A esquerda que não teme dizer seu nome não se isenta de pautar com centralidade a luta LGBT+
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A esquerda que não teme dizer seu nome não se isenta de pautar com centralidade a luta LGBT+

Uma reflexão sobre os avanços e dificuldades da esquerda na luta LGBT+

Rodrigo Manfredini 21 dez 2018, 14:17

O nosso propósito com este texto é refletir sobre avanços e dificuldades, por parte da esquerda, no acolhimento das pautas e lutas tidas como “identitárias”[1], com foco especial nas demandas da população LGBT+. De antemão, faz-se necessário explicitar: o que nos provoca a refletir sobre essa questão é uma fala frequentemente pronunciada por pessoas que se identificam ideologicamente com o pensamento de esquerda, principalmente durante e após o segundo turno das eleições brasileiras de 2018, segundo a qual “A esquerda precisa repensar a ênfase em pautas identitárias e temas que assustam o eleitor não engajado”.

Primeiro, precisamos assentir que esquerda e pautas identitárias nem sempre andaram juntas. Esse distanciamento se deu muito em função da hegemonia de um marxismo tradicional dentro da esquerda que colocava (e ainda insiste em colocar) somente o debate econômico strictu sensu como aspecto central para as transformações sociais. Entretanto, frente a isso, reelaborações contemporâneas do marxismo, ainda não hegemônicas dentro do campo, formulam não ser possível fazer o debate sobre transformações econômicas e sociais sem levar em consideração outras variáveis importantes, tais como raça, gênero e diversidade sexual.

Quem dera se a relação entre esquerda e pautas identitárias ao longo da história tivesse sido marcada somente por um sentimento de indiferença, de desconsideração da condição subalterna dessas pessoas na compreensão da realidade e de descrença da sua potência na organização da luta política por transformação. Ao contrário, houve um tempo em que esquerda e direita estiveram muito próximas, isto é, ligadas pelo conservadorismo no campo dos valores e costumes, reflexo do contexto social desse tempo. Destaquemos aqui as pessoas LGBTs, por exemplo, que, em Cuba, durante e alguns anos no pós-revolução, eram tidas como contrarrevolucionárias e vistas como potenciais ameaças e inimigas do regime. O próprio Fidel Castro, um dos líderes da revolução cubana, veio a público em 2010 pedir desculpas e reconhecer o braço LGBTfóbico do regime socialista cubano, que perseguiu homossexuais e, ainda mais, os obrigou ao trabalho forçado em campos agrícolas[2].

Voltando um pouco mais na história, temos, por um lado, a descriminalização das relações homossexuais e da transgeneridade como uma das medidas que tanto nos faz reivindicar a Revolução Russa de 1917 como um marco favorável ao reconhecimento da cidadania de pessoas LGBTs; por outro lado, temos também, com a ascensão de Stalin dez anos depois, o retorno da criminalização da homossexualidade e o trabalho forçado como pena para quem a praticasse[3]. O sopro de ar da tentativa de construção de um marxismo atualizado foi interrompido naquele momento pela retomada da narrativa tradicional que, além de desconsiderar as pessoas LGBTs e suas identidades na dinâmica do processo de produção e reprodução da vida material, prega ainda ojeriza e violência contra tal população.

No contexto atual, é preciso reconhecer os avanços dos amplos setores e organizações de esquerda no que diz respeito a não compactuar com a violência contra pessoas LGBTs. Entretanto, há que se questionar também a insuficiência do acúmulo político das muitas organizações, quando, nas suas formulações, insistem em não considerar que alguns grupos de sujeitos específicos são capturados pela engrenagem capitalista como força de trabalho a ser superexplorada no processo de acumulação de riquezas.

No Brasil e no mundo, quando o capitalismo tentou e (ainda tenta) se reorganizar por vias da política econômica neoliberal e com a ampliação do setor de serviços, a superexploração fica bastante evidente, principalmente no tocante à população LGBT+. Assistimos a um movimento de “inclusão” de parte dessa população, até então, totalmente às margens do mercado de trabalho formal[4], em função da grande interferência nesse âmbito da vida social dos valores e costumes conservadores, que pregam aversão às LGBTs. Porém, há que se destacar que os destinos oferecidos por essa “inclusão”, de modo geral, são postos de trabalhos bastantes precarizados, muito rotativos e com pouquíssimas garantias de direitos.

Nestes termos, consideramos não ser possível fazer o debate anticapitalista sem levar em consideração também a variante de diversidade sexual e de gênero, uma vez que esses sujeitos são parte funcional da massa de corpos superexplorados no processo de geração de mais valia. Assim como acreditamos também não ser possível, principalmente quando se trata de Brasil, formular uma política anticapitalista dissociada do antirracismo e do antimachismo, dado que a base econômica do nosso país advém de uma organização social que subjugou o povo negro a inúmeras violências, a exemplo do trabalho escravo, e encerrava a mulher descaradamente numa posição de submissão ao homem, além de muito fechada no que se refere aos padrões de gênero e sexualidade socialmente aceitos. Desconsiderar os desdobramentos e as consequências dessa formação histórica presentes no capitalismo tupiniquim é bastante problemático.

