Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Emerge uma nova esquerda nos Balcãs

O movimento se afasta tanto dos postulados dos ex-comunistas como da esquerda socialista pós-iugoslava que aceitou neoliberalismo desde os anos 90.

Protesto na cidade croata de Varšavska em 2008 reclama o direito à cidade - Right to the City
Protesto na cidade croata de Varšavska em 2008 reclama o direito à cidade - Right to the City

A presidência búlgara da UE percebeu desde os Balcãs Ocidentais como uma janela de oportunidade para avançar no processo de integração nas instituições europeias. O próprio chanceler federal austríaco, Sebastian Kurz, exigiu antes do início da cúpula dos Balcãs celebrada nesta quinta-feira, dar a esses países “uma perspectiva europeia” para evitar que o aumento da influência russa e turca no político, e chinesa no econômico. Uma das preocupações dos países da região e que, seguramente, será mantida com a presidência austríaca da UE no segundo semestre de 2018. Entretanto, não são poucos os governos que se opõem a impulsionar este processo de ampliação ao colocar as descontinuidades com o restante dos Estados Membros, alegando a falta de convergência destes países em termos econômicos, de liberdades e direitos, assim como os altos índices de corrupção.

Depois do fim das guerras dos Balcãs em meados dos anos 90 e o surgimento de, ao menos, seis estados como conseqüência da dissolução da Iugoslávia, as sociedades destes países enfrentaram um cenário complexo de começar sua reconstrução. A situação de pós-conflito, pós-socialismo, pós-iugoslavismo desde logo não facilitava a tarefa e isso condicionou que o processo de mudança política, econômica, social e institucional se desenvolverá sobre bases neoliberais sustentadas sobre processos de privatização acompanhados de desindustrialização e de grandes lucros para bancos e investidores. Este processo transformador alcançou nos anos 2014/15 um aumento espetacular do desemprego, especialmente o juvenil, chegando este a se situar em algo em torno de 40%, e o mais alarmante, o aumento da dívida externa, especialmente nos casos da Eslovênia e da Croácia, já membros da UE, com cerca de 80% e a Sérvia onde se atingiu a marca de 70%. Se antes era a visão titista da Iugoslávia o que unia a região, hoje podemos dizer que é o desemprego e a precariedade.

A onda de movimentos sociais também teve sua correspondência balcânica e, em alguns casos, colheu algumas conquistas

Desemprego, precariedade, privatizações e corrupção se tornaram o motor de um ciclo de mobilização social que estamos presenciando desde o início da crise econômica no ano de 2008, exatamente o mesmo ciclo que levou às Primaveras Árabes, ao 15N ou ao movimento Occupy Wall Street. Uma onda de movimentos sociais que também teve sua correspondência balcânica e, em alguns casos, obteve algumas conquistas, o que reforçou a dinâmica de interconexão dos protestos no conjunto da região durante este ciclo.

E é neste contexto de mobilização popular quando começa a surgir uma “nova esquerda” balcânica afastada tanto dos postulados dos ex-comunistas como da esquerda socialista pós-iugoslava que havia aceitado, apoiado e posto em marcha sem pestanejar as transformações de corte neoliberal e privatizadoras que tiveram lugar entre 1995 e 2014. Os novos vetores de mobilização desta “nova esquerda” se sustentam sobre três pilares fundamentais: os protestos pela regeneração democrática, a.defesa do “comum” e a mobilização operária.

A mobilização de uma cidadania, anestesiada durante mais de uma década depois das guerras dos 90, pedia regeneração democrática e lutava contra a corrupção política nas ruas de Zagreb (2011), Maribor e Ljubliana (2012). Mas também nos bastiões operários de Tuzla e em outras cidades da Bósnia se pedia “justiça social” (2014), assim como na Macedônia entre 2015 e 2017, que terminaram com a saída do governo do nacionalista conservador Grevski. As prioridades da cidadania começaram a mudar, já não é o problema étnico-nacional, mas a luta contra a pobreza, a corrupção, o desemprego ou a desigualdade a que faz as pessoas saírem nas ruas.

