Luta pela Educação de Qualidade
Professores de escolas particulares de São Paulo em assembleia por paralisação - GABRIELA BUENO ZIEBERT/DIVULGAÇÃO/SINPRO-SP

Luta pela Educação de Qualidade

Se há consenso de que a profissão docente é desvalorizada qual argumento poderia legitimar o corte de bolsas de estudo para filhos de professores?

Arthur Medeiros 28 maio 2018, 18:49

Você se tornaria um professor? E se sua filha ou filho escolhesse ser professor, qual seria a sua reação? Muitos não reconhecem, mas ser professor não se resume a dom, vocação, altruismo. Ser professor é um trabalho.

É verdade que muitos desses trabalhadores da educação não conseguem se sustentar com o que recebem, tendo que dar aulas em duas, três, quatro escolas, sendo assim responsáveis anualmente por centenas de alunos. Isso sem contar aqueles inúmeros que além de lecionar fazem bicos, dos mais variados. Temos que nos perguntar quais são as consequências disso. Quem realmente sai perdendo?

Ser professor é uma profissão e não um complemento de outra atividade. Exige uma gigantesca dedicação. E por isso é uma carreira muito singular. Não exatamente por estar constantemente diante de dezenas de jovens em atividades intensas, mas porque uma enorme parte do trabalho acontece fora das salas de aula. Como pode um professor preparar boas atividades, trazer bons materiais atualizados, produzir e corrigir avaliações sem dispor de tempo e de remuneração para isso? O professor não trabalha apenas no recesso que o sindicato dos patrões pretende diminuir. Trabalha o ano todo, todos os dias, finais de semana e férias e praticamente já não recebe por isso.

Se há consenso de que a profissão docente é desvalorizada, tanto econômica quanto socialmente, qual argumento poderia legitimar o corte de bolsas de estudo para filhos de professores? Eles não só não geram custos, como produzem receita com taxas de material, lanche, uniformes, aulas extracurriculares etc. Seria o convívio com filhos de funcionários e bolsistas uma ameaça tão grande? Sem dúvida alguma, para o professor, o corte de bolsa de estudos é uma ameaça a seu orçamento e a sua qualidade de vida familiar.

A toda hora se escuta que a solução para os problemas do país começa pela educação. No entanto, a realidade de trabalho dos professores caminha no sentido da precariazação. Há todo um aparato institucional que compõe uma escola, mas é inegável que o pilar de uma escola é sua equipe de professores. É uma contradição clamar por melhor educação e ao mesmo tempo ser conivente com ações que na prática desmontam-na e a precarizam. Com professores sem condições dignas de trabalho jamais teremos qualidade na educação.

Se a luta agora está sendo travada por professores, auxiliares, funcionários, alunos e famílias da rede particular de ensino, é preciso compreender que trata-se de uma luta pela educação de qualidade. É um sinal de que toda a sociedade precisa se engajar nessa causa, estendendo-se também pelo apoio à luta dos professores da rede pública. Sem a mobilização da sociedade continuaremos ouvindo que a educação deve melhorar, e assistindo, na prática, a sua total desestruturação. Como dizia o sociólogo Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Essa luta é de todos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.