Daniel Bensaïd: militante, intelectual, amigo
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Daniel Bensaïd: militante, intelectual, amigo

Quarto artigo da série de obituários sobre o filósofo francês.

François Sabado 23 jan 2019, 00:12

Foi um dos fundadores da Jeunesse Communiste Révolutionnaire (JCR – Juventude Comunista Revolucionária) e da Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR – Liga Comunista Revolucionária, seção francesa da Quarta Internacional).

Um líder do movimento de maio de 68, ele era uma daquelas pessoas com uma sensibilidade muito certeira para a iniciativa política. Ele tinha sido um dos líderes do Movimento 22 de Março. Compreendendo a dinâmica dos movimentos sociais, em particular a ligação entre o movimento estudantil e a greve geral dos trabalhadores, ele também foi um dos que entendeu a necessidade de construir uma organização política, de acumular as forças para a construção de um partido revolucionário.

A qualidade da inteligência de Daniel era combinar teoria e prática, intuição e compreensão política, ideias e organização. Ele poderia, ao mesmo tempo, liderar uma força de guarda e escrever um texto teórico.

Ele foi um dos que inspiraram uma luta que combinou princípios e limites políticos com abertura e uma rejeição ao sectarismo. Daniel, suas próprias convicções políticas profundamente enraizadas nele, sempre foi o primeiro a querer discutir, a tentar convencer, a trocar opiniões e a renovar o seu próprio pensamento.

Como membro da liderança diária da LCR do final dos anos 1960 até o início da década de 1990, ele desempenhou um papel decisivo na construção de um projeto, uma orientação que combinou atividade diária com uma perspectiva revolucionária. Uma boa parte de seu trabalho teórico e político foi focada em questões de estratégia, e nas lições das principais experiências históricas revolucionárias.

Daniel era profundamente internacionalista. Ele desempenhou um papel chave na construção da LCR no estado espanhol no período de Franco. Naqueles anos, ele desempenhou um papel importante dentro da Quarta Internacional, em particular acompanhando de perto os desenvolvimentos na América Latina e no Brasil. Ele contribuiu largamente para renovar nossa visão do mundo e nos preparar para os levantes do final dos anos 1980.

Dos anos 1990 até o final, enquanto continuava sua luta política, concentrou-se no trabalho teórico: a história das ideias políticas; O Capital, de Marx, 1669; o balanço do século XX e suas revoluções, sobretudo a revolução russa; ecologia; feminismo; identidades e a questão judaica; desenvolvendo novas políticas para a esquerda revolucionária diante da globalização capitalista. Frequentou e acompanhou regularmente o Fórum Social e o movimento pela justiça global.

Daniel assegurou a continuidade histórica do marxismo revolucionário aberto, não dogmático, e a adaptado às mudanças da nova época, com a perspectiva de transformação revolucionária da sociedade sempre à sua vista.

Embora gravemente doente, ele superou a doença por anos, pensando, escrevendo, trabalhando em suas ideias, nunca se recusando a viajar, a falar em manifestações ou a participar de simples reuniões. Daniel se colocou a tarefa de verificar a solidez de nossos fundamentos e transmiti-los para a nova geração. Ele colocou seu coração e toda a sua força nisso. Suas contribuições, no Instituto Internacional de Amsterdã [IIRE], nas universidades de verão da LCR e depois do NPA, no acampamento de jovens da Quarta Internacional, causaram um impacto em milhares de camaradas. Transmitindo a experiência do RCL ao NPA, Daniel decidiu acompanhar a fundação de nossa nova organização com um relançamento da revista Contretemps e formando a sociedade “Louise Michel” como um local para discussão e reflexão do pensamento radical.

Daniel foi tudo isso. E além disso ele era caloroso e sociável. Ele amou a vida. Embora muitos da “geração de 68” tenham virado a casaca e abandonado os ideais de sua juventude, Daniel não abandonou nenhum deles; ele não mudou. Ele ainda está conosco.

Artigo originalmente publicado na International Viewpoint. Tradução de Pedro Barbosa a partir da versão disponível em marxists.org.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.