Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Educação trucou, Capitão Boldonaro pediu seis

Presidente faz referência ao chá de Boldo ao chamar qualquer política antipovo de remédio amargo.

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Acossado pela quebra de sigilo bancário de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, e do famigerado Fabrício Queiroz; jogado às cordas pelos massivos protestos de professores, estudantes e de pessoas genuinamente interessadas no futuro da educação pública brasileira; corroído por disputas intestinas em sua base no Congresso Nacional e no interior de seu próprio partido, o PSL, Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil decidiu tomar providências no sentido de continuar brincando naquele suntuoso playground em que se tornou, ultimamente, o Palácio do Planalto.

Sua briosa assessoria de Redes Sociais, regiamente paga com dinheiro público para espraiar pelos quatro cantos do país historietas surreais sobre mamadeiras eróticas sendo distribuídas em creches públicas, deliberou, com o intuito de abafar a crise e, provavelmente, por herméticas razões de ordem numerológica, subir no twitter a hashtag #BoldonaroNossoPresidente. A esquerda, sempre maldosa, descuidou de analisar em profundidade a brilhante estratégia, atribuindo a campanha de comunicação à existência de robôs entre os seguidores do Messias  no twitter, mas olvidou-se do fato de que o Capitão tem por guru um talentoso astrólogo versado nas artes ocultas, que deve ter orientado o militar aposentado a mudar de sobrenome com o intuito de afastar de si a influência danosa dos astros.

Ademais disso, o novo sobrenome  presidencial tem o condão de aproximar o Presidente dos liberais, que têm o enraizado hábito de chamar qualquer política bizarramente antipovo de remédio amargo, ao fazer uma referência ao chá de Boldo, que tem reconhecidas propriedades medicinais e um paladar um tanto acre. O nome Boldonaro remete à tal reforma da previdência, que, tendo sabor deveras acre, veio ao mundo para curar os trabalhadores da possibilidade de terem uma velhice tranquila.

Não devemos nos esquecer de que o branding Bolsonaro se encontra um tanto mal visto do mercado, com o Capitão navegando em impopularidade recorde e os filhotes metidos em esquemas inescusáveis e prestes a explodirem. Portanto, diriam os coaches corporativos, nada melhor do que um rebranding, para afastar o lídimo Capitão Boldonaro do estigma maligno associado ao próprio sobrenome. Afinal, diferentemente de Bolsonaro, Boldonaro é a nova política, ele é, tal qual o slogan da Água Tônica  Antártica, “o amargo que transforma”.

Além da mudança de nome (aos moldes de Prince, que se transformou em The Artist), Boldonaro, presidente que se gaba de ser um cara simplão, um tio churrasqueiro e inconveniente típico, com camisa de time falsificada, calça de tactel e chinelos Ryder, resolveu, com o intuito de manter intacta a sua popularidade, apelar para outro grande símbolo do devir tiozão, que o Capitão adota como meio de vida para angariar a empatia de seus apoiadores: o truco.

Ora, quem já esteve em um churrasco de família sabe que um dos pontos altos do evento é o momento em que o tio churrasqueiro, embriagado de cerveja Glacial e de elevado espírito de emulação, desafia a sobrinhada a jogar contra ele uma partida de truco. Para tanto, ele saca da algibeira um maço de cartas de baralho surrado e convoca os demais à jogatina, entre divertidas e irrealistas bravatas. Pois, Boldonaro é, nessa cena tão familiar, o tio inconveniente. Os sobrinhos são os manifestantes de 15 de março. O baralho surrado, por sua vez, traz algumas cartas marcadas pelo uso e pela malandragem.

o Capitão Boldonaro, também lhe assombram algumas táticas de jogo surradas, questionáveis, antigas, mas que, em sua embriaguez, parecem-lhe completamente funcionais. O milico-mor da República relembra e quer imitar aquele jogo histórico do amigo Fujimori, que lhe permitiu ficar algumas rodadas na mesa por meio de uma blefada épica, mas se esquece do tragicômico colega Jânio Quadros que, fazendo jogo semelhante, ficou sozinho nas brumas da história, a ver navios.

Quando os sobrinhos da educação trucaram com manifestações que abalaram ainda mais a estabilidade do tio churrasqueiro e inconveniente, Boldonaro, inspirado por Alberto Fujimori e assombrado por Jânio Quadros, pediu seis. Chamou aos manifestantes de idiotas úteis, de imbecis. Convocou uma manifestação em prol de Sua Augusta Figura para o domingo, dia 26, para não atrapalhar o trânsito.

Cabe à sobrinhada, no dia 30, pedir nove. Ele pode pedir jogo, mas, embriagado que está, deve achar que o ás de copas que ele traz nas mãos vale mais do que o zap. Boldonaro, em sua embriaguez de poder, deve achar que é Napoleão III, ou mesmo Alberto Fujimori. Acontece. Mas não passa de um pequeno Jânio de chinelos Ryder e calça de tactel, um Fernando Collor que não fala português fluente. Chama pro jogo, cartas na mesa, vamos ver quem leva os tentos. Quem sabe, assim, esse maldito e vergonhoso churrasco não se acaba em uma vitória.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista