Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Luta pela Educação de Qualidade

Se há consenso de que a profissão docente é desvalorizada qual argumento poderia legitimar o corte de bolsas de estudo para filhos de professores?

Professores de escolas particulares de São Paulo em assembleia por paralisação - GABRIELA BUENO ZIEBERT/DIVULGAÇÃO/SINPRO-SP
Professores de escolas particulares de São Paulo em assembleia por paralisação - GABRIELA BUENO ZIEBERT/DIVULGAÇÃO/SINPRO-SP

Você se tornaria um professor? E se sua filha ou filho escolhesse ser professor, qual seria a sua reação? Muitos não reconhecem, mas ser professor não se resume a dom, vocação, altruismo. Ser professor é um trabalho.

É verdade que muitos desses trabalhadores da educação não conseguem se sustentar com o que recebem, tendo que dar aulas em duas, três, quatro escolas, sendo assim responsáveis anualmente por centenas de alunos. Isso sem contar aqueles inúmeros que além de lecionar fazem bicos, dos mais variados. Temos que nos perguntar quais são as consequências disso. Quem realmente sai perdendo?

Ser professor é uma profissão e não um complemento de outra atividade. Exige uma gigantesca dedicação. E por isso é uma carreira muito singular. Não exatamente por estar constantemente diante de dezenas de jovens em atividades intensas, mas porque uma enorme parte do trabalho acontece fora das salas de aula. Como pode um professor preparar boas atividades, trazer bons materiais atualizados, produzir e corrigir avaliações sem dispor de tempo e de remuneração para isso? O professor não trabalha apenas no recesso que o sindicato dos patrões pretende diminuir. Trabalha o ano todo, todos os dias, finais de semana e férias e praticamente já não recebe por isso.

Se há consenso de que a profissão docente é desvalorizada, tanto econômica quanto socialmente, qual argumento poderia legitimar o corte de bolsas de estudo para filhos de professores? Eles não só não geram custos, como produzem receita com taxas de material, lanche, uniformes, aulas extracurriculares etc. Seria o convívio com filhos de funcionários e bolsistas uma ameaça tão grande? Sem dúvida alguma, para o professor, o corte de bolsa de estudos é uma ameaça a seu orçamento e a sua qualidade de vida familiar.

A toda hora se escuta que a solução para os problemas do país começa pela educação. No entanto, a realidade de trabalho dos professores caminha no sentido da precariazação. Há todo um aparato institucional que compõe uma escola, mas é inegável que o pilar de uma escola é sua equipe de professores. É uma contradição clamar por melhor educação e ao mesmo tempo ser conivente com ações que na prática desmontam-na e a precarizam. Com professores sem condições dignas de trabalho jamais teremos qualidade na educação.

Se a luta agora está sendo travada por professores, auxiliares, funcionários, alunos e famílias da rede particular de ensino, é preciso compreender que trata-se de uma luta pela educação de qualidade. É um sinal de que toda a sociedade precisa se engajar nessa causa, estendendo-se também pelo apoio à luta dos professores da rede pública. Sem a mobilização da sociedade continuaremos ouvindo que a educação deve melhorar, e assistindo, na prática, a sua total desestruturação. Como dizia o sociólogo Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Essa luta é de todos.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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