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Em memória de Ernest Mandel (1923-1995)

Se vivo, Ernest Mandel completaria 95 anos no dia de hoje. Em sua memória, publicamos obituário escrito no ano de sua morte.

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No dia 20 de julho morreu em Bruxelas, na Bélgica, vítima de um ataque cardíaco, Ernest Mandei, militante socialista e teórico marxista, um dos mais importantes do século.

Nasceu em 5 de abril de 1923, em Frankfurt (Alemanha), de uma família judia. Seu pai, militante do PC alemão, havia emigrado para a Bélgica depois do assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht em 1919. Embora já vivesse em Antuérpia, a mãe de Ernest preferiu Frankfurt, que lhe era mais familiar, para o parto.

Mandel começou sua militância política muito cedo, na luta contra a Segunda Guerra Mundial. Antes de completar 17 anos, ingressou na IV Internacional, fundada menos de dois anos antes por iniciativa de Leon Trotsky. Durante a ocupação nazista, foi preso três vezes, e por duas vezes conseguiu fugir. Depois da guerra, participou da reorganização da IV Internacional; quando ela se dividiu, foi um dos principais dirigentes do Secretariado Unificado até sua morte.

Mandel reuniu várias das melhores características do movimento operário do início do século: internacionalista (desde que veio ao mundo, aliás: de nacionalidade belga, nascido na Alemanha), poliglota, dono de uma cultura ampla. Escreveu muito, sobre uma grande variedade de temas.

No terreno da economia, algumas de suas obras estão entre as mais importantes do marxismo. O Tratado de economia marxista, que lhe custou dez anos de trabalho, foi publicado em francês, em 1962, e difundido em várias línguas. Procurou confrontar a economia marxista com os conhecimentos históricos e econômicos acumulados fora do campo marxista, e provar a partir daí sua atualidade e sua capacidade de compreender os problemas correntes.

A renovação do pensamento econômico marxista serviria de base para um grande desafio: o de explicar o capitalismo do pós-Segunda Guerra. Antes dela, este sistema tinha passado por um período de crise e depressão; a maioria dos marxistas acreditava que ele vivia uma crise agônica. Nos anos 50 e 60, ocorreu o contrário: o capitalismo, recorrendo às políticas keynesianas e permitindo o desenvolvimento do “Estado do bemestar”, parecia ter adquirido um vigor inesgotável, e conseguido superar muitas das suas contradições; dizia-se que tinham sido desmentidas teses fundamentais de Marx como a de que a “lei geral da acumulação capitalista” é acumulação de riqueza em um pólo e de miséria no outro.

Após muitos artigos em torno do tema do “neocapitalismo”, Mandel chegou a O capitalismo tardio (primeira edição em alemão em 1972, publicado no Brasil na coleção “Os Economistas”, da Editora Abril! Nova Cultural), talvez sua obra teórica mais importante. Retoma aí a teoria das “ondas longas” na economia capitalista. Além disso, associa-lhe a “lei da tendência decrescente da taxa de lucros” marxista, e procura mostrar que há uma assimetria básica nas “ondas longas”. A lógica interna da própria economia (mundial) explica o esgotamento de uma “onda longa expansiva”, e pode explicar a natureza acumulativa de cada “onda longa”, uma vez iniciada. Mas a passagem de uma “onda longa recessiva” a uma “expansiva” depende de fatores externos, exógenos, sobretudo políticos.

Esta análise lhe deu base não apenas para explicar a expansão capitalista do pós-Segunda Guerra (a partir de um grande aumento na taxa de mais-valia, resultado das grandes derrotas da classe operária nos anos 30 e 40 – fascismo, Segunda Guerra, Guerra Fria), como para prever o esgotamento desta fase. Isto logo viria a se confirmar, particularmente com as recessões generalizadas da economia mundial em 1974-75 e 1981-82.

Por outro lado, Mandei pôde afirmar também que não haveria retomada automática do crescimento. Que, além de inovações que elevassem a produtividade e abrissem novos mercados, um revigoramento do capitalismo dependeria também da imposição de grandes derrotas aos trabalhadores, que possibilitassem o aumento da taxa de mais valia.

A questão das condições da expansão capitalista e dos seus ritmos certamente é polêmica. Mas não pode haver dúvida de que os anos 80 e 90 têm sido marcados por grandes ataques contra os trabalhadores: contra os sindicatos, contra o nível de emprego, contra os gastos públicos de caráter social etc. A burguesia tem apresentado tudo isto como uma necessidade para a retomada do crescimento econômico “sadio” (sic). Mas até agora o crescimento continua medíocre, mesmo o capitalismo tendo sido beneficiado ainda pelo desmoronamento do antigo campo socialista. Mandel acreditava que as condições políticas para uma nova “onda longa expansiva” ainda não estão dadas, e que a ofensiva conservadora da burguesia continuará. Com o neoliberalismo, a “lei geral da acumulação capitalista” de Marx continua mais válida do que nunca.

Os outros livros mais importantes de Mandel no campo econômico são A formação do pensamento econômico de Karl Marx, publicado em francês em 1967 (teve uma edição brasileira, pela Zahar), As ondas longas no desenvolvimento capitalista, publicado inicialmente em inglês, em 1980, e a reunião de artigos analisando a evolução econômica mundial nos anos 70 e 80 (no Brasil, A crise do capital, da Editora Ensaio! Editora da Unicamp, 1990).

Outra linha fundamental de trabalho de Mandel foi a da crítica aos regimes burocráticos, da análise do mal chamado “campo socialista” e das questões teóricas envolvidas no processo de construção do socialismo. Foram inúmeros os artigos nos quais Mandel tratou da história da revolução russa e da URSS, do problema da burocratização no movimento operário, da relação entre planejamento e mercado, da possibilidade de um planejamento democrático, autogestionário etc. Um dos seus últimos livros, Poder e dinheiro, publicado em inglês, em 1993 (Verso), trata destas questões.

Mandel escreveu muito sobre Trotsky, procurando mostrar a importância de suas contribuições ao marxismo e ao desenvolvimento de um novo projeto socialista, revolucionário e democrático. Seu último trabalho de fôlego, publicado originalmente em alemão, Trotsky como alternativa, acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Xamã.

Mandel defendia a necessidade da construção de uma nova alternativa internacional, a partir da confluência de diversas correntes teóricas e políticas, num marco de unidade e pluralismo. Seria preciso combinar raízes no marxismo clássico com a integração em um corpo político coerente da experiência das diversas lutas revolucionárias, das variadas concepções teóricas associadas a elas, das novas linhas de pesquisa voltadas para a emancipação humana. Assim, desde o início da construção do Partido dos Trabalhadores, Mandel se identificou com ele, acreditando que o PT poderia ser um agente importante na construção deste novo projeto socialista1. Da mesma forma, projetos de renovação teórica crítica e pluralista do marxismo, como o da revista Crítica Marxista, mereciam todo o seu apoio.

Mandel morreu convencido da necessidade do socialismo para o progresso da humanidade. Sabia que seu triunfo não é inevitável, que a opção está entre o socialismo ou a barbárie, cuja ameaça é mais real do que nunca. Mas a correlação de forças desfavoráveis às forças de pesquerda nos últimos anos não o fez perder seu otimismo: não há tampouco nenhum determinismo derrotista, as contradições do capitalismo estão mais fortes do que nunca, e a bandeira da esperança continua nas mãos dos militantes socialistas.

Artigo originalmente publicado na revista Crítica Marxista em edição de 1995.


Nota do editor

Deve-se levar em conta que o texto foi escrito em 1995. 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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