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Condene as crueldades do comunismo, mas não se esqueça do capitalismo

Os meios de comunicação no Reino Unido têm se prestado a relembrar o que entendem como as mazelas do comunismo, mas sobre o capitalismo?

"Moça Chorando", Roy Lichtenstein, 1963.
"Moça Chorando", Roy Lichtenstein, 1963.

Condene as crueldades do comunismo, mas não se esqueça da terrível história do capitalismo

Um fantasma ronda os meios de comunicação britânicos: o fantasma das opiniões negativas sobre o capitalismo. Desde que a escritora Ash Sarkar pronunciou as palavras “sou comunista, idiota!” numa cadeia de televisão, a direita se retorce horrorizada. A rapidez com que os analistas se puseram a responder ao comentário improvisado de Sarkar é profundamente reveladora.

Desde que há um ano Jeremy Corbyn ameaçou a maioria dos conservadores, a direita está aterrorizada ao sentir que está perdendo a guerra ideológica. O acidental resgate de Sarkar da visão do comunismo de Marx – uma sociedade sem Estado, sem classes, na qual a maioria da humanidade tenha se libertado do trabalho assalariado – como contraposição ao totalitarismo stalinista fez com que a revista Elle declarasse que Sarkar é “literalmente comunista e literalmente nossa heroína”. The Telegraph refletiu: “O comunismo matou milhares de pessoas. Por que é legal usar uma camiseta com seu símbolo?”. Por sua vez, segundo a opinião de Douglas Murray de The Spectator, Sarkar não é melhor que uma fascista.

Não me interpretem mal: os regimes que tomaram o nome de “comunistas” – desde Stalin a Pol Pot – cometeram crimes monstruosos e inenarráveis. Mas para a direita, um ressurgimento do interesse na visão do comunismo marxista anterior ao stalinismo é o exemplo mais surpreendente e provocador de calafrios do próprio colapso de sua supremacia ideológica: “comunismo” é sinônimo de milhões de mortes e nada mais do que isso. Pelo contrário, apresentam o capitalismo como uma máquina de prosperidade humana, sem culpa nem sangue.

A história do capitalismo é algo mais complicada do que isso. Se querem ler uma efusivo louvor ao capitalismo, é possível encontrar isso no Manifesto Comunista de Marx e Engels: o dinamismo revolucionário dos capitalistas, escreveram, criou “maravilhas que superam as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos e as catedrais góticas”. Mas o capitalismo é um sistema econômico manchado com o sangue de inumeráveis milhões de pessoas.

Evidentemente que isso não é uma desculpa para os horrores do stalinismo: o modelo totalitário que criou e exportou o regime de Stalin tirou a liberdade e em muitos casos também a vida de milhões de pessoas. Igualmente, não devemos esquecer as milhões de vidas que se perderam na China maoísta pelos assassinatos e a fome. Ainda assim, a lista de crimes do comunismo não ajuda aos campeões do capitalismo tanto quanto eles queiram.

Segundo o Livro Negro do Comunismo, um nada respeitável ponto de referência para direita, quase cem milhões de vidas humanas pereceram nas mãos dos autodenominados regimes “comunistas”, a maioria vítimas de Mao Zedong na China. O economista Amarya Sen, ganhador do prêmio Nobel, estima que entre 23 e 30 milhões de pessoas morreram como consequência das catástrofes do Grande Salto Adiante de Mao, no final dos anos 50 e inícios dos anos 60.

No entanto, Sen também destacou num artigo de 2006 que em meados do século XX a China e a Índia tinham a mesma esperança de vida, cerca de 40 anos. Depois da revolução chinesa, este número mudou drasticamente. Em 1979, a China maoísta tinha uma esperança de vida de 68 anos, 14 a mais que a Índia capitalista.

O excesso de mortalidade na Índia capitalista em relação à China comunista é estimada na horrorosa cifra de quatro milhões de vidas humanas por ano. Então, por que a Índia não é estudada como um caso da natureza homicida do capitalismo?

Desde o começo, o capitalismo foi construído sobre os cadáveres de milhões de pessoas. Desde o século XVII em diante, o tráfico de escravos através do Oceano Atlântico converteu-se num pilar do capitalismo emergente. Muita da riqueza de Londres, Bristol e Liverpool – que foi alguma vez o maior porto de escravos da Europa – nasceu do trabalho dos africanos escravizados.

O capital acumulado graças à escravidão – nas plantações de tabaco, algodão e açúcar – deu base para a revolução industrial em Manchester e Lancashire, e muitos bancos podem atualmente rastrear na escravidão a origem de suas fortunas.

Inclusive quando o comércio internacional de escravos começou a decair, o dinheiro sangrento do colonialismo enriqueceu o capitalismo ocidental. A Índia foi durante muito tempo uma colônia do Reino Unido, a potência capitalista mais eminente do mundo: como estuda Mike Davis em seu livro Holocaustos Coloniais do fim da era vitoriana, cerca de 35 milhões de indianos morreram de fome evitável, enquanto o Reino Unido levava do país milhões de toneladas de trigo.

A Índia foi a galinha dos ovos de ouro do capitalismo britânico, convertendo-se na maior fonte de lucros do país no final do século XIX. O Ocidente está construído sobre a riqueza que roubou daqueles que submeteu com um custo humano imenso.

Já era o século XX quando a Europa começou a importar os horrores massivos que antes havia imposto a outros. A Grande Depressão – que segue sendo a pior crise capitalista – ajudou a criar as condições de descontentamento popular que levou ao ascenso do nazismo. Nos tempos iniciais do regime nazista, as grandes empresas, temerosas do poder da esquerda alemã, pactuaram com o nacional-socialismo, já que viam os nazis como um instrumento contundente com o qual poderia atacar tanto o comunismo como o sindicalismo.

As empresas alemãs fizeram grandes doações aos nazis, tanto antes como depois de seu ascenso ao poder, entre elas o conglomerado industrial IG Farben e Krupp. Muitas empresas se beneficiaram do trabalho escravo e do Holocausto nazi, incluindo a IBM, BMW, o Deustche Bank e o Grupo Schaeffler.

É possível acreditar apaixonadamente no capitalismo, ou simplesmente acreditar que ele é o único sistema viável, mas também é preciso reconhecer que tem suas sombras obscuras e suas cumplicidades com episódios sangrentos da história da humanidade. Evidentemente que suprimir a noção de que existe alternativa ao capitalismo – uma que se apoia em valores e princípios diferentes – cumpre uma função política útil.

Há muito que a esquerda radical e democrática repudia o pesadelo do totalitarismo e reflete muito sobre por que isso se sucedeu. Mas muitos dos defensores irredutíveis do capitalismo não puderam analisar seu próprio passado: políticos e historiadores respeitáveis ainda defendem o colonialismo, apesar de seus horrores grotescos. Não é justo atacar os socialistas democráticos do século XXI utilizando os dias mais obscuros do totalitarismo do século XX.

Aspirar a um mundo com abundância material, livre do Estado e baseado na cooperação não o converte num assassino totalitário. Inclusive se pensam que isso não poderia chegar a se passar jamais, isso não significa que devam se render ao fundamentalismo do mercado, muito menos quando a mudança climática –causada por uma ordem insustentável – ameaça em desatar o caos em nosso planeta. Uma nova sociedade mais justa e mais democrática está esperando por nascer, uma que rompa definitivamente com todos os sistemas fracassados do passado.

Fonte: https://www.eldiario.es/theguardian/crueldades-comunismo-capitalismo-historial-horroroso_0_797220612.html

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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