Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Argélia: onda de manifestações contra o presidente

Milhares vão às ruas contra presidente há 20 anos no poder

Nejma Rondeleux/Flickr
Nejma Rondeleux/Flickr

Na sexta-feira passada dezenas de milhares de argelinos manifestaram-se em Argel, onde as manifestações são proibidas desde 2001. Houve granadas de gás lacrimogéneo e dezenas de detenções. Na manifestação de domingo, convocada pelo pequeno grupo Mouwatana, gritou-se por liberdade e democracia. A resposta policial foram mais dezenas de prisões.

Na segunda-feira foi a vez dos advogados saírem à rua em “defesa da Constituição”, contra as “detenções arbitrárias” e afirmando que a Argélia “é uma República, não uma monarquia”.

Esta terça-feira, vão ser os estudantes. Também 29 professores universitários fizeram circular uma declaração de apoio às mobilizações em que se podia ler: “devemos empenharmos para criar os meios políticos que impedirão que se instale o vazio que permitiria a reprodução de um sistema político gasto. A nossa responsabilidade é abrir o caminho da sociedade que traça a via da liberdade e da justiça, que colocará um fim, definitivamente, a um sistema que produz violência e corrupção”.

Na quinta-feira, os jornalistas farão uma concentração nacional contra a censura já que a onda de manifestações foi silenciada nos meios de comunicação social oficiais. Uma editora da rádio nacional, Meriem Abdou, demitu-se no sábado em protesto contra as restrições com que era obrigada a trabalhar. E, na próxima sexta-feira, a manifestação voltará a ser geral. Mas parece impossível seguir detalhadamente as convocatórias que se somam nas redes sociais.

Com as eleições presidenciais marcadas para 18 de abril, a recandidatura de Abdelaziz Bouteflika a um quinto mandato consecutivo está a ser fortemente contestada. Teme-se que, se assim for, as eleições sejam reduzidas a “uma farsa”. Bouteflika tem 81 anos e desde que teve um AVC em 2013 raramente surge em público. Parte da elite política do país desde a sua fundação, esteve afastado por corrupção depois de ter sido ministro nos anos 1980. Foi eleito presidente pela primeira vez em 1999 numas eleições em que todos os seus adversários desistiram por não reconhecerem condições mínimas de democracia ao acto. A partir daí foi sendo reeleito com mais de 80% dos votos em eleições sempre contestadas pela oposição.

O presidente apoia o seu poder sobretudo na força política que já foi partido único, a Frente de Libertação Nacional, no exército e na burguesia nacional. Do outro lado, na linha da frente da contestação têm estado os jovens. São mais de metade da população com elevadas taxas de desemprego. E não conheceram na sua vida outro presidente.

Por sua vez, a oposição política mainstream está dividida e foi também surpreendida pela dimensão dos protesto. Parece incapaz de vencer o jogo segundo as regras produzidas à medida do sistema. Os seus problemas começam logo com a lei eleitoral que limita a possibilidade de apresentação de candidaturas. Cada candidato presidencial deve ter a subscrição de 600 eleitos locais de 25 prefeituras ou 60 mil eleitores em 25 prefeituras, o que invalida muitos potenciais opositores. A Frente das Forças Socialistas, partido pertencente à Internacional Socialista, classifica as eleições presidenciais que se avizinham como uma farsa eleitoral e apela ao boicote. Os islamitas do El Adala procuram ainda apresentar candidatura mas também não afastam a possibilidade de retirar a candidatura caso Bouteflika se apresente. Não são eles que lideram os protestos que se fazem sentir no país e têm hesitado nas tomadas de posição sobre estes. Entretanto, as manifestações continuam pelo menos até ao próximo domingo, data limite para a apresentação das candidaturas presidenciais.

Artigo originalmente publicado pelo Esquerda.net.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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