Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O que as mobilizações francesas têm a nos dizer?

Assim como em Junho de 2013 no Brasil, as manifestações dos gilets jaunes carregam consigo contradições típicas das revoltas anti-regime.

Reprodução: Sud Ouest/ISABELLE LOUVIER
Reprodução: Sud Ouest/ISABELLE LOUVIER

Há cinco décadas da revolta popular que chacoalhou a França e o mundo, pela quarta semana seguida os franceses vêm tomando as ruas, em especial a famosa Champs-Élysées de Paris, no movimento que ficou conhecido como “coletes amarelos”, os gilets jaunes. O movimento que teve início de forma espontânea contra o aumento dos impostos sobre o diesel no interior do país, agora se revela como um movimento contra a casta política e o “governo dos ricos”.

Assim como em Junho de 2013 no Brasil, as manifestações dos gilets jaunes carregam consigo contradições típicas das revoltas anti-regime que se espalharam em vários países do mundo após a crise capitalista de 2008. Protagonizadas pelos setores mais precarizados da classe trabalhadora junto de uma classe média baixa francesa, o movimento já não se resume mais ao preço do combustível (pauta já vitoriosa, depois do recuo do governo Macron quanto ao aumento do imposto).

Na tentativa de capitanear o sentimento anti-casta, expresso pelos gilets jaunes, a extrema-direita vem disputando os rumos do movimento. Declarações de apoio vindas de Marine Le Pen, deputada francesa da Frente Nacional, e de Donald Trump expressam a vontade deste setor em se colocar como uma alternativa ao regime político do país, tentando transformar a revolta em uma vitória eleitoral do seu projeto xenofóbico, racista e anti-povo.

Ao mesmo tempo, a indignação que toma as ruas francesas reúne um conjunto de palavras-de-ordem que estão na contra-mão das bandeiras desta direita, e mostra que a disputa ideológica do movimento está em aberto.

É fácil encontrar nas placas e faixas carregadas pelos franceses, mensagens como Macron, destitution. Systeme, abolition. (Macron, destituição. Sistema, abolição.) ou Contre le gouvernement des riches (Contra o governo dos ricos), numa clara menção à elite econômica da qual esse setor da direita também faz parte. A integração dos coletes amarelos à Marcha do Clima na tarde deste sábado (8), mostra que o movimento extrapolou as pautas estritamente econômicas e trabalhistas e também está conectado à luta contra a crise ambiental desenvolvida pelo capitalismo. Essa integração também demonstra que há espaço para a esquerda radical disputar o rumo da mobilização, uma vez que Trump, Le Pen e grande parte da extrema-direita mundial, em um movimento conspiracionista do chamado “antiglobalismo”‘, declaram-se abertamente contrários ao Acordo de Paris e céticos à teoria do aquecimento global.

Um novo elemento para a luta na França é a mobilização dos estudantes secundaristas contra a nova reforma educacional do governo Macron, que muda a forma de ingresso nas universidades para uma seleção com base nas notas acadêmicas em 12 áreas de ensino, fazendo com que as universidades escolham os alunos que irão ingressar, aumentando a discrepância entre estudantes oriundos de escolas prestigiadas e outros de instituições educacionais de menos destaque. Além disso, a reforma aumenta também a taxa de inscrição para a seleção dos estudantes ao ensino superior. Essa mobilização significou mais de duzentas e oitenta escolas ocupadas em todo o território francês. Na última sexta-feira (7), quando milhares de estudantes foram às ruas de todo o país, unificando sua luta com a dos “coletes amarelos”, mais de 700 jovens foram presos, sendo 153 no Liceu Saint-Exupéry, uma escola em Mantes-la-Jolie, onde os estudantes ficaram ajoelhados, algemados, vigiados e presos pela polícia dentro de sua própria escola.

O vídeo dos estudantes sendo presos repercutiu em todo o país, gerando mais uma onda de solidariedade de diversas categorias de trabalhadores, que neste sábado paralisaram pedindo a saída de Macron. Os trabalhadores ferroviários, categoria tradicionalmente de esquerda e radicalizada, em uma marcha durante a paralisação no terminal de Saint Lazare, se ajoelharam com as mãos na cabeça, em protesto às prisões dos estudantes secundaristas e à repressão policial. Nas ruas de Paris, milhares de pessoas acompanharam o gesto em defesa dos secundaristas da Saint-Exupéry.

As ocupações das escolas em toda a França radicalizam ainda mais os métodos de luta, e a incorporação da luta estudantil ao movimento geral dos coletes amarelos contra o governo de Macron mostra que a luta em defesa da educação está no centro da disputa de um projeto democrático e radicalmente de esquerda com o projeto nefasto da extrema-direita, que não consegue dar respostas ao setor da educação que se mobiliza fortemente. Foi assim nos Estados Unidos, e também está sendo na Colômbia. Os estudantes secundaristas franceses não confiam em Le Pen, e conquistam os gilets jaunes contra o autoritarismo do governo, mas também contra uma oposição que quer perpetuar os interesses da elite econômica e aprofundar os ataques ao povo.

É hora da esquerda radical estender a mão para o trabalhadores franceses e derrotar de vez o populismo de direita que vem tomando espaço no mundo inteiro. Que não tenha medo de disputar o sentimento antissistema da população, radicalizando no método e também no discurso, para que a indignação dos que não aguentam mais o custo de vida e os cortes de direitos, mire contra o sistema do 1% mais rico do planeta.

Para o juventude no mundo inteiro uma tarefa redobrada: combater os ajustes econômicos e os ataques à educação, combater o crescimento da extrema direita oportunista e construir uma alternativa anticapitalista. Seguiremos juntos com os estudantes e trabalhadores franceses, disputando mundialmente, que essa crise capitalista que não criamos, seja paga pelos banqueiros e ricaços.

Artigo originalmente publicado no Medium do Juntos!.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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