Mas nos Balcãs não só se pede regeneração política, mas também a defesa do comum, o direito à cidade, à natureza e aos serviços públicos contra as privatizações dos mesmos. Cria-se ainda um movimento transnacional em toda a região que luta pela proteção de parques, praças, e contra a gentrificação sob o lema Pravo na Grad (Direito à Cidade). Zagreb, Belgrado, Montenegro, Dubrovnik ou Banja Luka são alguns dos cenários desta mobilização. Em Zagreb pela defesa de praças e ruas; em Banja Luka contra a expropriação do Parque Picin para construir apartamentos.

Também houve protestos em Belgrado, sob o lema Ne da(vi)mo Belgrade (Não afoguem Belgrado), cujos promotores se levantaram contra o projeto Belgrado em frente ao Rio que pretende construir apartamentos de luxo frente ao rio Sava, financiado com fundos do Emirados Árabes. Neste último caso, parte do movimento está por trás da plataforma política cidadã que quer conquistar a prefeitura de Belgrado nas eleições municipais deste ano, inspirando-se em experiências municipalistas como as de Barcelona en Común ou Ahora Madrid.

Mas se em algum movimento cidadão pode-se observar a presença dessa nova esquerda balcânica é no âmbito da luta contra a privatização da educação superior. As ocupações das universidades em Zagreb (2009), Belgrado (2011), Lijbliana (2011) e Macedônia (2014), junto com os protestos estudantis na Bósnia, Montenegro e Kosovo serviram de plataforma para o fortalecimento dessa incipiente “nova esquerda” balcânica.

Porém, o anterior não teria as atuais repercussões dentro do âmbito da política institucional sem a colaboração essencial do movimento operário na região e sua luta contra as privatizações e o modelo econômico neoliberal, do qual a revolta de Tuzla é talvez a luta mais simbólica. A aliança entre estudantes, movimentos urbanos, grupos de esquerda mobilizados e intelectuais e artistas são os que fazem possível que, pouco a pouco, mas cada vez de forma permanente, novas forças políticas de esquerda alcancem resultados eleitorais que eram impensáveis há apenas cinco anos.

Assim, encontramos forças políticas como Vetëvendosje em Kosovo, a Esquerda Sérvia, cujo líder Stefanovic é conhecido como o Tsipras sérvio, a Nova Esquerda na Croácia, Levica na Macedônia ou o partido Montenegro em Positivo. Todas utilizam um discurso político que apresenta questões como o anti-colonialismo, a justiça social, os direitos civis ou o direito à cidade de uma maneira nunca vista antes nos Balcãs e que pouco a pouco vai se disseminando entre as populações. De fato, é possível que pela primeira vez esta esquerda alternativa balcânica consiga ter representação no Parlamento Europeu, tanto pela Croácia quanto pela Eslovênia.

Uma esquerda balcânica que também está explorando espaços de encontro e convergência internacionais e internacionalistas, a nível regional e com outras forças europeias. É o caso do festival Subversive celebrado inicialmente como festival de cinema alternativo e que, 11 edições depois, cresceu, mudou e se consolidou num fórum político de referência que reúne a cada ano ativistas e militantes de distintos grupos desta nova esquerda balcânica junto com figuras da esquerda europeia (Terry Eagleton ou Eric Toussaint, entre outros nesta edição).

Logo, além das grandes declarações formais destes dias sobre os critérios de convergência com as instituições europeias, que a maioria das vezes unicamente remetem ao cumprimento das reformas estruturais neoliberais impostas pela UE, talvez seja o momento de aproveitar os vetores que estão mobilizando as populações, tanto nos Estados membros como nos Balcãs, para estabelecer alianças entre todas as forças sociais e políticas da mudança.

Hoje é essa outra Europa que levam em suas mochilas os que, em cada rincão do continente, lutam nos centros de trabalho e de estudo, nos parlamentos e nos espaços urbanos, a que gera melhores alianças e ações para romper a camisa de força que impõem os tratados europeus aos que vivemos tanto nos Estados Membros como em países candidatos a sê-lo. Pontes que se apoiam em reivindicações comuns e universais de mais democracia , mais justiça social e mais direitos.

18 de maio de 2018.

Artigo originalmente publicado no portal Vientusur.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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