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A arriscada aposta de Trump contra o pacto nuclear iraniano

Correspondentes do The New York Times analisam a guinada do presidente Donald Trump e sua política externa ao cancelar o sensível acordo com Teerã.

O presidente Donald Trumo exibe assinatura em memorando presidencial retirando EUA de acordo - Evan Vucci/AP
O presidente Donald Trumo exibe assinatura em memorando presidencial retirando EUA de acordo - Evan Vucci/AP

Para o presidente Donald Trump e dois dos aliados que mais estima —Israel e Arabia Saudita— o problema do acordo nuclear iraniano não era, principalmente, sobre as armas nucleares. O problema era que o acordo legitimou e normalizou o governo clerical iraniano, abriu-o de novo para a economia mundial e para as rendas petroleiras que financiaram suas incursões na Síria e no Iraque, seu programa de mísseis e seu apoio aos grupos terroristas.

Agora, com seu anúncio de retomada das sanções econômicas ao Irã e término do compromisso dos Estados Unidos com a manutenção acordo da era Obama, Trump iniciou um experimento ambicioso e muito arriscado.

Como disse um funcionário europeu de alto escalão: Trump e seus aliados do Oriente Médio estão apostando que podem cortar os meios de subsistência econômica do Irã e com isso poderão “fraturar o regime”. Em teoria, a retirada dos Estados Unidos do acordo poderia permitir ao Irã produzir todo o material nuclear que desejasse, o que fazia cinco anos atrás, quando o mundo temia que estivesse desenvolvendo uma bomba.

A equipe de Trump descarta esse risco: Teerã não tem a fortaleza econômica para enfrentar os Estados Unidos, Israel e os sauditas. Irã sabe que qualquer estratégia para produzir uma arma só daria a Israel e aos Estados Unidos a justificativa para empreender uma ação militar.

Os aliados dos Estados Unidos na Europa advertiram que este enfoque brutal de realpolitk constitui um erro histórico, algo que poderia dar lugar ao confronto e talvez à guerra.

O acordo nuclear foi assinado em julho de 2015 graças aos esforços de John Kerry, o então secretário de Estado estadunidense, e o ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif. A aposta de Obama – o acordo de política exterior que foi uma das principais conquistas de seus oito anos no cargo – era clara. Para Obama, o Irã era um aliado potencialmente mais natural dos Estados Unidos que muitos de seus vizinhos de predomínio sunita, com uma população jovem, educada e de orientação ocidental, cansada de um governo composto por uma teocracia que envelhece.

Segundo argumentaram Obama e Kerry, ao deixar de lado a possibilidade da existência de armas nucleares, com o tempo os dois países poderiam acabar com três décadas de hostilidade e trabalhar em projetos comuns, como a derrota do Estado Islâmico.

Não resultou assim. Ainda que o acordo tenha conseguido retirar 97% do material nuclear do Irã, os conservadores iranianos e seu Exército não estiveram de acordo em cooperar com projetos ocidentais de nenhum tipo.

Meses antes de que Trump resultasse eleito, o Exército iraniano reforçou seu apoio ao presidente Bashar al Assad na Síria, expandiu sua influência no Iraque e respaldou grupos terroristas. Além disso, duplicou o empreendimento de ataques cibernéticos contra alvos no Ocidente e na Arábia Saudita, uma arma que não era coberta pelo acordo nuclear.

Agora, de repente, o mundo parece retroceder para onde estava em 2012: no caminho rumo a um confronto incerto, com “muito poucas provas de que haja um plano b”, como Boris Johnson, ministro das Relações Exteriores britânico, declarou numa visita a Washington.

Os sauditas dizem esta bem com a saída do acordo, haja ou não um plano. Consideram o acordo como uma distração perigosa do problema real de confrontar o Irã na região; os sauditas creem que esse problema somente será resolvido com uma mudança de regime. John R. Bolton, assessor de segurança nacional estadunidense, compartilha dessa opinião.

Israel é um caso mais complicado. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pressionou Trump para que abandonasse um acordo que sempre detestou. No entanto, os mesmos assessores militares e de inteligência de Netanyahu dizem que Israel está muito mais seguro com um Irã sem possibilidades de criar bombas atômicas, em lugar de um que novamente busque fabricar a arma máxima.

A semana passada, numa tentativa de último minuto para convencer Trump de finalizar o acordo com o Irã, Netanyahu deu a conhecer documentos iranianos, roubados de Teerã em janeiro, que provam o que as agências de inteligência ocidentais sabem há muito tempo: há uma década ou inclusive mais, os iranianos trabalhavam arduamente para desenhar uma ogiva nuclear.

A evidência de que o Irã conservava seus desenhos nucleares como proteção para o futuro foi uma descoberta que sugeriu que o Irã não abandonou suas ambições.

“Dado o perigo de que o Irã possa ter a capacidade de desenvolver uma arma para o ano 2030”, quando forem eliminados os limites para o enriquecimento de urânio, “deve abordar-se o tema da suspensão”, comentou o ex-negociador para o Oriente Médio, Dennis Ross, que fez parte do primeiro período do governo Obama, antes de que as negociações relacionadas com o acordo do Irã começassem a tomar forma.

O anúncio de Trump do 8 de maio tem a ver principalmente com uma convicção de que nunca deve se permitir ao Irã acumular suficiente material para fabricar uma bomba. Quando os europeus disseram que seria necessário reabrir as negociações, Trump se opôs e, em contrapartida, decidiu acabar com o acordo por completo.

Essa foi uma resposta característica de Trump, parecida com os dias nos quais derrubava edifícios nova-iorquinos para abrir espaço para sua visão de edifícios que, segundo ele, eram mais majestosos e gloriosos. Entretanto, neste caso, trata-se de alterar o equilíbrio das potências mundiais e debilitar um regime que, segundo os argumentos de Trump desde o começo de sua campanha, precisa acabar.

8 de maio de 2018

Artigo originalmente publicado no The New York Times.

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Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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