Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

De Émile Zola a Julian Assange. Em defesa da verdade

Julian Assange, como o escritor Émile Zola, poderia dizer que é somente um instrumento para “ativar a explosão da verdade e da justiça".

DOMINIC LIPINSKI/PA WIRE
DOMINIC LIPINSKI/PA WIRE

“Senti desespero, ódio à estupidez e à má-fé, e tive tanta sede de verdade e de justiça que compreendi até que ponto os mais generosos impulsos podem levar a um pacífico cidadão ao martírio. Porque, na verdade, o espetáculo foi inaudito, superou em brutalidade, em desfaçatez, em declarações indignas, os piores instintos, as maiores baixezas jamais confessadas pela besta humana”.

-Émile Zola (fragmento de “O juízo”, artigo sobre o Caso Dreyfus, Le Figaro, 5/12/1897).

Julian Assange, editor do WikiLeaks e refugiado político na embaixada do Equador em Londres há seis anos, corre grave perigo de ser entregue às autoridades britânicas, segundo tem denunciado Glen Greenwald. O jornalista e co-fundador do site The Intercept diz contar com informação confidencial de fontes próximas ao presidente equatoriano. Entre outros numerosos e importantes trabalhos jornalísticos, Greenwald colaborou estreitamente com o denunciante de consciência Edward Snowden – e o Wikileaks – na difusão de documentos secretos sobre a espionagem ilegal massiva nos EUA. Levando em conta seu provado compromisso com um jornalismo a serviço do interesse público, é muito preocupante sua denúncia de que, durante sua próxima estadia em Londres, o presidente do Equador entregará Assange.

Julian Assange foi o editor e jornalista mais influente dos últimos doze anos. WikiLeaks, a organização que fundou e dirige, publicou mais informação secreta que todos os demais meios da imprensa combinados. As revelações informaram ao público sobre as cláusulas de tratados comerciais, vigilância ilegal massiva, ataques contra civis, torturas e assassinatos cometidos pelos governos dos EUA e outros países.

Entre os dez milhões de documentos revelados por Wikileaks, destacam-se os “Registros das guerras do Iraque e Afeganistão” – duas séries conformadas por centenas de milhares de informes militares dos EUA detalhando a morte indiscriminada de civis durante a invasão e ocupação de tais países. Estes documentos foram proporcionados pela denunciante de consciente Chelsea Manning (encarcerada e torturada por isso). O mais impactante de tais documentos é possivelmente o vídeo “Assassinato colateral”, que mostra o ataque aéreo, desde dois helicópteros Apache estadunidenses, no qual morrem 12 civis iraquianos, incluindo dois empregados da agência informativa Reuters, em Bagdá em 12 de Julho de 2007. A nível interno, WikiLeaks difundiu as provas aportadas por Snowden da espionagem ilegal e massiva de cidadãos estadunidenses realizada pela Agência de Segurança Nacional, assim como o funcionamento fraudulento do Partido Democrata, cujo Comitê Nacional prejudicou Bernie Sanders em benefício de Hillary Clinton nas primárias (eleições para eleger o candidato presidencial), entre outros temas.

WikiLeaks reportou as notícias que foram deliberadamente suprimidas pelos meios de comunicação dos EUA e de outras partes do mundo. E o establishment não perdoa seus detratores. A vendetta de Republicanos e Democratas contra Assange é uma rede cujo foco está nos EUA, e daí se bifurca o restante do mundo. Recordemos que faz tão somente poucas semanas, nas vésperas da viagem do vice-presidente Pence ao Equador, dez senadores do Partido Democrata, liderados por Robert Menéndez do Comitê de Relações Exteriores do Senado, solicitaram isso publicamente que pressione Moreno para que o Equador retire o asilo a Julian Assange.

Julian Assange perdeu uma férrea defensora quando, em junho passado, deixou a Chancelaria equatoriana María Fernanda Espinosa – para ocupar o cargo de presidenta da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Espinosa tinha uma postura clara em defesa dos direitos humanos e do direito internacional. Outro fator negativo é que, nesta conjuntura de negociação de um tratado comercial com os EUA, o governo equatoriano poderia ser mais vulnerável frente às pressões.

Se o Equador entregar Assange – parodiando o vergonhoso programa de “rendição” estadunidense mediante o qual se entrega a perseguidos políticos a regimes abusivos – possivelmente a maior resistência provenha de organizações de direitos humanos, de jovens e de livre acesso a internet, ao igual que de alguns setores do qual se chamava Alianza País antes da fratura.

As forças políticas opositoras de direita e a imprensa privada, liderada pelo jornal El Comercio, estão alinhados com a demanda estadunidense de “entregar Assange”, compartilhada a nível internacional pelos grandes meios e agências de imprensa – os mesmos que denunciam indignados “atentado contra a liberdade de imprensa” quando Trump nos chama “criadores de fake news, jornalismo sensacionalista e caçadores de bruxas”, calam – e até celebram – quando um jornalista anti-establishment é perseguido.

Entretanto, a menos por ora, não poderão celebrar: em contradição com o qual denunciou Greenwald, o governo equatoriano nega que em seus planos figure a entrega de Assange. Num comunicado oficial emitido hoje 22 de julho, a Chancelaria afirma que: “Nem o Chefe de Estado equatoriano nem sua comitiva abordarão em sua viagem ao Reino Unido e Espanha o relativo ao asilo do senhor Assange”. Acrescenta: “os propósitos da viagem concernem unicamente à participação do presidente Lenín Moreno na Cúpula Mundial de Descapacidades de Londres, o avanço da ampla agenda bilateral com a Espanha, e a promoção econômica e comercial do Equador em Madri e Edimburgo”. Conclui dizendo: “O Estado equatoriano somente conversará e propiciará entendimentos sobre o asilo do senhor Assange, no marco do direito internacional, com os advogados do interessado e com o Governo britânico. De momento, pela complexidade do tema, não se tem à vista uma solução a curto ou longo prazo”.

Resta esperar que o governo equatoriano cumpra com sua palavra e com as leis internacionais de proteção ao refugiado político. Pois entregar um refugiado político ao aliado mais próximo de seu inimigo – como o é o Reino Unido dos Estados Unidos – seria uma ação equiparável às “maiores baixezas jamais confessadas pela besta humana”, como denunciou Émile Zola sobre o Caso Dreyfus (França,1894-1906). Por expor as redes de mentiras e conspirações do Exército francês e do governo desse país, Zola foi condenado à cárcere e ameaçado de morte. Para se pôr a salvo, fugiu para a Inglaterra.

Julian Assange, como o escritor Émile Zola, poderia dizer que é somente um instrumento para “ativar a explosão da verdade e da justiça. Movido por um só sentimento, o desejo que a luz se faça, e imploro isso em nome da humanidade…” (Émile Zola, J’accuse, 13 de janeiro de 1898, Paris).

Fonte: http://rebelion.org/noticia.php?id=245188

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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