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A realpolitik papal não começou ontem

A maneira que Francisco abordou o escândalo de pedofilia no Chile faz lembrar o pragmatismo de Leão IX ao tratar o comércio dos encargos eclesiásticos.

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A atualidade densa das últimas semanas fez quase passar desapercebido um evento raro na Igreja católica: a demissão, em 18 de maio, de todos os bispos chilenos, acusados de abuso sexual, mas também de poder e de autoridade a partir de um relatório encomendado pelo papa.

Até então recuado sobre o que poderíamos esperar dele na luta contra a pedofilia, o papa começou a agir, mas sua resposta à demissão coletiva permanece muito limitada: três demissões foram aceitas. Um episódio distante, conhecido como “reforma gregoriana”, poderia ajudar a clarear essa decisão e recolocar em uma maior escala de tempo os problemas de gestão da sexualidade dos cleros – e não somente o da pedofilia – que a Igreja precisa hoje enfrentar.

Simonia e nicolaísmo

Essa reforma, que deve seu nome ao papa Gregório VII (1073-1085), começou de fato à época de Leão IX (1049-1054) que, durante um conselho ocorrido em Latrão em 1049, decidiu proibir o que ele considerava como os dois principais maus da Igreja. O primeiro era a simonia, o fato de vender ou comprar encargos ou sacramentos eclesiásticos, e o segundo o nicolaismo, o casamento ou concubinato dos cleros.

Na Igreja cristã, é com efeito proibido de se casar a partir das ordens superiores, ou a assim que se é ordenado subdiácono. Entretanto, até essa reforma, a aplicação da regra era muito desigual. Em Bizâncio, bastava aos padres se casarem antes de serem ordenados subdiáconos para poder permanecer com suas esposas. As duas proibições de 1049 convergiam em direção a um só objetivo, o celibato era apenas uma das ferramentas para preveni-lo: tratava-se de fornecer à Igreja uma autonomia em relação aos laicos os quais ela nunca havia beneficiado. Para isso, era preciso impor a ideia de que os laicos e os cleros eram separados em seu modo de vida e que o funcionamento da Igreja deveria revelar unicamente estes últimos.

No primeiro momento, Leão IX se concentrou na simonia. Seus conselheiros lhe fizeram prever um problema de escala: sendo todos os bispos afetados diretamente por ela, persegui-los dentro da Igreja privaria a instituição de todos os seus quadros, exatamente o que ocorreria caso o papa Francisco tivesse aceitado a demissão de todos os bispos chilenos. O compromisso encontrado à época foi tão decepcionante como o de hoje: o papa destituiu alguns bispos simoníacos e os outros tiveram quarenta dias de penitencia antes de poderem ser reordenados. Conjugava-se, assim, condenação oficial e realpolitik.

Programa gregoriano.

Gregório VII decidiu em seguida suavizar todos os aspectos da reforma, o que relançou a luta contra o nicolaísmo, que permanecia muito branda até então. Quando, em 1074, ele enviou seus legados a campo, eles encontraram reações que foram bem resumidas pelo cronista Lambert de Hersfeld : “Ele queria forçar os homens a viver como anjos e, se opondo às leis ordinárias da natureza, favorecia apenas o deboche. Se ele persistisse com seu sentimento, eles prefeririam abandonar o sacerdócio que o casamento, e veriam então se os anjos viriam ocupar as funções eclesiásticas”.

Em Paris, os cleros declaram que as ordens do papa eram absurdas e que não podiam se conformar a elas. O abade Gautier de Pontoise, que defendia o papa, foi linchado.

Os cleros medievais eram conscientes que os homens adultos detêm uma sexualidade e que sua repressão poderia dar lugar a maus mais graves que aqueles cuja Igreja tentava se proteger. O programa gregoriano permitiu o fortalecimento da instituição e sua disciplina sexual causou tantos problemas que ela foi durante muito tempo aplicada de maneira comedida.

Poderíamos pensar que esse episódio está na origem dos problemas atuais da Igreja, mas ele mostra primeiramente a grande capacidade que ela tinha de se transformar radicalmente para se adaptar às evoluções do contexto social. Era uma de suas principais forças, e que parece ter se dissipado ao longo do tempo.

Artigo originalmente publicado no Le Monde. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento. 

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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