Quem mandou matar Marielle Franco?
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Quem mandou matar Marielle Franco?

Descobrir quem ordenou o assassinato de Marielle é fundamental para a causa política mais importante do nosso tempo: acabar com o autoritarismo no Brasil.

David Miranda 14 mar 2019, 17:28

Esta quinta-feira marcará um ano desde que a minha amiga e colega Marielle Franco foi assassinada. A execução de uma política eleita e ativista de direitos humanos na cidade do Rio de Janeiro mostrou o quanto o crime e a política estão intimamente ligados em uma das principais cidades do Brasil.

De acordo com a ONG Global Witness, mais ativistas de direitos humanos são mortos no Brasil do que em qualquer outro lugar do mundo – e isso em um momento em que nosso país está mais uma vez mostrando um declínio nos indicadores sociais. Em momentos como este, os defensores dos direitos humanos são figuras que devemos valorizar.

Marielle foi executada por um grupo conhecido como “O Escritório do Crime” – uma organização sombria e ardilosa que comete assassinatos a mando de políticos, criminosos, “milícias” paramilitares de direita – e quem mais tiver algumas centenas de milhares de reais para pagar pelo assassinato de alguém de quem não gosta.

Desta vez, mataram uma mulher nobre que se levantou em defesa da melhor das causas – uma ativista que colocou sua vida e seu poder político a serviço daqueles que foram historicamente oprimidos em uma sociedade marcada por profundas desigualdades.

Durante as investigações sobre o homicídio da Marielle, houve fortes indícios de que forças poderosas agiram para impedir a solução do caso. Em seguida, a Polícia Federal investigou a conduta da Polícia Civil – uma investigação da investigação – e o caso tomou um rumo diferente. A prisão, na terça-feira, dos dois homens suspeitos de cometer o assassinato, fez parte desse giro.

É crucial que o caso seja resolvido para acabar com mais ataques aos direitos fundamentais dos membros mais vulneráveis da nossa população – e para garantir que os políticos possam continuar fazendo o seu trabalho no Brasil.

É por isso que, além de saber quem puxou o gatilho da arma que matou Marielle, devemos saber quem foi o mandante do crime.

Os laços estreitos entre milícias ilegais e políticos no Rio de Janeiro representam uma violação extraordinariamente grave da nossa democracia. Nas horas que se seguiram às prisões dos supostos assassinos desta semana, uma fotografia começou a circular nas redes sociais mostrando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, abraçando um desses homens.

Por si só, isto não prova qualquer ligação entre o Presidente e a sua família e o homicídio de Marielle. Mas a facilidade com que uma fotografia mostrando Bolsonaro com um membro da milícia foi encontrada é extremamente preocupante.

Quando o filho mais velho do presidente, Flávio, era deputado estadual no Rio, ele empregava a esposa e a mãe de um ex-policial fugitivo acusado de dirigir “O Escritório do Crime”.

Descobrir quem ordenou o assassinato de Marielle é fundamental para a causa política mais importante do nosso tempo: acabar com o autoritarismo no Brasil. Com isso vem a possibilidade de um movimento democrático que pode nos ajudar a superar a situação atual.

A prisão dos dois alegados assassinos foi um primeiro passo tardio, mas crucial. Agora, o passo seguinte – e muito mais importante – tem de ser dado. Este caso não será encerrado com a detenção de quem quer que tenha puxado o gatilho.

No ano passado, fizemos repetidas vezes duas perguntas.

Uma dessas perguntas pode ter sido respondida. Mas a outra continua por resolver: quem ordenou o assassinato de Marielle Franco?


Este texto foi publicado originalmente pelo Guardian e traduzido para português pelo Portal de la Izquierda.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.