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Eleição histórica no México

A vitória eleitora de Andrés Manuel López Obrador expressa a fúria popular contra um regime oligárquico corrupto

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O aplastante trunfo eleitoral do Andrés Manuel López Obrador (AMLO) -nada menos que 53 por cento da votação, maioria nas câmaras de deputados e senadores, pelo menos cinco de nove governos estaduais em jogo e um grande número de congressos estatais, prefeituras e vereadores-, expressa a fúria popular contra um regime oligárquico corrupto, pela insegurança produto da infernal guerra interna, supostamente, em contra do crime organizado e a desigualdade social.

De fato, estas eleições se transformaram em um grande plebiscito nacional contra as políticas neoliberais e de um regime político em decomposição.

Os dois partidos burgueses tradicionais –Partido Revolucionário Institucional, Partido Ação Nacional e seu sócio menor a Partido da Revolução Democrática-, receberam um golpe contundente e humilhante. Ricardo Anaya, candidato da coalizão PÃO-PRD-Movimento Cidadão, recebeu ao redor de 22.52% e José Antonio Meade, candidato do PRI e dois partidos satélites, ronda o 16%. Estes partidos, desgastados por fortes enfrentamentos entre o PRI e o PAN, certamente confrontarão novas divisões internas, rupturas e um maior descrédito. A classe dominante está ante um forte dilema: tentar refundar desprestigiados instrumentos de dominação ou inventar outros.

Intensa divisão nas elites

Esta divisão dos partidos da direita, e ao interior deles, é um reflexo de grandes conflitos existentes ao seio da oligarquia. O conflito mais forte o desatou da partilha das reformas neoliberais realizadas pelo governo do Enrique Penha Neto, entre elas a privatização da indústria petroleira, mas também existem contradições entre os setores mais ligados ao mercado interno com os grandes grupos exportadores e inclusive por seu descontentamento pelo alto grau de corrupção do atual grupo governante. Esta divisão burguesa foi o caldo de cultivo que propiciou o apoio de um setor empresarial à candidatura do AMLO e que o resto se resigne a aceitá-lo como o mal menor.

O grande poder oligárquico perdeu uma batalha, mas não a guerra. Viram-se obrigados a respeitar a vontade popular porque sabem que não lhes alcançava para a fraude e menos queriam despertar ao tigre desconhecendo ou violentando o processo eleitoral.

Sabem que perder o poder Executivo e o Legislativo, não é perder todo o Poder. Ainda contam com o controle dos altos mandos das forças armadas, o poder Judicial (sobre tudo de uma Suprema Corte de Justiça disposta a defender a “legitimidade” das reformas neoliberais), a alta burocracia de carreira em todos os ministérios, os aparelhos corporativos, a Igreja, os meios de comunicação e, sobre tudo, de um enorme poder econômico.

Em um princípio a oligarquia tentará congraçar-se com o novo governo, cortejará-o e inclusive estarão dispostos a trocar um pouco para que nada troque, infiltrarão (já o têm feito) ao nova partido no poder e ao gabinete presidencial para conter, de dentro, qualquer esforço de mudança verdadeira que afete seus interesses e, se tudo isto falha, impulsionarão uma guerra mediática e inclusive a ameaça golpista.

O pragmatismo eleitoral que levou ao AMLO a pactuar com partidos de direita como a Partida Encontro Social (PS) ou abrir candidaturas e portas de Morena a fugitivos do PRI, PÃO E PRD, serviram-lhe para vencer ao centenário aparelho de dominação priísta, mas é completamente equivocado pensar que, por este caminho se pode obter uma autêntica transição à democracia. Há objetivos, como investigar e castigar a enorme corrupção no Pemex ou auditar a dívida pública, completamente inaceitáveis para a oligarquia e não existe outra alternativa que apelar à mobilização popular para alcançá-los.

Possibilidades e limites do novo regime

A diferença da esquerda ultra-esquerdista, que aposta a um logo desgaste do governo do AMLO por descumprir suas promessas de campanha e reverter as reformas neoliberais, existe a possibilidade de que seu governo sim impulsione uma série de reformas mínimas que podem melhorar, no imediato, a extrema pobreza de amplos setores da população, impulsionar o crescimento econômico e consolidar um novo tipo de regime.

Para começar as medidas tem anunciou contra a corrupção e o esbanjamento (reduzir na metade dos salários dos altos funcionários públicos e erradicar todo tipo de privilégios, não roubar, vender a frota de aviões do governo e utilizar linhas aéreas comerciais, eliminar os milionários gastos de publicidade, revisar os contratos e concessões governamentais e castigar os maus manejos, cancelar as impopular e milionária pensão aos ex-presidentes, etc.), são pontos que está em condições de cumprir e que teriam um grande impacto na opinião pública.

