Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“Para nós, era um episódio da revolução”

Em entrevista inédita, o ex-líder estudantil reconstrói os acontecimentos que ajudaram a colocar o Brasil no centro dos acontecimentos de 68.

Vladimir Palmeira discursa durante a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro - Reprodução
Vladimir Palmeira discursa durante a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro - Reprodução

Chegamos ao apartamento de Vladimir Palmeira, no centro do Rio de Janeiro, na hora marcada. Eram 14 horas de uma tarde quente de abril deste ano. Estávamos Inez Rocha, Honório Oliveira, Israel Dutra e eu. Perto da Lapa, o edifício é uma construção antiga, enorme prédio no qual a parte interna tem um amplo corredor em círculo onde os apartamentos localizam-se em sequência e, no centro, um amplo vão em que apenas um muro baixo nos protege. É o próprio Vladimir que nos atende. A alegria do reencontro é grande. Tínhamos nos visto algumas vezes nos últimos anos, mas sempre foram encontros breves, na rua, ou conversas por telefone. Conversa com tempo e pessoalmente fazia muito tempo. Aconteceram entre os anos de 1998 e 2002, quando tive a sorte de trabalhar durante longos períodos com Vladimir, Antônio Neiva, os dirigentes da corrente petista Refazendo.

Na recepção, me chama de gaúcho e trotskista – sempre intercalou um tratamento ou outro – quando não me chama simplesmente de Robaina. A simplicidade proletária do prédio contrasta com a vista ampla e maravilhosa que o apartamento do 14º andar proporciona: a baía da Guanabara.

Vladimir foi deputado federal por mais de um mandato, adquiriu fama e não enriqueceu. Chegou a ganhar na loteria e doou o dinheiro para o partido. Quanta diferença da política tradicional e da burocracia! A conversa foi ótima. Saímos felizes. Vladimir já não tem um partido. Quando trabalhamos juntos ficou evidente que o PT era um partido que tinha falido. Repetimos muitas vezes que a intervenção contra a candidatura a governador de Vladimir em 1998 para impor o apoio do PT a Garotinho antecipou a crise e o colapso do PT. Vladimir também percebeu isso. A crise do PT, especialmente no Rio, mostrava que havia um espaço para ser ocupado por uma nova esquerda. Quando decidimos fundar o PSOL, porém, Vladimir não acompanhou. O crescimento do PSOL conformou a existência desta hipótese. Ainda assim, Vladimir não se somou. Apesar de não ser do PSOL, votou em Tarcisio nas eleições de governador em 2014. E, embora não tenha partido, suas posições mostram que ele tem uma relação de defesa do partido de Marx no sentido amplo. Vladimir, em termos estratégicos, mantém um discurso nos marcos do marxismo.

Nesse sentido, é muito rico seu relato das mobilizações de 68. É visível seu entusiasmo com a defesa do método da mobilização de massas. Vi isso em seus discursos de 98, na sua reivindicação do levante de junho de 2013 e novamente em seu relato de 68 no Brasil e no mundo. Em todos os momentos da entrevista, fica claro seu entusiasmo com o movimento de massas. É um pensamento com o qual compartilhamos, base de nossa camaradagem. Quando neste livro homenageamos o ano de 68, é muito importante lembrar como Trotsky definia a revolução:

“A revolução destrói e derruba a maquinaria do antigo estado. As massas entram em cena decidindo, atuando, legislando de uma maneira sem precedentes; julgam e dão ordens. A essência da revolução é que a própria massa se torna seu próprio órgão executivo” (p. 392 de Stalin). Mas este impulso nem sempre consegue ir até o final. No Brasil de 68, foram apenas alguns indícios. Em 2013, novamente no Brasil os indícios existiram. Na França, eles foram muito mais poderosos. Mas, mesmo na França insurreta, a revolução não se consumou. A eleição e as concessões salariais foram as armas burguesas para conter o processo. Neste ponto, também os ensinamentos de Trotsky nos servem. Ele explicou que os elementos mais ativos das classes participam da luta revolucionária. “Na eleição, a participação se amplia; é estendido para incluir também uma parte considerável da (massa) semi-passiva e semi-indiferente” (p.393 de Stalin).

Por isso, o resultado das eleições é, em geral, muito distorcido, se forem comparados à energia das ruas e manifestações. Por isso, trotskistas, maoístas e anarquistas denunciaram a eleição de De Gaulle, contra o PCF que apoiou o regime burguês. A entrevista de Vladimir vai ajudar a armar aqueles que querem desenvolver a política de emancipação e de ações de massas. Acompanhe a seguir.

I) A massa nas ruas

Israel Dutra – Caro Vladimir, um prazer conversar contigo, olhar com os olhos de hoje e contar para as novas gerações o que aconteceu em 68, além de descrever teu papel político e social. Neste cinquentenário, para início de conversa, eu queria uma apresentação tua sobre o significado desse encontro com a História que tiveste no auge da tua juventude.

