A literatura nos tempos de cólera
Detalhe do interior da Biblioteca Nacional

A literatura nos tempos de cólera

Nos negam educação e nos oferecem violência: a literatura será resistência.

Iolanda Silva Barbosa 5 jun 2019, 20:51

Parece uma leviandade falar de Literatura em tempos tão desafiadores. Em uma conjuntura de crise- política, econômica, social, moral- e de ataques constantes a direitos duramente conquistados, como ter espaço para fruir Literatura e falar sobre ela? Como falar de acesso a livros em um país com níveis altíssimos de desemprego, em que o mercado editorial faz do livro um produto inacessível à maioria da população, que sofre com o descaso com as políticas educacionais e de promoção da cultura? O convite à imersão em outras realidades, o deleite em selecionar títulos, conhecer personagens e enredos ou simplesmente a possibilidade de se ter tempo para a leitura, parece um sonho muito distante dos tempos em que vivemos.

A cólera- que nesses tempos se manifesta no discurso e na prática daqueles que governam, não deixa de também nos encolerizar e endurecer, pela necessidade de resposta e resistência aos seus desmandos. Em meio a tudo isso, a Literatura é legada a um segundo plano. Os livros são deixados de lado para que nos ocupemos em difíceis e necessárias tarefas para garantir nossa sobrevivência. Nesse contexto, a literatura é vista mais uma vez como acessória, dispensável, e não como necessidade humana, alimento moral e intelectual.

Para além do pouco espaço que a dura realidade nos deixa para sermos humanos, produzirmos e fruirmos Arte, os próprios poderosos veem na Literatura uma ameaça, pois sabem ser ela um dos principais meios para formação, conscientização e emancipação dos oprimidos. Se encolerizam contra a ciência, o conhecimento e a cultura: nos negam educação e nos oferecem violência. Nos negam livros e nos oferecem armas. Não à toa dêmos à nossa resistência contra os cortes na educação o nome de Levante dos Livros. Erguer esses “objetos transcendentes”, como diria Caetano Veloso, capazes de “lançar mundos no mundo”[1], contra as armas que nos apontam, é resistência de grande efeito simbólico.

É importante ter consciência, no entanto, de que para os marginalizados e massacrados pelo sistema, os tempos sempre foram de cólera e, nesse sentido, a Literatura sempre foi ameaçada, relegada, ainda que por alguns também compreendida como uma forma de resistir e de se pensar a resistência.

No célebre texto em que defende o acesso à arte e à literatura como um direito humano inalienável[2], Antonio Candido resgata a ideia de que a Literatura sempre foi uma forma de expressão humana, em todas as épocas da humanidade. Os livros narram os grandes avanços e retrocessos da civilização e a própria luta de classes como um todo, através dos conflitos de suas personagens, imersos e entrelaçados a realidades sociais e políticas. Afinal, a Literatura é o “sonho acordado das civilizações” e, além disso, ferramenta fundamental para nossa humanização, especialmente quando insistem, no processo de produção e consumo do sistema capitalista e suas crises, em negar nossa humanidade.

Como então pensar a luta revolucionária, sem falar em Literatura? Sendo registro da vida humana, em sua complexidade e extensão, ela nos permite pensar dialeticamente nossos problemas e, ao nos humanizar, no catártico processo de contato com outras realidades, nos dá a possibilidade de uma nova visão de mundo e de sua organização social e política, se constituindo, como defende Candido, um “modelo de superação do caos”.

Para ser revolucionário não é necessário que um livro seja abertamente panfletário- embora sejam vários os exemplos na historiografia de escritores e narrativas engajadas, com cunho humanitário, social e político explícitos, a Literatura por si só, ao tomar os elementos da realidade e reorganizá-los, é essencialmente subversiva e revolucionária. J.P. Sartre[3], por exemplo, defende até mesmo que a literatura, em suas várias expressões, é de fato uma tomada de posição. Se conhecemos melhor o mundo, nos tornamos mais sensíveis às suas injustiças e à necessidade de sua transformação. Talvez venha daí o medo que os poderosos têm de uma sociedade letrada e leitora.

Por tudo isso, a Literatura não pode ser vista como algo acessório e dispensável, tampouco como simples instrumento de denúncia social de forma panfletária, mas em essência como legítima expressão da humanidade e de sua organização social, revolucionária e subversiva, uma vez que reorganiza os elementos da realidade e nos amplia a compreensão do mundo.

A Literatura é, portanto, nesses tempos de cólera, assim como sempre foi, resistência. Para além disso, é suprimento que alimenta o espírito revolucionário, o sensibiliza e sustenta no desejo de mudança e em sua própria humanidade. 

 Trabalhadores e estudantes do mundo, levantai vossos livros!


[1] “Livros”, Caetano Veloso (1997)

[2] “O direito à literatura”, Antonio Candido in Vários Escritos (1988)

[3] Que é literatura?, Jean Paul Sartre (1947)


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.