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G7: Uma morte a ser celebrada

A ideia do G7 foi inventada pelos Estados Unidos como parte de um plano de fazer alianças e acordos.

Escultura sob o nome "Conjunto para a Paz e a Justiça" (1996), de Xavier de Fraissinette, retrata o G7 como aqueles países a salvarem o mundo - Reprodução
Escultura sob o nome "Conjunto para a Paz e a Justiça" (1996), de Xavier de Fraissinette, retrata o G7 como aqueles países a salvarem o mundo - Reprodução

Uma instituição chamada G7 teve seu encontro anual nos dia 12 e 13 de Junho de 2018, em Charlevoix, Quebec, no Canadá. O Presidente Trump compareceu, porém foi embora mais cedo. Devido às grandes divergências entre as partes, a cúpula de seis países negociou com Trump um comunicado conjunto paliativo.

Trump mudou de ideia e se recusou a assinar qualquer tipo de comunicado. A Cúpula então enviou um comunicado que refletia suas próprias visões. Trump se irritou e insultou os líderes.

Estes fatos foram interpretados pela imprensa internacional como um desprezo político tanto de Trump como dos demais líderes da Cúpula. Muitos argumentaram que esta batalha política assinalou o fim do G7 como um ator relevante na política mundial.

Mas o que é, afinal, o G7? Quem o inventou? E por quais motivos? Não há clareza em torno destes temas. O próprio nome da instituição sofreu constantes mudanças, bem como o seu número de participantes. Muitos argumentam que surgiram encontros mais importantes, tais quais o G20 ou G2. Em contraposição ao G7, foi formada a Organização para Cooperação de Xangai, a qual exclui tanto os Estados Unidos como os países do oeste Europeu.

Os primeiros sinais de concepção do G7 remontam à data de surgimento do G7. Isto ocorreu no início da década de 1970. Antes disso, não havia uma instituição na qual os Estados Unidos tinham um papel equivalente aos das demais nações.

É preciso lembrar que, após o fim da Segunda Guerra Mundial e no início da década de 1960, os Estados Unidos se configuraram como o poder hegemônico do mundo. Os Estados Unidos se reuniam com quem bem quisessem, por motivos que lhes fossem convenientes. O propósito dessas reuniões era, em suma, implementar políticas que os Estados Unidos considerassem sábias ou úteis.

Nos meandros da década de 1960, os Estados Unidos não podiam mais atuar desta forma arbitrária. Os acordos unilaterais começavam a ser questionados. Esta foi a evidência do início do declínio do poder hegemônico estadunidense.

Para permanecer no epicentro, os Estados Unidos alteraram sua estratégia. Pensaram em uma maneira de ao menos desacelerar sua queda. Uma das saídas foi oferecer o status de “aliado” a aqueles com grande poder de indústria. Era um trade-off. Em troca a esta “promoção”, os aliados deveriam concordar em limitar o grau em que se afastariam das políticas que os Estados Unidos escolhessem.

Portanto, poderia se argumentar que a ideia do G7 foi inventada pelos Estados Unidos como parte de um plano de fazer alianças e acordos. Por outro lado, um momento chave no desenvolvimento do G7 foi quando houve a primeira reunião entre os seus principais líderes, ao invés de um encontro com figuras menos importantes, como os ministros da Fazenda. A França foi responsável por tal iniciativa – e não os Estados Unidos.

Foi Valéry Giscard d’Estaing, o então presidente da França, quem convocou a primeira reunião entre os líderes em Rambouillet, na França, em 1975. Por que ele pensou ser tão importante uma reunião entre os líderes? Uma explicação possível é que ele viu uma possibilidade de limitar o poder dos Estados Unidos. Confrontado com uma negociação com outros líderes, cada um com a sua prioridade, os Estados Unidos seriam forçados a negociar. E uma vez que todos os líderes tivessem assinado um comunicado conjunto, seria difícil que um deles o repudiasse.

Rambouillet iniciou uma batalha entre os Estados Unidos e diversos poderes Europeus – especificamente a França – sobre todas as grandes questões mundiais. Foi uma batalha em que os Estados Unidos ganharam cada vez menos. Sua primeira derrota foi em 2003, quando, pela primeira vez na História, os Estados Unidos não conseguiram obter a maioria no votação no Conselho de Segurança da ONU sobre a invasão no Iraque. Neste mesmo ano, em Charlevoix, os Estados Unidos foram incapazes de concordar com os demais países em relação a um comunicado banal.

Há, por trás do G7, uma série de intenções e motivações. Mas por que lamentar sobre isso? A luta entre Estados Unidos e demais países pelo poder é basicamente uma luta pela primazia em oprimir as demais nações do mundo. Esses poderes menores seriam melhores se o modo europeu de fazer isso vencesse? Um pequeno animal se importa com qual elefante o pisoteia? Creio que não.

Viva Charlevoix! Trump pode ter feito um favor a todos nós ao destruir esta reminiscência de uma era de dominação ocidental. É evidente que a morte do G7 não significa que a luta por um mundo melhor acabou. Certamente não. Aqueles que apoiam um sistema de exploração e hierarquias irão encontrar uma outra forma de fazê-lo.

Isto me traz de volta ao que é agora minha questão central. Nós estamos em uma crise estrutural do sistema. Está em curso uma batalha sobre qual sistema será o sucessor. Neste momento, tudo é volátil. Cada lado tem suas vitórias e perdas. De certa forma, somos sortudos por Donald Trump ser tão tolo a ponto de golpear seu próprio time. Porém não podemos celebrar, pois Justin Trudeau ou Emmanuel Macron, que têm uma visão mais inteligente de opressão, também estão lutando contra Trump.

Artigo originalmente publicado no site do autor. Tradução de Adria Meira para a Revista Movimento. 

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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