Vladimir Palmeira – (Risos) A gente nem pensava muito nisso não. Para nós era um episódio da revolução. Apesar de importante, nós sabíamos que o movimento estudantil era um movimento secundário. Quem tinha força era o movimento sindical e camponês. Então, sentíamos um prazer em ter gente na rua, um movimento, mas tínhamos absoluta certeza das nossas limitações e não pretendíamos liderar ninguém no Rio. A Ação Popular, nossa corrente, era a liderança do movimento, ela queria liderar, mesmo que transitoriamente, o movimento operário-camponês. E nós dizíamos “Não, não”. Em São Paulo, a UNE e o pessoal da AP forçava a barra para falar em assembleia operária. Aqui no Rio, nós sempre fomos convidados pra essas coisas de sindicato e nunca falamos. E esses caras davam apoio simbólico às nossas manifestações, mas respeitando a dinâmica do movimento, que era o mais importante.

O movimento de massas é uma coisa muito boa. É uma força, é um negócio. A massa é uma força notável. Sabia que naqueles conflitos que antecederam a Passeata dos Cem Mil foram cinquenta e cinco soldados presos ou pro hospital? Cinquenta com problemas nervosos! Não é a pancada, é o medo. A massa é um negócio impressionante. Aquilo dá uma energia. Foi um prazer, foi muito bom. Mas também sabíamos que vinha o revertério, que vinha golpe. Enquanto não houvesse movimento operário e campesinato organizado, não se iria ia muito mais adiante. Não sabíamos exatamente o que aconteceria, mas sabíamos que vinha um golpe. Eu e Franklin Martins conversamos bastante com o pai dele, o senador Mario Martins (MDB), homem honesto e decente, e com seu suplente Marcelo Alencar (MDB). Queriam ajeitar a gente para as próximas eleições e tal, para capitalizar o movimento. Nós dizíamos “não vai ter eleição”. E de fato nós estávamos certos. Logo, nossa perspectiva não era imediata.

Nós não refletíamos sobre as mudanças que 68 iria significar. Isso é coisa de velho, depois se faz o balanço, conforme se acompanham as mudanças ao longo da história. Mas ali não se tratava disso. Nós éramos excessivamente leninistas, queríamos fazer a revolução operária e camponesa. Com formas novas e com a massa. Este era o ponto de vista, do meu grupo, a Dissidência Comunista da Guanabara (DI-GB).

Agora, no movimento estudantil tinha de tudo, até direita. Aqui no Rio de Janeiro, a direita participava das entidades estudantis. Nós éramos uma entidade sindical. O movimento estudantil tem alta rotatividade. Na Europa, havia o bloco operário. O avô é operário, o pai é operário, o neto é operário. A memória é mantida pelos sindicatos, pelas instituições, e eventualmente pelos partidos operários. Essa é uma memória permanente. De quem, do estudante? Não! O estudante não é parte da Universidade a longo prazo. Então, isso facilita uma ruptura na memória do movimento. E foi o que aconteceu. Quando se reconstruiu o movimento estudantil em 75-76 eles nem sabiam direito o que era 68. Construíram um movimento estudantil somente político contra a ditadura. Mas nós tínhamos no Rio de Janeiro um movimento de natureza sindical contra a ditadura. Embora a maior parte das lideranças eram pela revolução de uma forma ou de outra, era um movimento de natureza sindical que abarcava todas as frações de pensamentos estudantis contra a ditadura, até mesmo uma direita contra a ditadura. E a ditadura foi se isolando cada vez mais. A amplitude do movimento se deve muito a isso.

Evidentemente, havia muitas diferenças. Nós éramos o pessoal mais à esquerda. O pessoal ligado ao Partidão era mais moderado. Mas nada disso afetou o caminho geral do movimento. Então era um movimento de contestação à ditadura com reivindicações concretas importantes. Por exemplo, a luta pelo ensino público. No Brasil, depois de 1964, a ditadura fez a contrarreforma em todos os aspectos da vida social. Ela fez uma reforma agrária com o Estatuto da Terra: a desapropriação por via de títulos da dívida pública pagáveis. Antes de 64, a desapropriação era à vista. Assim ela perdeu parte do apoio latifundiário. Ela também fez a reforma no sistema financeiro, quase inaugurando um novo sistema financeiro. Fez a reforma do sistema de habitação, com a criação do Banco Nacional de Habitação, presidida pela Sandra Cavalcanti. Com estas mudanças, mudou-se o sistema fiscal. No entanto, quando esta contrarreforma chegou nas Universidades, encontrou resistência. E foi o único setor em que não triunfou totalmente por causa da luta de 68. A ditadura teve que fazer uma curva aí, multiplicando o ensino superior privado, eventualmente de baixa qualidade. Entre a minha prisão, o exílio e a volta do Brasil (1968-1979), o número de estudantes universitários decuplicou.

Este artigo faz parte do livro 50 anos das revoluções de 1968: O início de uma luta prolongada. Para ler este e demais textos, compre a edição especial de n. 9 da Revista Movimento aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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