Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

1968 começou no Vietnã

Sobre a solidariedade dos jovens do mundo com a luta anti-imperialista do Vietnã na ofensiva do Tet em janeiro de 1968.

Repórter presencia batalha durante guerra no Vietnã em Maio de 1968 - Bill Snead/UPI
Repórter presencia batalha durante guerra no Vietnã em Maio de 1968 - Bill Snead/UPI

Em fevereiro de 1968, as forças de libertação lançaram no Vietnã do Sul a ofensiva do Tet1 (ou seja, do Ano Novo). De uma enorme amplitude, desenvolveu-se sobretudo no território sul-vietnamita, incluindo Saigon2. O seu significado internacional foi considerável, reativou o movimento anti-imperialista, o movimento de libertação nacional e acelerou a radicalização da juventude no Japão e nos Estados Unidos, passando pela Europa. Representou uma viragem na guerra e no crescimento da resistência, mesmo no interior do próprio exército norte-americano.

Em 1965 o Vietnã se tornou o epicentro da situação mundial. Os Estados Unidos assumiram o papel dos franceses. Prosseguiram uma escalada militar multifacetada que, ao longo dos anos, foi se tornando cada vez mais mortífera, incluindo o bombardeamento massivo das zonas libertadas no Sul, do Vietnã do Norte, do Laos e, por fim, do Camboja. Washington teve até 500.000 soldados no terreno3 (é notável que a intervenção de 2003 no Iraque nunca contou com mais de 180.000 militares dos EUA). Os gigantescos bombardeiros B52 entraram em ação. O programa Phoenix4 fez mais vítimas do que fazem atualmente os drones. A maior potência mundial mobilizou os seus recursos econômicos e científicos. O conflito abarcou todos os planos, incluindo o social: uma reforma capitalista da agricultura foi lançada em oposição à reforma agrária revolucionária das forças de libertação. Em muitos aspetos, a extrema brutalidade da escalada não tinha precedentes até então e ainda hoje continua a ser uma exceção. Encarna a barbárie imperialista.

Se Washington lançou tais meios em combate foi porque a dimensão daquela guerra ia para além do local. Tratava-se de impor um obstáculo e depois fazer “retroceder” (contain and roll back) a dinâmica revolucionária iniciada no Terceiro Mundo com a vitória da Revolução Chinesa (1949). O objetivo era a restauração da ordem imperialista no mundo, sob a hegemonia dos Estados Unidos.

As raízes da radicalização da juventude nos anos 1960 foram diversas. Na França, o regime gaullista, saído de um golpe de Estado, tornou-se insuportável (“10 anos, basta”), assim como a liderança moral com fortes traços católicos. À medida que os estudantes de origem popular começaram a chegar à universidade, emergiram novas tensões sociais. O ano 1968 apresentou traços diferentes em cada país. No entanto, a mobilização contra a escalada imperialista no Vietnã constitui um elemento aglutinador, um traço de identidade partilhado, uma marca essencial em numerosos países. Naturalmente, tudo isso não teve uma dimensão tão ampla, pelo menos em grande escala, nos regimes ditatoriais ou na Europa Oriental.

Momento necessário

No Vietnã, a decisão de desencadear uma ofensiva com a amplitude do Tet não era uma necessidade evidente e provocou intensos debates na direção do partido comunista. Por fim, a opção tomada foi a de uma ofensiva em todas as direções, constante, que pudesse (objetivo máximo) abrir a via a levantamentos insurrecionais ou (objetivo mínimo) que mudasse o curso da guerra, especialmente graças ao seu impacto mundial. A cidade de Hué (capital do centro do Vietnã) resistiu 26 dias antes de ser reconquistada pelas forças dos EUA às custas de sua destruição. O ataque à gigantesca base militar de Khe Sanh por divisões do Exército Popular durou 77 dias (começou em 21 de janeiro e se constituiu num elemento de diversão, a fim de encobrir os preparativos da ofensiva do Tet propriamente dito). Os combates atingiram o centro de Saigon (incluindo a embaixada dos Estados Unidos) e prolongaram-se durante muito tempo nos subúrbios populares.

Durante a ofensiva do Tet foram usadas todos os tipos de ação de uma guerra popular: operações de guerrilha, levantes, intervenção do exército regular (baseado inicialmente no Norte)… Apareceram muitos problemas novos: como organizar num tal confronto as populações desestruturadas refugiadas nos subúrbios de Saigon? Como protegê-las de forma duradoura perante uma contraofensiva mortífera e absolutamente indiferente às perdas civis?

O governo norte-americano, ainda que tenha sido apanhado de surpresa inicialmente, mobilizou rapidamente o seu aparato militar enorme, assim como as redes e as forças do regime de Saigon para contrabalançar a ofensiva do Tet. O movimento revolucionário do Vietnã pagou caro pela ofensiva do Tet. Em particular, a infraestrutura política e militante da Frente Nacional de Libertação (FLN), que se expôs e foi golpeada severamente; a amplitude das perdas sofridas em quadros no Sul teve consequências a longo prazo.

Em 1968, a direção vietnamita foi confrontada por um verdadeiro dilema. Era necessário mudar o curso da guerra, pois de outro modo a escalada militar norte-americana poderia ter continuado sem limites: Por exemplo, podia até bombardear em massa os diques no delta do Rio Vermelho, o que teria provocado a inundação de uma vasta região densamente povoada. Atuar sem demora e de uma forma decisiva era ainda mais imperativo porque o conflito sino-soviético atingia o auge e a China estava mergulhada no tumulto da chamada Revolução Cultural. O Vietnã ainda recebia ajuda material e militar fornecida por Moscovo e Pequim, mas até quando?

Mais do que um “momento favorável”, fevereiro de 1968 foi um “momento necessário”. Desencadear uma ofensiva espetacular, mas pontual (com as unidades se retirando rapidamente após os ataques simultâneos no conjunto do território) teria tido custos menores; porém talvez não tivesse mudado o curso da guerra. Lançar de forma duradoura tantas forças em combate, era uma aposta muito arriscada – e o custo foi considerável –, mas o curso da guerra mudou.

Eletrochoque

A ofensiva do Tet provocou um eletrochoque nos Estados Unidos e no mundo. Pôs a nu muitas mentiras de Washington. Mostrou que esta guerra não era nem “democrática”, nem estava ganha, mas era terrível, bárbara, e estava bloqueada. Dividia a burguesia dos EUA, porque o seu custo econômico se tornava insustentável. As universidades explodiram. Os protestos dos soldados norte-americanos tomaram uma forma coletiva. A palavra de ordem de “retirada imediata” das tropas tornou-se popular. Mais do que nunca, a população negra se reconheceu na luta de emancipação vietnamita : “Não quero ir ao Vietnã, porque o Vietnã é onde eu estou. Eu não irei!”

Artigo publicado em português pelo portal Esquerda.net.


Notas

1 Trata-se da ofensiva das Forças de Libertação do Vietnã desenvolvida em três fases, iniciada em 30 de janeiro de 1968. O nome Tet se refere ao primeiro dia do Ano Novo no calendário lunar tradicional usado no Vietnã.

2 Atualmente, cidade de Ho Chi Min.

3 Mais de 3 milhões de norte-americanos serviram na Guerra do Vietnã.

4 O Programa Phoenix foi criado pela CIA e estava orientado para identificar e neutralizar a infraestrutura civil da insurreição.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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