Acreditamos que reivindicar a pauta LGBT+ como elemento importante a ser levado em consideração na organização política da esquerda é assumir uma postura radical e potente, porque ser LGBT+, principalmente no Brasil, é antes de tudo lutar pelo direito de ser, de existir. Há toda uma cultura cis-heteronormativa[5] que alimenta o sentimento de repulsa contra LGBTs e, consequentemente, legitima às muitas violências contra essa população. No Brasil, o lugar onde mais se matam pessoas LGBTs no mundo, foram registradas em 2017 445 mortes de LGBTs, vítimas dessa cultura de ódio LGBTfóbica.[6]

Os partidários da fala de que “A esquerda precisa repensar a ênfase em pautas identitárias e temas que assustam o eleitor não engajado” acusam as massas de uma espécie de incapacidade em compreender, por exemplo, a complexidade dos debates sobre diversidade sexual e de gênero. Para nós, esse posicionamento se configura, na prática, como a construção de um muro entre o povo e o debate politizado acerca dessa pauta tão importante sobre a vida de muitos sujeitos que são diariamente violentados. Ao invés de enfrentar política e pedagogicamente essa “incapacidade”, essa leitura na verdade impede a possibilidade de superação, através do diálogo, de preconceitos arraigados cultural e socialmente.

Dizer que o povo é incapaz de compreender esse debate, além de soar como pedante, também revela a não disposição dos defensores dessa posição em incidir sobre as narrativas do dia a dia, junto ao povo, e politizar os debates com outra narrativa que aponta para a superação dos preconceitos e anseia por transformações. Com efeito, entendemos ainda que esse posicionamento escancara a incapacidade de alguns setores da esquerda em fazer uma autocrítica e atualizar seus métodos e práticas políticas de contato com as massas; do contrário, colocam a culpa do fracasso político sobre o conteúdo, sobre a substância dos debates, por serem inacessíveis ao povo, segundo eles.

É recorrente, também, a partir dessa fala que coloca a necessidade da esquerda “repensar a ênfase em pautas identitárias”, o argumento que acusa a luta identitária de gerar desfoque da importância de centralidade na luta de classes. Segundo os arautos desse entendimento, o reconhecimento da especificidade de grupo na armação política se contrapõe à perspectiva de extinção das classes tão desejada pela esquerda e pelos marxistas. Esse entendimento na verdade gera uma desqualificação do debate, uma vez que não avança no sentido de compreender que a classe trabalhadora não é um todo homogêneo, que nas massas exploradas existem sujeitos e corpos que carregam marcadores sociais que influenciam no peso da exploração que é disposta sobre os seus ombros.

Há dúvidas de que a mulher negra pobre ocupa a base da pirâmide social? Por não participar dos padrões de gênero, raça e classe socialmente privilegiados, são colocadas sobre suas costas as piores condições de trabalho, vida etc. Angela Davis, assim, formula que a mulher negra e pobre é potência, porque, quando ela se movimenta, ela move as estruturas consigo. Logo, se há um melhoramento na condição de vida da mulher negra pobre enquanto sujeito coletivo, isso também repercutirá na condição da mulher branca pobre e na da classe proletária como um todo.

Nesse sentido, há que se reivindicar uma prática política de esquerda e marxista à altura do nosso tempo: é preciso centrar esforços na compreensão da realidade em sua amplitude e complexidade. Isso implica compreender que há uma elite econômica minoritária que subjuga uma maioria através da exploração da força de trabalho, mas que também existem sujeitos específicos (com raça, gênero e sexualidade definidas) na ocupação dos piores postos de trabalhos. Logo, o nosso tempo exige entender essas outras variáveis como elementos estruturantes no entendimento do modo de como a sociedade capitalista se organiza.

Assim, a esquerda que não teme dizer seu nome em momento algum cogitará colocar no armário e desconsiderar, na sua armação política, a pauta LGBT+, tendo em vista angariar, a curto prazo, mais pessoas para suas fileiras. Muito menos resistirá em reconhecer essa luta identitária, assim como as outras, como elemento estruturante dentro do modo de produção e exploração capitalista. O próximo período, no Brasil e no mundo, exigirá coragem da esquerda. Coragem para se colocar permanentemente ao lado daquelas e daquelas que, com o recrudescimento do regime de exploração e violência, tendem a ser mais afetados.


[1] O termo identitário aqui é pensado a partir da filósofa norte-americana Nancy Fraser, quando discute a promoção de uma política de reconhecimento como instrumento de reparação histórico-social para identidades marginalizadas em função da sua identidade. Ver Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça numa era “pós-socialista”.

[2] https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,fidel-admite-que-governo-perseguiu-gays-em-cuba,603155

[3] Ver também Superar o stalinismo para avançar a luta LGBT, em: https://movimentorevista.com.br/2017/10/stalinismo-lgbt-kke-grecia/

[4] Para um debate mais aprofundado sobre essa questão específica, ver Pensando o lugar das LGBTs no capitalismo, em: https://movimentorevista.com.br/2017/12/lgbt-capitalismo-esquerda-direita-movimento-marxismo-opressoes/

[5] Conjunto de valores sociais que reconhece somente como legítimos a cisgeneridade (quando a autoafirmação de gênero do sujeito condiz com a identidade de gênero que foi atribuída a ele ao nascer, por exemplo, sujeito que nasceu com uma vagina e se autoafirma mulher, logo, uma pessoa cisgênero) e a heterossexualidade (condição em que o sujeito sente-se atraído afetivo e sexualmente somente por alguém do gênero oposto, por exemplo, um homem que se sente atraído por uma mulher)

[6] Pessoas LGBTs mortas no Brasil: relatório 2017. Disponível em: https://homofobiamata.files.wordpress.com/2017/12/relatorio-2081.pdf


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.