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Vitória sadrista no Iraque: vitória para quem?

Sociólogo analisa as eleições que inesperadamente deram vitória a Muqtada al-Sadr no pleito legislativo

O líder xiita Muqtada al-Sadr - Reprodução
O líder xiita Muqtada al-Sadr - Reprodução

Em 12 de maio de 2018, o eleitorado de Muqtada al-Sadr inesperadamente ganhou uma maioria nas eleições legislativas iraquianas. Este fato sacudiu por completo a situação política do Oriente Médio; foi recebido em outros países com expressões de surpresa e consternação, e foi notável o paralelo entre as reações dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Irã.

Não obstante, não há boas razões para se surpreender e menos razões para se consternar. A vitória de Muqtada al-Sadr não deveria significar uma surpresa real, dado que ela já vem se processando há algum tempo. Há menos razão ainda para se consternar, pelo menos para as pessoas que deseja ver um resultado progressista no turbilhão político da região. Algumas reações foram surpreendentes. A revista Time chegou a fazer a bizarra sugestão de que Muqtada al-Sadr é a “versão iraquiana de Trump”.

A última vez que discuti a situação política iraquiana foi em meu comentário de 4 de julho de 2017, que intitulei “Dois cenários que a médio prazo concorrem no Iraque”. Neste, argumentava que a expansão do Estado Islâmico (ISIS), que naquele então estava em seu auge, estava a ponto de chegar a seus limites. Nesse ponto, a questão que enfrentava o Iraque era escolher entre dois caminho radicalmente diferentes para assumir a situação posterior ao ISIS. Chegamos a esse momento agora.

Um caminho era o da separação pseudo-étnica (seja de fato, seja de direito) em três estados: um Estado “xiita” localizado ao centro e a sudeste, um Estado “curdo” a nordeste e um Estado “sunita” a oeste. Ponho seus nomes entre aspas, evidentemente, porque cada região em realidade seria multiétnica apesar do acelerado expurgo étnico, ainda que fosse dominada por um dos grupos.

Esta tipo de divisão de um Estado em três no passado transformou estados relativamente poderosos e ricos em zonas muito mais pobres e geopoliticamente muito mais frágeis. Temos exemplos recentes na Iugoslávia e na Líbia para constatar o que resulta de um cenário deste tipo. Podemos entender com facilidade por que os Estados Unidos e os estados da Europa ocidental poderiam receber este resultado como algo desejável. Também poderia atrair líderes pseudo-étnicos nas três zonas.

O caminho alternativo, que há muito vem impulsionando Muqtada al-Sadr com bastante força, seria criar uma aliança de grupos nas três regiões pseudoétnicas, assim como forças pan-iraquianas laicas. Esta última se refere em particular ao Partido Comunista Iraquiana, que historicamente teve uma base significativa de organização apesar da séria repressão sofrida. A política unificadora desta aliança viria a ser o nacionalismo iraquiano. Seu programa estaria dirigido primordialmente entre Estados Unidos e outras potências “imperialistas”. Num plano secundário se dirigiria contra as pretensões iranianas de controlar um governo iraquiano dominado pelos xiitas, baseado na primazia do aiatolá Khamenei e seus sucessores.

A primordial oposição aos Estados Unidos foi contínua desde a invasão estadunidense de 2003, contra a qual Muqtada al-Sadr lutou com ferocidade. É a relação com o Irã o que é mais complicado.

A comunidade xiita no Iraque está profundamente partida em três diferentes modos que não se sobrepõem do todo. O primeiro destes pode ser chamado a existência de dois clãs rivais. Dado que estes clãs traçam sua genealogia muito atrás e seguem existindo, é mais fácil defini-los por dois de seus líderes mais famosos.

Um é o grande aiatolá Mohammad al-Sadeqh al-Sadr. Foi iraquiano por nacionalidade e sua base organizativa estava em Bagdá. Depois do fim da Guerra do Golfo, prosseguiu suas atividades de rebelião contra Saddam Hussein e suas políticas laicas. Foi assassinado em 1999, e a maioria do povo pensa que nas mãos de agentes de Saddam Hussein (que sempre negou). Muqtada al-Sadr é seu filho.

O outro clã foi encabeçado nesse tempo, e ainda é assim, pelo grande aiatolá Ali al-Sistani, iraniano de nacionalidade, mas residente em Najaf, onde é o clérigo principal na mesquita do imã Ali, muito importante santuário em tal cidade. Ali al-Sistani tem relações menos hostis com Saddam Hussein, e ligas próximas com a coletividade de clérigos em Qom, Irã.

Uma segunda brecha é aquela da classe. O clã de Sadeqh al-Sadr foi especialmente forte nas zonas de Bagdá (e em outras partes) onde vivem os xiitas mais pobres. Ele foi o paladino de suas demandas em prol da melhor alocação dos incentivos materiais, em oposição aos setores da classe média local, que tendia a respaldar Ali al-Sistani.

A terceira brecha, menos mencionada na atualidade mas sempre presente, é a concorrência entre Najaf, no Iraque, e Qom, no Irã. Diz-se que Najaf tem uma melhor argumentação sobre a primazia religiosa xiita para estes porque é o lugar do túmulo de Ali. Contudo, a revolução iraniana resultou no fortalecimento da reivindicação da primazia de Qom.

Há uma contradição entre o controle de Ali al-Sistani da mesquita do imã Ali e suas ligas próximas (poderia se dizer sua subordinação) com os clérigos de Qom. A vitória sadrista nas eleições foi uma retribuição devida a esta coalizão. Seu eleitorado obteve mais votos que a lista de Ali al-Sistani, apesar do respaldo iraniano. A lista do presente primeiro-ministro, Haider al-Abadi, que conta com o respaldo dos Estados Unidos, ficou em terceiro lugar.

Precisamos ver se Muqtada al-Sadr é capaz de sustentar este nível de respaldo nos próximos anos. Pode-se esperar um muito vigoroso esforço tanto do Irã como dos Estados Unidos por minar sua força. Ser o portador de critérios nacionalistas num país que tem tais dificuldades econômicas e culturais, por outro lado, é uma postura política poderosa.

Fonte: http://www.jornada.unam.mx/2018/06/04/opinion/024a2pol

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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