Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Vivemos entre rios

Curiosidades históricas sobre os rios de São Paulo.

Trajeto original e retificado do Rio Tamanduateí.
Trajeto original e retificado do Rio Tamanduateí.

A grande São Paulo em que vivemos no século XXI é uma selva de concreto, mas e se eu disser que há cerca de 100 anos a região metropolitana era uma região pantanosa? E se formos mais atrás e eu disser que até 1890 a Avenida Paulista era uma área de cerrado? São essas curiosidades que iremos debater neste texto.

A região Metropolitana de São Paulo foi explorada desde a invasão portuguesa no século XVI. A primeira matéria-prima largamente utilizada foi o pau-brasil, de onde se obtinham a sua madeira e sua resina (extraída para uso como tintura em manufaturas de tecidos de alto luxo).

Existem três principais rios na nossa região: o Tamanduateí (nascente em Mauá), Tietê (nascente em Salesópolis, na Serra do Mar) e Pinheiros (nascente na zona sul de São Paulo). Foram rios muito importantes para os paulistas, por ser uma via de acesso hidroviário, e desde 1700 já existem relatos de exploração de ouro e ferro nas suas margens causando variações na cor das águas do Tietê, já na metade do século XVIII a exploração da cultura do açúcar provocava o desmatamento das margens do rio, causando o seu assoreamento.

A poluição dos nossos rios é bem antiga, sendo que em 1900 existiam mais de 150 empresas jogando lixo no Tietê, mas ainda assim nas décadas de 1920 e 1930, o rio era utilizado para pesca e atividades desportivas. Já na década de 50 o rio morreu de vez e virou um esgoto a céu aberto.

Na região do Grande ABC e Zona Leste/Centro de São Paulo corre o poluído rio Tamanduateí, que na língua tupi significa “rio dos tamanduás bandeira”, pois essa espécie era muito vista pelo indígenas as margens do rio na época da colonização. O entorno do rio era chamado de Várzea do Carmo que era uma região alagadiça por onde havia portos que levavam os barcos até o porto geral (atual ladeira porto geral), para escoamento de produtos e infelizmente, de escravos também. No meio do leito do rio havia um banco de areia chamado de “Ilha dos Amores”, que era um bonito e divertido espaço de lazer ajardinado para a população paulistana e do ABC Paulista.

Quem morava nas suas margens eram ribeirinhos que sofriam com as constantes enchentes, mas quando os grandes fazendeiros começaram a construir mansões próximas ao rio o governo da época começou a ter a ideia de canalizar o Tamanduateí que era um rio extremamente sinuoso e atrapalhava a construção das ruas e estradas para utilização dos carros que eram utilizados pela elite paulistana. Na década de 30 o rio já se encontrava totalmente canalizado e reto piorando cada vez mais as enchentes, pois não havia mais matas ciliares para conter a água que transbordava, no lugar dela agora tinha somente concreto e avenidas.

O processo de degradação se intensificou na década de 50 com a construção das marginais que cortam a região metropolitana de São Paulo, e uma extensa área de várzea foi concretada canalizando os rios e destruindo o entorno deles. Lugares que antes passavam as águas do rio Tamanduateí, hoje se encontra a Rua 25 de Março, que é um polo de comércio paulistano. A Várzea do Carmo não existe mais, mas a natureza sabe cobrar pelo seu espaço ocasionando as enchentes, em consequência da poluição das grandes empresas e esgotos domésticos que não são tratados pela Sabesp e pelos governos que fazem vista grossa para essas ações. Vários rios e córregos que corriam pela região paulistana foram canalizados e hoje estão por debaixo das nossas ruas.

Quem paga o preço pelo descaso dos poderosos para com os nossos rios são as pessoas mais pobres e que moram as margens dos mesmos. Recentemente vimos à tragédia que o Grande Abc e algumas áreas da cidade de São Paulo sofreram com uma enchente de proporções catastróficas, onde morreram mais de quinze pessoas, e os prefeitos do ABC pouco fizeram pela população que está sendo ajudada graças às ações de voluntários da sociedade civil e Ong’s.

Precisamos cobrar dos deputados estaduais para instaurarem uma CPI do Projeto Tietê, que foi criado em 1992 por conta de uma campanha feita pela ONG SOS Mata Atlântica e pela Rádio Eldorado, em que foram colhidas 1,2 milhão de assinaturas para a despoluição dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Só assim o governador da época, Fleury Filho do PMBD, autorizou o início do programa por causa da pressão popular. O projeto já levantou mais de nove bilhões de reais e pouco foi feito para diminuir a mancha de poluição desses rios. Os vinte e quatro anos de administração do PSDB só serviram para desviar esses recursos e não solucionar a vida dos moradores.

A avenida mais famosa de São Paulo já foi uma região de Cerrado

No linguajar botânico, a região metropolitana de São Paulo era um ecótono, ou seja, um ponto de encontro de diferentes biomas. Aqui existiam trechos de mata atlântica, cerrado, mata de araucária e até uma grande várzea que se assemelhava ao pantanal no centro-oeste do Brasil.

Entre as espécies animais mais abundantes estavam às onças-pintadas, tucanos-de-bico-verde, micos-leões-pretos e veados-catingueiros. As espécies vegetais predominantes eram bromélias, orquídeas, araucárias, palmeiras, cambucis e gramíneas.

No início do século XVII, a fauna local ainda parecia bem preservada. Segundo pesquisadores, os moradores eram alertados sobre os riscos de caminhar nas vias paulistanas “porque havia onças que comiam gente”.

Dizia-se que várias delas moravam na serra da Cantareira e desciam até a várzea do Tietê para caçar.

Se fossemos para o local que hoje está a Avenida Paulista iríamos encontrar uma grande região de cerrado, onde poderiam ser avistadas árvores como jacarandá-paulista, mimosa-do-cerrado e tarumã-do-cerrado. Há relatos sobre a presença dos felinos neste local, então coberta por uma floresta densa, chamada pelos indígenas de caaguaçu (matagal, em tupi). Um trecho da antiga mata deu origem ao Parque Trianon, um dos raros locais na zona urbana que preservam a vegetação original, e que ainda permaneçam na avenida.

Relembrar esta São Paulo antiga nos dá esperança que ainda possamos viver em harmonia com a natureza, sem mais agressões ao meio ambiente, causadas principalmente pelos grande empresários e políticos locais. Só assim os problemas como enchentes, aumento da temperatura e ar poluído irão acabar. Precisamos cobrar do poder público para que ele priorize o bem estar do meio ambiente e da população.

O meio ambiente agradece.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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