Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“A economia está quebrada pra 99% das pessoas”

Ex-funcionário de Wall Street, economista que previu a crise de 2008 adverte sobre o que pode causar um novo crash na economia mundial.

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Michael Hudson (Chicago 1939) é um arqueólogo da economia. Passa décadas desenterrando o passado para entender o presente. Retrocede no tempo e explica, por exemplo, que Jesus Cristo foi crucificado para ser castigado pois representava uma ameaça aos ricos. Explica que há sermões na Bíblia que se referem ao cancelamento da dívida, um dos grandes argumentos de confrontação do Império Romano.

Hudson nunca se acostumou à vida no centro de Nova York, de modo que reside em Forest Hills, no bairro do Queens. É o que mais se parece a Mineaopolis, lugar onde cresceu no seio de uma família marxista. Naquela que era então a única cidade trotskista do país. O professor da Universidade de Kansas City, a faculdade mais progressista em política monetária dos EUA, relembra os dias em que tudo o que o país consumia era produzido no Centro Oeste.

Agora tudo é diferente. O setor financeiro, diz, tomou o controle da economia e a espreme até asfixia-la. Seu último livro, Matar o Hóspede, (…) explica que a estratégia dos credores é similar a de um parasita: fazem crer ao hóspede (o receptor) que são parte de seu corpo, que cuidam dele e o protegem. Mas, na verdade, fazem sangrar e economia, extraindo os que seria necessário para produzir.

Hudson foi um dos oito economistas que advertiram no momento do estalo da crise financeira de 2008. Também foi uma das figuras por trás do Occupy Wall Street. O 1% mais rico, explica, capturou quase a totalidade do crescimento da renda desde a Grande Recessão. Hoje, volta advertir que se aproxima outro crash, e que ele pode, inclusive, ser até pior que aquele.

Há meio século, o senhor trabalhou como economista em Wall Street. O que o senhor aprendeu?

Vi como o dinheiro da poupança recicla no mercado hipotecário, isso infla o preço da moradia e eleva o custo de vida. Esses créditos representam 80% dos empréstimos bancários. Não se pode competir tendo um custo de renda tão alto.

Essa foi a origem da crise.

Sim, ninguém se deu conta até ser tarde demais. O sistema estava podre, por isso falavam de hipotecas lixo. Os grandes bancos sabiam o que faziam e que isso os enriquecia. Se fixavam no curto prazo. No princípio de uma borbulha se faz muito dinheiro. O crash é sempre o resultado de uma quebra ou da revelação de uma fraude.

Onde estamos 10 anos depois?

O ponto débil hoje é a dívida corporativa. As empresas estão muito endividadas. Se recorreu à dívida para pagar dividendos e recomprar ações. Porque os gestores são premiados de acordo com quanto seus títulos sobem, não em função das vendas ou porque contratam mais pessoas para gerar mais negócios. Pura engenharia financeira.

Os órgãos internacionais advertem sobre os efeitos nos países emergentes do aumento da taxa de juros nos EUA.

De fato. A próxima crise será causada principalmente pela dívida acumulada em moeda estrangeira. Se o custo em dólares sobe, terão que pagar mais em sua moeda nacional para poder cobrir a dívida. Está-se criando um verdadeiro problema. Basta olharmos a situação na Argentina.

O Federal Reserve [Banco Central dos EUA] não vê isso?

Acho que um requisito para trabalhar lá é não entender nada de economia. É ficção científica, vivem em um mundo paralelo em que todo mundo paga as dívidas.

A teoria está equivocada?

Eu suspendi um curso na Universidade de Nova York porque indiquei ao professor que os suposições não estavam corretas. Eu não repetia o que diziam os livros-texto, isso que escrevem os lobistas de bancos.

Mas o crédito é necessário.

Ninguém com 20 ou 30 anos tem dinheiro para pagar a universidade ou comprar uma casa, a não ser que sua família seja rica. Os bancos determinam o preço da educação e da habitação em função do que te apresentam. Agora, é preciso tomar empréstimos para chegar ao fim do mês.

E a desigualdade aumenta.

Estão criando dois níveis: um que não necessita crédito, e outro que deve pedir empréstimo. O setor financeiro proclama que faz parte da economia, mas isso não é verdade. É algo externo, um parasita. O crescimento dos últimos dez anos se deve a serviços financeiros, mas o crédito não produz nada. A economia está quebrada para o 99%, enquanto o crédito eleva o preço dos ativos do 1%.

Seu livro foi publicado nos EUA há três anos. Aconteceram muitas coisas desde então. Donald Trump é parte do legado de Barack Obama?

Sim, e com Obama eu não tenho nenhuma simpatia. Em Chicago ele se colocou do lado do setor imobiliário para destruir bairros pobres e gentrifica-los. Na Casa Branca fez a mesma coisa. As pessoas votaram contra a sua administração em 2016 e porque não queriam Hillary Clinton. Sentiam que ela era corrupta.

O que você achava de Bernie Sanders?

Eu gostava de sua mensagem, mas ele era monótono e se parecia muito, em alguns pontos, com Donald Trump, que não é tonto. É corrupto, mas suficientemente inteligente para não estar na prisão. Os republicanos vão ganhar outra vez porque os democratas declararam guerra aos seguidores de Sanders e estão centrados nas pessoas que votaram em Trump.

Como o senhor se define politicamente?

Quando cheguei em Wall Street, os principais economistas eram marxistas. O grande desafio político hoje é o excesso da dívida. A direita entende isso melhor do que a esquerda.

E não resolve o problema.

É verdade, mas entendem a sua gravidade.

Que solução vislumbrar?

A dívida não pode ser paga, e não vai ser paga.

Mas o sistema não aceita que a condene.

Por isso ele vai quebrar. Ou se produz um embargo massivo de bens, como em 2008, ou se terá que reduzir a dívida dos estudantes e condená-la.

O que acontece com os credores?

Ao cancelar a dívida, cancelam-se as poupanças de alguém, é verdade. O problema é que três quartos dos empréstimos estão nas mãos do 1%. Também haverá gente honesta que perderá, uma vez que o sistema é corrupto.

Há espaço para uma opção pública?

O crédito deve ser como a luz ou a água. Um banco público não ofereceria bens podres, e poderia reduzir a dívida.

É possível restaurar a ordem?

Apenas com uma crise.

Mas continuamos tentando sair de uma.

Ela não foi suficientemente grande. É necessário algo que conscientize as pessoas de que o sistema não funciona. Muitos pensaram que, ao resgatar a banca, a economia se recuperaria. Mas não. Wall Street está inflada graças ao Federal Reserv, o mercado de bônus teve o maior boom de sua história e o mercado imobiliário está flutuante. Mas a produção e o consumo não se recuperaram.

Entrevista realizada por Sandro Pozzi para a edição de 28 de julho do El País. Tradução de Pedro Micussi.

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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