Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Feminismos interseccional e da reprodução social: rumo a uma ontologia integrativa

O problema da interseccionalidade e das relações entre raça, classe e gênero visto de uma perspectiva dialética.

"Roots", Frida Kahlo, 1943
"Roots", Frida Kahlo, 1943

Em sua busca por capturar a natureza contraditória e constituída por muitas camadas das subjetividades e das posições sociais através de uma perspectiva que insiste no caráter dinâmico e complexo do social, o feminismo interseccional tem  inspirado  as feministas marxistas a levar o feminismo da reprodução  social para além da preocupação  estreita  das relações gênero/classe. Ainda assim, mesmo suas articulações politicamente mais radicais, não alcançam uma teorização completa da lógica integrativa que defendem. Esse artigo explora as raízes dessa teorização insuficiente, e sugere que ao compreender o social como constituído pela atividade humana prática cujo objeto (o mundo social e natural) é organizado de maneira capitalista, o feminismo da reprodução social ressalta a relação dialética entre o todo capitalista e suas diferentes partes. O desafio para o feminismo marxista é adotar esta abordagem dialética apoiando-se nos insights do feminismo interseccional para capturar de maneira mais convincente a unidade de um todo social complexo e diverso.

Introdução

As teorias feministas antirracistas e interseccionais evocam uma imagem inclusiva e integrativa do social, que tem inspirado muitas análises ricas e nuançadas de maneiras distintas, algumas vezes contraditórias, em que as relações de poder se tecem no interior e  através  das  experiências  cotidianas.  Tal leitura complexa leva a teoria feminista muito além do essencialismo abstrato e das análises binárias. Não obstante, desde as primeiras formulações do feminismo interseccional,  críticos  e  apoiadores  questionaram   a   coerência  do quadro teórico – apontando a dificuldade de teorizar as maneiras em que  diferentes  relações  parciais  de  gênero,  raça,  sexualidade,  e assim por diante, abrangem um todo integral unificado.[1]

Feministas que adotaram a perspectiva da reprodução social também se esforçaram para articular e explicar a experiência diferenciada-mas-unificada das múltiplas opressões. Elas inclinaram-se a conceituar o social de maneira estreita, frequentemente em termos estruturalistas que privilegiam as relações de gênero e de classe acima das outras.[2] Sem escusar essa resistência em teorizar relações como as de raça, de colonização e de queerness, quero voltar nossa atenção para o potencial do feminismo da reprodução social de ir além de suas limitações herdadas.[3] Sugiro que esse potencial do feminismo da reprodução social assenta-se na compreensão ampla e complexa do trabalho como uma “unidade concreta”, uma categoria ontológica que captura – e uma experiência vivida que medeia  e  produz  –  uma totalidade contraditória, histórica e ricamente  diferenciada.  Esse conceito multidimensional do trabalho (ou da atividade humana prática) convida a uma compreensão dialética do social que pode nos levar além da rigidez estreita das perspectivas estruturalistas sem esbarrar nos enigmas colocados pelo feminismo interseccional. Ele nos permite, em outras palavras, desenvolver uma teoria rigorosamente integrativa do social.

Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Para ler o texto completo compre a revista aqui!


[1] Ver Anthias, 2012; Davis, 2008; Dhamoon, 2011; Kerner, 2012; Nash, 2008; Simien and Hancock, 2011.

[2] Ver Ferguson, 1999, 2008; Luxton, 2007; Luxton et al, 2014.

[3] Para diferentes abordagens racializando o feminismo da reprodução social ver Arat Koc, 2006; Bakker e Silvey, 2008; Ferguson e McNally, 2014; e Hennessey, 2013.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista