletariado faz delas sujeitos políticos com capacidade de dar um salto em direção a um movimento radical e antissistêmico que coloque de fato o sistema em cheque. Portanto, ainda que seja mais difícil nos dias de hoje explodir algo como a rebelião de Stonewall, uma massa LGBT subproletarizada, por conta de sua condição proletária, tem condições de dar o salto da transformação da luta social em luta política, e contribuir, a partir de um prisma LGBT, para colocar o regime capitalista em cheque, e ser uma das muitas faíscas que podem botar fogo na ordem burguesa de conjunto. Essa é uma difícil tarefa, dado que a tomada de consciência por essas LGBTs precárias não é, por óbvio, natural, e a tarefa de politizar e disputar esse setor de massas é dos socialistas revolucionários e suas organizações.

Se o pessimismo da razão nos alerta, a resposta deverá ser sempre através do otimismo da vontade, combinando teoria marxista e prática revolucionária. É uma batalha dura, mas nunca tão necessária e possível.

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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