Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Cem dias sem Marielle Franco

O Rio de Janeiro é uma espécie de cartão postal das contradições principais que assolam o Brasil hoje.

Milhares de pessoas acompanharam fúnebre de Marielle, em março, no Rio - Pablo Vergara
Milhares de pessoas acompanharam fúnebre de Marielle, em março, no Rio - Pablo Vergara

Nesta semana, completaram-se cem dias do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Um crime bárbaro, vil, de caráter político, que chocou toda a sociedade brasileira.

Na noite de 14 de março, após Marielle participar do evento “Mulheres negras movendo estruturas”, seu carro foi seguido pelos criminosos e covardemente crivado de balas. As mortes imediatas de Marielle e Anderson até hoje não foram esclarecidas. Ainda não se sabe quem puxou o gatilho e quem mandou matá-los. Entretanto, o alvo do disparo não deixou lugar a dúvidas. Seu objetivo era silenciar Marielle por sua trajetória, representatividade e por suas ideias. Marielle atuou com Marcelo Freixo nas investigações da CPI das Milícias em 2008. Antes e após ser eleita vereador, em 2016, Marielle lutava pela organização dos moradores das favelas contra a opressão das máfias, do crime organizado e do Estado. Dias antes de morrer, por exemplo, Marielle denunciava a atuação violenta de um batalhão policial contra moradores de comunidades. Marielle era uma expressão das lutas de Junho de 2013: mulher, negra e LGBT, era uma porta-voz da mobilização coletiva para construir um Brasil igualitário e digno. Por tudo isto, rapidamente Marielle Franco tornou-se uma das vozes mais expressivas do programa do PSOL.

A mobilização por justiça para Marielle e Anderson gerou ampla solidariedade nesses cem dias. Em várias capitais brasileiras, atos reuniram dezenas de milhares. Seu rosto estampou muros e bandeiras em nosso país e no exterior. Artistas somaram sua voz à denúncia de seu assassinato. Em manifestações em todo o mundo, na OEA, em outros foros internacionais, o nome de Marielle tornou-se um símbolo da luta por Direitos Humanos.

Até aqui, as investigações apontaram suspeitas contra as milícias que controlam enormes áreas do território da Zona Oeste carioca e de cidades da Baixada Fluminense. Restam, entretanto, muitas incógnitas e, até aqui, as autoridades do Estado não ofereceram nenhuma resposta satisfatória.

Cem dias após a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes, é preciso reforçar a exigência de justiça! Exigimos saber quem matou e quem mandou matar nossa companheira! O que pretendiam aqueles que decidiram calar sua voz

O Rio de Janeiro como cartão postal das contradições principais

O assassinato do menino Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, quando ia para a escola na mesma favela da Maré onde nasceu Marielle, lança luz mais uma vez para a barbárie a que se submetem milhões de habitantes do Rio. Segundo relatos, na operação policial de quarta-feira dia 20, buscando cumprir 23 mandados de prisão, as forças policiais utilizaram helicópteros – os “caveirões voadores” – para disparar tiros a esmo na comunidade. Moradores contaram centenas de marcas de tiros no chão. A família conta que o menino baleado disse que os tiros vieram de blindados da polícia.

Esta nova tragédia mostra como a total ineficácia da intervenção militar de Temer em seu objetivo de conter a escalada da violência no Rio. Muito ao contrário, a intervenção insiste no aprofundamento da violência estatal contra uma população oprimida pelo Estado, por máfias e pelo crime organizado, numa teia que, aliás, ganhou notoriedade pública com a reconstrução da CPI das Milícias realizada no filme “Tropa de Elite 2”.

O Rio de Janeiro sintetiza a falência da Nova República. Neste estado, ainda governado pela quadrilha de Sérgio Cabral, do MDB, fica evidente uma realidade que é nacional: a simbiose entre instituições estatais, tráfico de drogas, milícias e máfias, lavagem de dinheiro e partidos políticos. O MDB do Rio é um dos fiadores das milícias e máfias. Num contexto de grande polarização social e crise econômica, a violência nas cidades brasileiras submete milhões de famílias trabalhadoras ao terror diário, num país em que são assassinadas 65 mil pessoas por ano. Trata-se da faceta mais visível da falência das instituições brasileiras. Os partidos burgueses não apenas não oferecem uma saída para esta tragédia social, como dela se aproveitam para desesperar o povo, oferecer saídas políticas reacionárias, que apenas reforçam sua dominação e para transformar a repressão num negócio bilionário. Não à toa, Temer anuncia mais uma rodada de cortes na Saúde, Educação e Cultura para reforçar seu “fundo de segurança”, destinado não a levar paz às periferias das cidades, mas para criar mais negócios da indústria da repressão, ao mesmo tempo em que policiais convivem com salários rebaixados ou atrasados e com a falta de equipamentos.

Não vamos nos calar: Marielle presente!

Após cem dias da execução de Marielle Franco, repetimos o que afirmou Luciana Genro em artigo publicado semanas atrás:

A luta de Marielle não vai parar. Ela continuará viva em cada lutador e lutadora dos direitos humanos e especialmente na luta das mulheres negras por visibilidade, dignidade e direitos. Exigimos justiça para Marielle e seguiremos exigindo, para ela e para todos os lutadores perseguidos e assassinados por trabalharem para denunciar a omissão do poder público na garantia de uma vida digna à população.

É hora de nos somarmos aos atos em manifestação que ocorrerão em todo o país em memória de Marielle e Anderson, exigindo justiça e honrando seu legado. Insistimos: quem matou e quem mandou matar Marielle?

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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