O problema central de elevar os salários mínimos e contratuais, é outra de suas promessas que é factível realizar. Os baixos salários da classe trabalhadora mexicana não são causados por uma suposta “baixa produtividade”, como nos tem feito acreditar, é uma decisão de estado para defender um modelo econômico apoiado em oferecer mão de obra de baixo salario a empresas transnacionais. Este ponto é um dos assuntos mais controvertidos na atual renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), aonde os governos do Trump, Trudeau e os sindicatos dos Estados Unidos e Canadá, pressionam ao México para elevar salários de seus trabalhadores que são dez vezes menores aos de seus contrapartes. Inclusive no México, a Confederação Patronal da República Mexicana (COPARMEX), demandou a elevação do salário mínimo para fortalecer o mercado interno. Certamente que a patronal não estará disposta a que os salários recuperem seu nível histórico de 1976, mas sim existem as condições econômicas e políticas para pressionar por melhores salários e estes é algo que os sindicalistas devem aproveitar.

As propostas de incrementar ao dobro a pensão dos adultos maiores, fazê-la extensiva a nível nacional e que inclua as pessoas com deficiência, além de criar becas para todos os jovens, são medidas assistencialistas que podem criar-se imediatamente; outra coisa é saber se podem sustentar-se com os atuais ganhos do estado ou se terão que cobrar maiores impostos às grandes fortunas.

A derrogação da “reforma educativa”, que não pôde generalizar-se pela heroica luta de resistência da Coordenadora Nacional de Trabalhadores da Educação, é um quase um fato, não lhe custa nada e sim lhe brinda enorme benefício político entre 1 milhão e 300 mil integrantes do grêmio dos professores

Como parte da luta contra a corrupção e para desmantelar um dos pilares básicos de sistema de dominação priista, é possível que López Obrador tente construir uma nova relação com a classe trabalhadora apoiado em pactuar com novas lideranças sindicais e camponesas e não com o “charrismo” ou os caciques do campo controlados pelo PRI. Este ponto é crucial para que a classe trabalhadora possa recuperar sua democracia e independência, este é o momento de que o sindicalismo e as centrais camponesas independentes, deveriam iniciar uma ofensiva para reagrupar-se e lançar uma ofensiva para recuperar as organizações que agora estão sob o controle de gnsters ou de organizar aos milhões de trabalhadores que carecem de organização.

Outro objetivo que pode cumprir-se, este de maior envergadura, é iniciar um processo de pacificação do país. Isto poderia resolver terminando, abertamente com o conluio do estado com as bandas criminais; cessando o amparo militar ao comércio e produção de estupefacientes; retornado o exército aos quartéis; esclarecendo o desaparecimento dos 43 estudantes da Ayotzinapa e legalizando o consumo da maconha.

É completamente certo, e nisto coincidimos muitos grupamentos da esquerda anticapitalista, que existem muitas outras demandas que o novo governo do López Obrador só poderá resolver se se atreve a enfrentar a voracidade dos patrões e apoiar-se na mobilização social. Investigar, até suas últimas conseqüências, as corrupções de anteriores governos; derrubar a reforma energética que privatizou a eletricidade e o petróleo; cancelar a construção do novo aeroporto no lago do Texcoco e outros megaprojetos que atentam contra o meio ambiente; realizar uma auditoria à dívida pública e privada; convocar a um novo constituinte para derrogar as reformas neoliberais em matéria trabalhista, educativa, segurança, etc., são algumas delas. A melhor forma de dar força a estas demandas, é as fazendo bandeira de amplos movimentos sociais e não mediante estridentes gritos de pequenos grupos.

Estamos ante um novo ciclo político que abre novas e transcendentais desafios para a esquerda anticapitalista: nem a crítica ultra-esquerdista nem o seguidismo para o novo governo são a alternativa. Devemos construir um pólo de esquerda que, sem sectarismo, ofereça uma autentica proposta alternativa de transição democrática e de ruptura com as políticas neoliberais.

Finalmente considero que a esquerda anticapitalista deveria estar contente, e não triste como acontece a muitas pessoas e organizações, de que, por fim, o caduco e quase centenário regime de dominação priista tenha recebido este golpe mortal.

Artigo originalmente publicado no Portal da Esquerda em Movimento.

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Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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