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Eu estou concorrendo à presidência da Turquia. Da minha cela da prisão

Candidato presidencial do Partido Democrático dos Povos na Turquia escreve artigo a jornal estadunidense explicando a situação do país.

Selahattin Demirtas é cercado por autoridades - Reprodução
Selahattin Demirtas é cercado por autoridades - Reprodução

A Turquia votará nas eleições presidenciais e parlamentares de 24 de junho. Eu sou um dos seis candidatos concorrendo à presidência. Eu estou concorrendo da minha cela da prisão.

Eu estou escrevendo de um presídio de segurança máxima em Edirne, uma cidade a noroeste da Turquia, na fronteira com a Turquia. Eu fui preso há um ano e oito meses quando eu era um membro do parlamento turco e o porta-voz do Partido Democrático dos Povos, conhecido como HDP, no qual seis milhões de pessoas votaram na última eleição.

Meus carcereiros me aprisionaram aqui porque Edirne é longe do meu lar, da minha família e dos meus amigos no sudeste da região curda do país. Minha companheiro de cela é, como eu, um membro eleito do parlamento.

Nos últimos quatro meses, ouvimos o barulho quase incessante de construção. Uma nova prisão enorme está sendo construída ao lado. Um estado de emergência foi imposto na Turquia depois da tentativa fracassada de golpe em 2016, e as prisões existentes estão superlotadas. O direito à livre expressão e reunião foi posto de lado, e o número de pessoas comuns encarceradas está crescendo a cada dia.

O governo turco liderado pelo Partido do Desenvolvimento e Justiça (conhecido como AKP) de Recep Tayyip Erdogan deu as costas aos valores universais da democracia e empurrou o país à beira de uma crise política e econômica.

À exceção do Presidente Erdogan, todos os demais candidatos declararam que eu deveria ser libertado. Eles deixaram de lado as diferenças ideológicas e partiram em minha defesa porque eles sabem que o governo está me detendo para seu próprio benefício político e não por qualquer crime que tenha cometido. Eles compreendem que se eu estiver livre, as chances de vitória do sr. Erdogan nas eleições seriam muito mais escassas. Eles reconhecem que não importa quem vença, o aprisionamento de um candidato presidencial obscurece a legitimidade das eleições.

Eu estou entre as dezenas de milhares de dissidentes que foram atingidos por medidas punitivas normalizadas sob o estado de emergência. Até o momento, o governo iniciou 102 inquéritos e apresentou 34 acusações judiciais contra mim. Se eles conseguirem, eu enfrentarei 183 anos de prisão.

As acusações contra mim dos promotores são baseadas inteiramente em discursos políticos e declarações que eu fiz, caso o judiciário turco não tivesse cedido à pressão do governo e tivesse se resignado aos limites da lei. Meu processo tem sido injusto. Minha prisão foi uma decisão político. Eu permaneço um preso político.

Somente a batalha democrática do povo por sua própria liberdade libertará a Turquia do autoritarismo e do medo, e libertará suas instituições – o judiciário e a imprensa – do controle tutelar do governo.

Eu estou privado do direito de realizar comícios ou de me comunicar diretamente com as pessoas. Os homens e as mulheres do HDP estão fazendo campanha com grande determinação. Eu alcanço vocês e o mundo além dos muros das prisões através de mensagens transmitidas pelos meus advogados. Eu me dirijo ao povo através de contas nas redes sociais que meus assessores ajudam a administrar.

Minha conta no Twitter esteve inativa por um longo tempo depois da minha prisão. Quando os tweets da minha conta começaram a reaparecer novamente em setembro de 2017, guardas da prisão se apressaram em inspecionar minha cela. A busca foi bastante invasiva. Quando eu perguntei o que eles estavam procurando, eles responderam que estavam procurando pela fonte dos meus tweets.

O único dispositivo vagamente sofisticado que eles encontraram na minha cela foi a chaleira elétrica que utilizo para ferver água. Depois de se certificarem que não poderia ter utilizado a chaleira para tweetar, os guardas partiram. Apesar do absurdo do incidente, isso foi muito revelador sobre o medo indescritível que permeia os líderes autoritários quando confrontados com oponentes que perseveram apesar da perseguição. Quão agudo deve ser o medo de Erdogan?

Durante os últimos três anos, o AKP conduziu uma implacável propaganda com a aquiescência da mídia para solapar o Partido Democrático dos Povos ao retratar nossos membros como “colaboradores terroristas”. Ainda assim, nossos eleitores e simpatizantes permaneceram firmes.

No verão de 2015, depois que se rompeu o processo de paz e o conflito armado retornou no sudeste das áreas curdas da Turquia, meu partido através do diálogo fez o seu melhor para evitar o conflito. Poderíamos ter idealizado formas mais efetivas para deter a luta.

Mas tudo mudou depois das eleições de junho de 2015, que viram o partido de Erdogan perder sua maioria parlamentar. O governo insistiu por uma intervenção militar, e o Exército Turco se mobilizou contra a juventude militante curda que havia colocado barricadas em diversos vilarejos e cidades.

Erdogan buscou punir os curdos, que tiraram de seu partido a maioria parlamentar, e consolidar o voto nacionalista. Seu partido venceu as eleições de novembro de 2015 e após isso ele continuou a intensificar o conflito.

As próximas eleições determinarão o futuro da Turquia. É estatisticamente improvável que qualquer candidato que rechace o apoio da população curda da Turquia – por volta de um quinto de seus 81 milhões de habitantes – e suas demandas de paz possa vencer.

Uma regra inerentemente antidemocrática impede que um partido político que não supere os 10 pontos percentuais da votação nacional assuma seus assentos no parlamento. Os mandatos são transferidos para um partido que cruzou essa barreira e possui o segundo maior número de votos nesses assentos.

Nós estamos confiantes de ultrapassar essa cláusula de barreira, mas se nós fracassarmos em atingir 10% dos votos, por volta de 80 de nossos assentos irão para o partido de Erdogan, o que lhe entregaria uma confortável maioria no parlamento e facilitaria ainda mais sua presidência executiva. Na essência, o governo do AKP se assegurará injustamente dos votos de milhões de cidadãos curdos privados de seus direitos.

Erdogan e seu partido AKP estão usando o estado prolongado de emergência e outras medidas clandestinas para garantir que o HDP não atinja 10% dos votos.

Milhares de colégios eleitorais estão sendo retirados do sudeste da região curda, o que forçara eleitores rurais a viajar milhas através de postos de controle militar para registrar seus votos ao invés de poderem votar em seus próprios vilarejos. Um número crescente de seguranças está sendo despachado para os colégios eleitorais da região, o que poderá causar a intimidação de nossos eleitores.

Na última semana, vazou um vídeo de Erdogan se dirigindo aos funcionários de seu partido no qual ele enfatiza a importância do HDP falhar em atingir a cláusula de barreira e pede a eles que marquem os partidários do HDP e “realizem um trabalho especial”.

Turquia agora compreende que a punição coletiva sobre os curdos no sudeste periférico afeta as liberdades e a cultura democrática de todo o nosso país. O que se limitava aos curdos tem se tornado a norma para os oponentes de Erdogan em outros lugares também. A única esperança para um futuro democrático e liberal radica na nossa união para derrotar o regime autoritário.

Artigo originalmente publicado no The New York Times

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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