Zuckerberg/Assange, espelho quebrado
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Zuckerberg/Assange, espelho quebrado

Análise sobre a ida do presidente do Facebook ao Congresso estadunidense e a atual situação do ativista australiano.

Israel Dutra e Tiago Madeira 14 abr 2018, 13:04

Entre terça e quarta-feira, o bilionário Mark Zuckerberg, fundador e diretor executivo do Facebook, foi interrogado pelo Congresso americano durante 10 horas.

Julian Assange, o editor do WikiLeaks que tem dois livros publicados sobre vigilância e privacidade na Internet, não pôde opinar sobre o depoimento. Está preso na embaixada do Equador em Londres sem acesso a Internet, telefone e visitas desde o dia 27 de março.

Zuckerberg aceitou responder perguntas dos legisladores americanos depois de uma das maiores crises da história do Facebook. O escândalo da Cambridge Analytica e sua relação com a campanha presidencial vitoriosa de Trump fez com que as ações do Facebook despencassem nas últimas semanas e impulsionou o debate sobre ser preciso haver algum controle sobre os dados pessoais e as empresas que os coletam.

Privatização do espaço privado

O Facebook é usado por mais de 2,2 bilhões de pessoas ao redor do mundo; o WhatsApp, comprado por ele em 2014, por 1,5 bilhões; o Instagram, comprado por ele em 2012, por 800 milhões. Tais plataformas de comunicação têm grande importância na vida das pessoas. Entretanto, o Facebook não é enquadrado como um serviço de telecomunicações ou uma empresa de mídia. E ao se apresentar como empresa de tecnologia, fica livre de qualquer tipo de regulação.

Essa liberdade não é particular ao Facebook. No geral, as grandes corporações do Vale do Silício são autorizadas, pela sua estética inovadora e libertária, a guardarem seus bilhões de dólares em paraísos fiscais (como a Apple) ou a fazerem lobby pesado para entrar em cidades do mundo inteiro destruindo concorrentes e funcionando à margem da lei (como o Uber).

Para justificar essas ações, seus discursos repetem ad infinitum histórias de sucesso de pequenas empresas que foram fundadas em garagens e dormitórios de faculdades – tal narrativa foi a tônica do discurso de Mark Zuckerberg. Isso faz parecer que regular tais empresas torna-se também combater a inovação, a meritocracia e o sonho americano.

Se por um lado o Vale do Silício é o bastião da liberdade, por outro seu modelo de negócios atualmente é coletar e vender dados pessoais de bilhões de pessoas. Trata-se portanto do oposto do lema de WikiLeaks. No lugar de “transparência para os poderosos e privacidade para as pessoas comuns” temos liberdade para os poderosos e controle sobre as pessoas comuns.

O depoimento de Zuckerberg assumiu que existe em curso uma verdadeira “privatização do espaço privado”. A liberdade das empresas de comunicação de massas, na sua versão contemporânea, é a liberdade de coleta e cruzamento de dados privados da ampla maioria da população mundial.

A disputa pela informação é uma pesada guerra. Vale muito a informação recolhida da privacidade para turbinar os lucros das grandes empresas, chegando a novas modalidades de circulação “seletiva” da mercadoria, em escala de massas. No novo círculo do mercado de informação, a informação é mercadoria que faz valorizar mais mercadorias.

Liberdade para Assange

Do outro lado da guerra da informação encontra-se Julian Assange, confinado desde 2012 na pequena embaixada do Equador em Londres. O editor do WikiLeaks denunciou brutalidades nas guerras do Afeganistão e do Iraque, crimes diplomáticos e outros documentos de interesse público. Tal exercício de jornalismo fez da plataforma um importante ator da geopolítica.

Há pouco mais de duas semanas, o governo do Equador cortou o acesso de Assange à Internet, argumentando que ele violou sua promessa de se abster de comentar questões políticas. Cortou ainda seu telefone e não permite que receba visitas.

O governo equatoriano argumenta que os comentários de Assange poderiam comprometer as relações da nação latino-americana com outros países, especialmente na Europa. Sua ação foi tomada depois de uma série de tuítes de Assange em que ele denunciava a prisão do presidente catalão Carles Puigdemont na Alemanha.

Devemos nos somar aos intelectuais que lançaram uma carta aberta ao governo do Equador pedindo que reconectem o editor do WikiLeaks. “Fica claro agora que o caso de Julian Assange nunca foi somente uma questão jurídica, mas uma luta pela proteção dos direitos humanos básicos”, a carta diz. Ela foi assinada por figuras como Noam Chomsky e Slavoj Zizek, assim como pelo músico Brian Eno, o cineasta Oliver Stone, o ex-analista da CIA Ray McGovern, a atriz Pamela Anderson e o ex-ministro de finanças grego Yanis Varoufakis. Como diz a carta, “se o governo equatoriano não cessar sua ação indigna, ele também se tornará um agente de perseguição em vez da valente nação que defendeu a liberdade e a liberdade de expressão”.

Nada será como antes

A crise com o Facebook é um tema mundial e o depoimento de Mark Zuckerberg foi o principal fato político da semana. Isso coloca na ordem do dia a tarefa de construir uma agenda pela democratização das mídias e redes sociais. Isso significa resistir com Assange, mas avançar também no terreno da esquerda, do ponto de vista programático. As novas condições da comunicação colocam novas agendas e bandeiras de luta.

Combater a visão liberal dos grandes capitalistas e seus aparalhos ideológicos é uma necessidade que se renova. Precisamos assentar as bases para utilizar as ferramentas de transmissão de dados para uma maior transparência nos regimes democráticos, controle público e popular dos governantes e juízes. Uma ampliação dos direitos civis e das liberdades individuais, uma luta prolongada contra a vigilância e o controle de dados das grandes empresas.

O combate à indústria das notícias falsas é outra esfera da ação imediata. A proliferação de calúnias e mentiras no caso Marielle, para ficarmos num exemplo grave e próximo, foi derrotada com uma ampla mobilização da sociedade.

O central é que nada será como antes depois da ida de Mark Zuckerberg ao Capitólio. Nosso desafio e nossa luta se tornaram maiores e mais evidentes.

Artigo originalmente publicado no site do PSOL.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.